Ficção & realidade

Imagine dez anos depois do naufrágio do Titanic, Edward J. Smith adentrando o cais de onde zarparia o sucedâneo do transatlântico e exigindo aos berros de passageiros e da companhia total autonomia para comandar a nova geringonça. A pantomina de Smith provavelmente resultaria numa dessas séries com que Hollywood costuma nos ameaçar, algo como Titanic II, o desastre definitivo.
A lembrança do patético comandante do Titanic é inevitável ao vermos Domingos Cavallo, depois de uma dieta de caloria eleitoral inferior a 15%, retornar ao governo argentino exigindo superpoderes do Congresso. Ao contrário de Titanic II, porém, A volta de Cavallo estréia com pouco apelo de bilheteria e prenúncio de duração pouco maior do que O pacote de Murphy.
As exigências de Cavallo, repudiadas pelas urnas há pouco mais de um ano, revelam autoritarismo incompatível com o processo democrático e denunciador de cacoetes herdados dos que tempos em que chafurdava na podridão da ditadura militar a que serviu por longo período. Canastrão assumido, Cavallo faria melhor papel se optasse por protagonizar outra produção, Réquiem de um delírio cambial, que, como reforçam os acontecimentos de cada dia, tem estréia inevitável em Buenos Aires.

Patada
Os ataques do último pacote fiscal argentino à cultura, com cortes de subvenções que inviabilizam o setor, mostram que o obscurantismo econômico não é a única semelhança a ser guardada entre o período Menem/De la Rúa com a era Collor. E que, certamente, não é o cavalo, mas sim um seu primo mais próximo, o melhor símbolo do neoliberalismo argentino.

Sem limite
Além do péssimo retrospecto na privatização das telecomunicações e da siderurgia, o BNDES acrescentou uma preocupação àqueles que temem pelo destino de Furnas. Quem está tomando a frente do assunto no banco é uma pessoa que goza de baixo conceito técnico junto a colegas do setor de energia, sendo mais conhecido por suas idéias pitorescas. Isso pôde ser constatado em reunião em Brasília, convocada pelo deputado Aécio Neves (PSDB-MG), presidente da Câmara. Presentes representantes de Furnas, do BNDES e especialistas do setor, todos ouviram perplexos inusitada defesa da privatização da empresa. Trilhando esse caminho, a geração de energia no Brasil vai para o brejo.

Camisa de força
A inconfidência foi cometida neste fim de semana por um grupo de apoiadores do alcaide em questão: o prefeito de uma das principais cidades do país é maníaco depressivo. A acreditar no animado papo dos amigos, pelo menos um deles assegura já ter presenciado crises que comprovariam sua versão.

Confirmação
À época da privatização da malha ferroviária de carga houve diversas advertências no sentido de que os diversos compradores poderiam utilizar os trechos que adquirissem para transportar a sua própria produção, sem a prioridade de gerar receita e lucro. Agora se observa que a CSN, após decidir vender o que não estiver diretamente ligado à produção e venda de aço, resolveu alienar a participação (12%) no capital da Ferrovia Centro Atlântica (FCA). O mesmo não ocorrerá em relação à MRS Logística, fundamental para o escoamento da produção em Volta Redonda.

Mercado
Depois da performance intelectual de Luiz Estevão, já tem produtor de remédio para emagrecimento pensando em contratar o ex-juiz Nicolau dos Santos para garoto propaganda.

Nem aí
O anúncio do presidente FH da proposta do governo que oficializa a tunga de 15% da correção do FGTS e aumenta os custos do setor produtivo deu vazão à retórica patética que acompanha o tucanato. Em dado momento, ao tentar justificar a postergação para as calendas do pagamento aos trabalhadores que têm a receber mais de R$ 1 mil, argumentou que o fato de essa parcela representar 2% do total revela que “também existe concentração de renda na força de trabalho”. Sobre as responsabilidades de seu governo, responsável pelo aumento do desemprego, principalmente, nos setores com menor qualificação, nenhuma palavra.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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