Feira de Hannover Messe converte ‘Brasil como risco’ para ‘Brasil como parte da solução’

Para as empresas alemãs, a pergunta deixou de ser ‘entrar ou não no Brasil’ e passou a ser ‘como escalar a presença industrial’.

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Veículo aéreo do Brasil na Feira de Hannover 2026
Brasil na Feira de Hannover 2026 (foto da Hannover Mess)

A Feira de Hannover Messe, realizada no final de abril, “aconteceu literalmente na virada da chave para a entrada em vigor provisória do acordo Mercosul–UE, em 1º de maio de 2026, e foi usada como um palco de legitimação política e empresarial do tratado”, disse Flavia Spadafora, sócia líder de Industrial Markets da KPMG no Brasil.

Em entrevista exclusiva ao Monitor Mercantil, ela também concluiu que sinais fortes ficaram da feira, que marcou uma mudança de narrativa: “De ‘Brasil como risco’ para ‘Brasil como parte da solução’ em energia, resiliência e transição industrial.”

Spadafora assegurou que, para as empresas alemãs, a pergunta deixou de ser “entrar ou não no Brasil” e passou a ser “como escalar uma presença industrial no Brasil com previsibilidade”.

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A Hannover Messe 2026 consolida o acordo UE–Mercosul?

Sim, sem dúvida simbolicamente, a feira consolidou o acordo. A Hannover Messe aconteceu literalmente na virada da chave para a entrada em vigor provisória do acordo, em 1º de maio de 2026, e foi usada como um palco de legitimação política e empresarial do tratado.

Lula e o chanceler alemão Friedrich Merz trataram o acordo, nos discursos de abertura, como ponto pacificado do ponto de vista político e como base da cooperação industrial futura.

A Declaração Conjunta Brasil–Alemanha (20/04/2026) reforça isso de forma explícita, celebrando o início da aplicação provisória do acordo. E o clima geral da feira deixou isso claro: o debate já não era mais “se”, mas “como implementar” — especialmente nos temas de indústria, minerais críticos e descarbonização.

O Brasil aproveitou a oportunidade para melhorar sua posição junto à Alemanha?

Flavia Spadafora, da KPMG)
Flavia Spadafora (foto divulgação KPMG)

Sem nenhuma dúvida. De forma consistente, estratégica e muito visível. O Brasil foi extremamente bem-sucedido em usar a Hannover Messe como vitrine, pois foi País Parceiro Oficial, com a maior presença industrial brasileira já vista fora do país, com mais de 300 empresas, 6 pavilhões e uma agenda institucional intensa.

Houve um reposicionamento claro de narrativa: saímos do discurso de exportador de commodities para player industrial, tecnológico e energético confiável. “Confiável”, aliás, foi inclusive, um adjetivo muito repetido ao longo da feira.

O Brasil soube bater na tecla certa das suas vantagens, como matriz energética majoritariamente renovável, disponibilidade de minerais críticos, capacidade real de descarbonização industrial a custo competitivo.

No plano institucional, houve reforço claro da relação, por meio de consultas intergovernamentais de alto nível, agenda concreta de investimentos, avanço no debate sobre acordo de dupla tributação e cadeias industriais resilientes — temas recorrentes e sensíveis para os alemães.

O saldo é positivo e claro: forte posicionamento do Brasil como parceiro industrial, energético e tecnológico relevante para a Alemanha.

Quais são os entraves estruturais que ainda precisam ser resolvidos?

Aqui há bastante consenso em 4 pilares, e os mesmos pontos apareceram em praticamente todas as conversas: barreiras regulatórias e narrativas ambientais (barreiras não tarifárias), pois persistem questionamentos europeus sobre agricultura, biocombustíveis e sustentabilidade brasileira; ratificação plena; e segurança jurídica.

O acordo começa a valer provisoriamente, mas existem ações no Tribunal de Justiça da União Europeia, e a ratificação definitiva ainda depende de países do bloco; competitividade sistêmica do Brasil para capturar de verdade os benefícios do acordo.

E voltamos sempre ao mesmo diagnóstico: infraestrutura, previsibilidade regulatória, ambiente de negócios mais estável. Sem isso, parte da vantagem do acordo fica no papel; integração industrial “de verdade”. O desafio vai além de exportar mais. O ponto é integrar cadeias produtivas, como: engenharia, manufatura avançada, minerais críticos, hidrogênio, IA industrial. Isso exige coordenação de política industrial, não só diplomacia.

Como você definiria o resultado da Feira de Hannover para o Brasil?

Alguns sinais fortes ficaram da feira; a Hannover Messe 2026 marcou uma virada clara de narrativa: de “Brasil como risco” para “Brasil como parte da solução” em energia, resiliência e transição industrial. O acordo UE–Mercosul foi tratado como algo além de comércio: um instrumento geopolítico, uma resposta à fragmentação do comércio global, uma alternativa concreta à dependência excessiva de cadeias concentradas na Ásia.

E talvez o ponto mais pragmático para as empresas alemãs, a pergunta deixou de ser “entrar ou não no Brasil” e passou a ser “como escalar uma presença industrial no Brasil com previsibilidade”.

Por Andrea Penna, especial para o Monitor

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