Feriado, China e política

Semana começa com feriado de Martin Luther King nos EUA, o que significa liquidez mais apertada nos mercados abertos no mundo.

A nova semana começa com o importante feriado de Martin Luther King nos EUA, a divulgação de bateria de dados sobre a conjuntura da China e, aqui, pressões políticas internas e queda da aprovação de Bolsonaro. Tudo isso vai formar o comportamento da sessão de hoje, somando ainda as relações diplomáticas da Rússia com a Europa e os EUA, por conta das tensões e ataques cibernéticos contra a Ucrânia.

Recapitulando a semana passada, a Bovespa registrou alta acumulada de 4,09%, com índice em 106.927 pontos, o dólar em queda de 2,8%, cotado a R$ 5,513, Dow Jones com perda de 0,88% e Nasdaq com -0,28%.

Feriado nos EUA significa liquidez mais apertada nos mercados abertos no mundo e baixa precificação dos ativos transacionados. Mas o dia contém indicadores importantes que mexem com os mercados. Hoje, as Bolsas da Ásia terminaram o dia com comportamento misto, mas Xangai teve alta de 0,58% e Tóquio ficou com +0,74%. Mercados da Europa conseguindo manter altas neste início de manhã e futuros do mercado americano também com altas. Aqui, na última sexta-feira, chegamos a vazar o patamar de 107 mil pontos do Ibovespa, mas o mercado só vai adquirir maior tração quando conseguir superar o patamar de 108.600 pontos.

Durante a madrugada, a China anunciou o PIB de 2021 com expansão de 8,1% (igual ao previsto), alta de 4% em relação ao quarto trimestre e, no trimestre encerrado, expansão de 1,6%. A produção industrial de dezembro na comparação anual cresceu 4,3%, acelerando de anterior em +3,8%. Já as vendas no varejo surpreenderam negativamente com alta de 1,7% em dezembro e 3,6% na comparação anual, desacelerando. Investimentos em ativos fixos cresceram 4,9% em 2021, de previsão de +4,8%. As vendas de imóveis de 2021 ficaram com alta de 5,3%. Além disso, o Banco Central do país (PBoC) reduziu a taxa de juros de 1 ano para 2,85% e a de curto prazo (sete dias) para 2,10%. E pode agir ainda na semana na redução da taxa básica. Mas o radar dos investidores também acompanha a evolução da Covid-19, com hospitais lotando e a Áustria podendo ser o primeiro país a tornar obrigatória a vacinação dos adultos.

No mercado internacional, o petróleo WTI mostrava leve alta de 0,14% em Nova Iorque, com o barril cotado em US$ 83,94 (já esteve mais alto). O euro era transacionado em alta leve para US$ 1,141 e notes americanos de 10 anos fecharam em 1,78%. O ouro e a prata tinham altas na Comex e commodities agrícolas mostravam altas.

No segmento doméstico, o desgaste de Jair Bolsonaro preocupa, e já montaram um núcleo de campanha para deter a queda de sua popularidade, que pressiona a economia para reajustar as faixas de Imposto de Renda e fazer valer promessas de campanha. O movimento por reajuste de salários de servidores vai ampliando e começa a gerar transtornos em portos e fronteiras. Já o candidato Lula declarou que os mercados não podem determinar a pauta econômica.

Na economia, a FGV anunciou o IGP-10 de janeiro com alta de 1,79%, vindo de -0,14%, levando a taxa de 12 meses para alta de 17,82%, com matérias-primas brutas com elevação no período de 5,43%. Já o IPC-S da segunda quadrissemana de janeiro registrou alta de 0,43%, desacelerando de anterior em 0,53%.

Na agenda do dia, a nova pesquisa semanal Focus do BC, o saldo da balança comercial na semana anterior e o IBC-Br de novembro, uma prévia do PIB. Começa também o Fórum Econômico Mundial, com presença de Christine Lagarde, do Banco Central Europeu; e Janet Yellen, do Tesouro dos EUA.

Expectativa para o dia de Bovespa em alta, dólar ainda fraco e juros em alta.

Aos menos iniciados, a sensação que fica é que a Bovespa poderia ter endoidado. Quando os mercados dos EUA e da Europa batiam sucessivos recordes, por aqui, padecíamos do Ibovespa querendo vazar para baixo o patamar de 100 mil pontos. Agora que os mercados no exterior mostram maior fragilidade, a nossa Bovespa anda na contramão, em alta. A última sexta-feira foi dia típico disso, sem que haja explicação mais lógica, já que recentemente a situação por aqui piorou um pouco mais.

De um lado, podemos observar que melhorou o comportamento das ações líderes de nosso mercado, com empresas exportadoras no geral e instituições financeiras “segurando” o mercado, numa busca por companhias mais maduras, com boas administrações e política definida de distribuição de resultados. De outro, já vínhamos alertando para o fato de que os mercados ajustaram boa parte dos problemas intuídos de 2022, ainda no ano recém-findo. Também podemos argumentar o ingresso de recursos pelos segmentos de investidores.

