Fim do ‘século asiático’?

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 16:09 - 26 de jun de 2020

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No Brasil, o grave acidente ocorrido há alguns dias, precisamente em 15 de junho, na fronteira entre a Índia e a China, causando três vítimas nas fileiras do exército indiano, passou quase despercebido. Esse incidente, aparentemente sem importância, pode, no entanto, revelar-se como sendo uma fonte de grande perturbação internacional, mesmo de fundamental importância para o futuro do mundo.

O incidente ocorreu durante um processo de de-escalation dos conflitos em andamento no Vale Galvan, na área disputada de Aksai Chin-Kadahk. Nesta área, os dois países enviaram tropas, nas últimas semanas.

O jornal chinês China Daily salienta de que forma as divergências entre os dois grandes Estados asiáticos, que, ao longo dos anos, andavam se atenuando, se acentuaram após o fato ocorrido na fronteira com a China, acusando os indianos de terem cruzado a fronteira entre os dois países. Segundo a emissora indiana NDTV, os mortos não foram resultado de tiroteios, mas de combate corpo a corpo.

Segundo a nota divulgada pelo exército indiano, teria havido vítimas “de ambos os lados”, embora ainda não tenham surgido informações sobre possíveis perdas do lado chinês. Entre os mortos declarados nas fileiras indianas, há um oficial e dois soldados.

Por seu lado, a China acusou a Índia de ser responsável pelo acidente: “Em 15 de junho, as tropas indianas violaram seriamente o acordo bilateral e cruzaram a fronteira duas vezes, antes de se envolver em atividades ilegais e provocar e atacar soldados chineses, resultando em um sério confronto físico”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian.

Sempre de acordo com o jornal chinês, com a ascensão ao poder do atual presidente nacionalista indiano, Narendra Modi, as relações entre os dois países pioraram profundamente. Parecia, de fato, que, com ele na presidência, deveria desencadear-se um novo conflito na Ásia, como aparentemente confirmado pela nova assertividade em suas fronteiras, em particular, as do Paquistão e da China, e o cancelamento da autonomia da Caxemira.

Pelo contrário, a política indiana, nas relações com a China, foi bem diferente. De fato, com Modi, a Índia estaria se afastando das diretrizes impostas pelas potências ocidentais, que quase a forçaram a desempenhar o papel de inimigo irredutível da China, a fim de contrastar, assim, a política expansionista chinesa no continente asiático.

A nova política estabelecida por Modi o levou a reconsiderar as relações com o Dragão (a China) e a estabelecer laços pessoais estreitos com seu colega chinês, Xi Jinping.

Como consequência dessa nova fase de distensão, a disputa na fronteira, no Vale de Galvan, assumiu uma nova luz. De fato, a fronteira acima mencionada havia sido projetada pelas potências coloniais, sem a aprovação dos países envolvidos, causando, assim, o surgimento de repetidos confrontos. Com o advento de Modi, os dois países concordaram em manter um diálogo que não permitiria que a disputa de fronteira se tornasse o pavio, capaz de aniquilar o relacionamento entre eles.

Consequentemente, foi aberta uma nova era de cooperação, em diferentes setores, permitindo que a China se tornasse o segundo maior parceiro comercial da Índia e, com isso, se beneficiar do crescimento do Dragão chinês para desenvolver a sua economia.

Por esse motivo, a diatribe na fronteira entre os dois países assume um significado que vai além do acidente, eliminando, subitamente, tudo o que havia sido construído nos últimos anos.

Para voltar à antiga política anti-China, não são apenas os nacionalistas que sopram no fogo, mas também a oposição, representada por Raul Ghandi, chefe do Partido do Congresso. De fato, este último está exortando Modi a dar uma resposta dura à incursão das tropas chinesas na fronteira com a Índia, dificultando a tentativa de reconciliação com o governo chinês, devido ao risco de Modi perder a liderança do movimento nacionalista.

Essa nova conflitualidade pode influir, profundamente, sobre o futuro do mundo. De fato, a normalização das relações entre os dois países asiáticos poderia abrir o caminho ao assim dito “século asiático”, sucessor, portanto, do século dominado pelos norte-americanos.

C. Uday Bhaskar, indiano diretor da Sociedade de Estudos Políticos (SPS), escrevendo no South China Morning Post, afirma que “o aumento da tenção entre China e Índia, está afastando perigosamente a esperança de um século asiático.” Em outro artigo, no The India Express, explica: “Com a China em crescimento, a Índia decidiu impedir a repetição de sua humilhação, em 1962, e com o crescimento das tensões na região, as esperanças de um “século asiático” parecem mais esquivas do que nunca.”

No China Daily, o jornalista Han Hua, no artigo de 19 de junho, escreve: “Como a China resolveu suas disputas fronteiriças com todos os seus vizinhos em terra, exceto com a Índia e o Butão, é definitivamente do interesse da China resolver sua disputa de fronteira com a Índia. Supõe-se que a Índia também queira um vizinho pacífico” e reitera que: “Sem uma estável relação entre a Índia e a China, o ‘século asiático’ não poderá se concretizar.”

O Vale de Galvan, então, tornou-se um dos pontos críticos do mundo. De que forma a crise será resolvida é algo imprevisível, pois existem interesses, devidos e indevidos, para que o surgimento do “século asiático” se realize. Como bem afirmou Han Hua, a China tem os maiores interesses, ao fim da diatribe, assim como o presidente indiano, Modi. Parece, porém, muito difícil que este possa encontrar um acordo que lhe permita impedir derrotas internas muito graves.

 

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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