Só para lembrar, até o último dia 12, os investidores estrangeiros tiveram fluxo positivo na Bovespa em todas as sessões, aportando recursos no montante de R$ 6,79 bilhões, com saques dos institucionais de R$ 7,2 bilhões, investidores individuais com saídas de R$ 790,8 milhões, empresas com aporte de R$ 783,4 milhões e instituições financeiras com +R$ 600,6 milhões. Mas é bom lembrar que a postura dos estrangeiros ainda detém grande poder de motivar os mercados. Então, tudo indica que, além da concentração do mercado local, estamos conseguindo cobrir o desequilíbrio anterior. Mas o quadro externo continua com muitas incertezas. A Ômicron é aparentemente menos letal, mas muito mais infectante que as variantes anteriores, e pode acarretar problemas para a retomada da economia global. Os dados de conjuntura que estão saindo mostram alguma desaceleração, e a inflação é preocupação maior dos países desenvolvidos, e teremos estreitamento da liquidez. Além disso, a diplomacia internacional mostra preocupação com as tensões entre Rússia e Ucrânia.

Só para exemplificar isso, na sexta-feira tivemos o primeiro déficit na balança comercial da Zona do Euro desde 2014, o Banco Central japonês (BoJ) debate eventual aumento de juros, a safra de balanços do quarto trimestre que está começando pode trazer algumas surpresas negativas, como o resultado do Citigroup de sexta. Na Alemanha, o PIB fraco de 2021 de +2,7% pode ensejar primeiro trimestre de 2022 também fraco. Nos EUA, tivemos a divulgação das vendas no varejo de dezembro com queda de 1,9%, quando o previsto era -0,10%. Sem automóveis teria sido ainda pior, com -2,3% (falta de produtos e inflação pesando).

Já a produção industrial de dezembro mostrou queda de 0,10%, mas o quarto trimestre mostrou alta anualizada de 4%. Gargalos na cadeia de insumos comprometeram. Mas a confiança do consumidor de Michigan de janeiro encolheu para 68,8 pontos, quando o previsto era que ficasse em 70 pontos. A Casa Branca, por sua vez, junto a aliados, se manifestou preocupada com ataques cibernéticos contra a Ucrânia e disse que os russos fabricam falsas provocações.

Podemos juntar isso com as novas declarações de dirigentes regionais do Fed, com John Williams, da importante regional de Nova Iorque, falando em aumento de juros, Ômicron no pico de contágio gerando problemas na saúde e reduzindo a força de trabalho, e Neel Kashikari (Minneapolis) dizendo que não está claro quando a situação volta à normalidade. No meio de tudo isso, o dólar se mostra instável e desequilibra os mercados.

No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em Nova Iorque, mostrava nova alta forte de 2,07%, com o barril cotado a US$ 83,82, mesmo com a China tendo acertado com os EUA liberação de estoques. O euro tinha queda para US$ 1,141 (com volatilidade) e notes americanos de 10 anos com taxa de juros de 1,76%, em alta. O ouro e a prata com quedas na Comex, e commodities agrícolas com viés de baixa na Bolsa de Chicago. Mais uma queda também do minério de ferro, em Qingdao, na China, de 1,4%, com a tonelada em US$ 128,01. No cenário local, o IBGE anunciou as vendas no varejo de novembro com alta de 0,6%, maior do que o previsto, mas contra igual período de 2020 em queda de 4,9%. No ano, uma alta de 1,9%. O varejo ampliado com expansão de 0,5%, e no ano com alta de 5,3%. Mas os números foram apresentados com qualidade baixa, pois foram concentrados em necessidades básicas. Supermercados tiveram expansão de 0,9% e a Black Friday não correspondeu. A média trimestral encolheu 0,1%, e cinco de oito atividades tiveram quedas. Estamos 5,1% abaixo do pico ocorrido em novembro de 2020, mas 1,2% acima do período pré-pandemia.

No âmbito político, depois de dar a palavra final do Orçamento para a Casa Civil, Bolsonaro voltou a dar entrevista e criticar governadores sobre ICMS, o PT e Lula pela proteção dos mais pobres e os resultado da eleição de 2018, em que teriam ganhado no primeiro turno. Já o Sindifisco registrou que a mobilização da Receita Federal já atinge as fronteiras da Argentina e do Paraguai, e promete mais depois da reunião sem definição com Paulo Guedes.

No mercado, a sexta foi dia de dólar oscilando entre altas e baixas para encerrar o dia com -0,29% e cotado a R$ 5,51. No mercado acionário, dia de queda nas principais Bolsas europeias, com Londres perdendo 0,28%, Paris com -0,81% e Frankfurt com -0,93%. Madri e Milão com perdas de respectivamente 0,27% e 1,08%. No mercado americano, faltando meia hora para o encerramento, Dow Jones tinha -0,72% e Nasdaq com +0,39%. Na Bovespa, também meia hora antes do fechamento, mais um dia de alta de 1,37% e índice em 106.971 pontos.

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Alvaro Bandeira

Economista-chefe do Banco Digital Modalmais

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