A flutuação do câmbio completou dois anos em janeiro e recolocou na agenda de prioridades do País a questão crucial de voltar a gerar superávits comerciais, num modelo mais atualizado tecnologicamente do que o vigente no período 1979/90, durante os governos Figueiredo e Sarney, e posto de lado, posteriormente, nos dois anos e meio da tumultuada gestão Collor. Itamar não teve tempo para mexer na política cambial, deixando, a contragosto, a tarefa para o presidente Fernando Henrique Cardoso. Durante o primeiro mandato de FH, a obsessão pela nova moeda – o real – valorizada quase quebrou o setor industrial, mas, na visão dos estrategistas do Planalto, atraiu para cá um fluxo de dólares nunca antes registrado.
Essa prioridade que, em artigos anteriores, chamei de política de atrair dólares a qualquer preço, tinha duas finalidades: fechar, com a entrada de dólares estrangeiros, o balanço anual de pagamentos e permitir aos setores industriais defasados tecnologicamente a importação de máquinas e equipamentos mais avançados. O preço de tal estratégia, contudo, foi elevado em termos sociais, com a perda de quase um milhão de empregos, e o aumento da concorrência interna, já que quase 80% da entrada do capital estrangeiro no País, nesse período, concentrou-se nas privatizações e na disputa de faixas atraentes do mercado interno.
Em outras palavras, parcela ínfima dos dólares que ingressaram na economia brasileira, no período 1994/99, se destinaram ao setor exportador, o que significa que esses dólares não vão gerar divisas. Esse fato obrigou o governo a abandonar de vez a política de atrair dólares a qualquer preço, cuja face mais visível era o real artificialmente valorizado em relação à moeda americana, e a adotar a flutuação do câmbio, em meados de janeiro de 1999. Obviamente, essa guinada visava, dentre outras coisas, ao fortalecimento da capacidade de competição do setor produtivo em face da concorrência estrangeira globalizada aqui instalada e à retomada do modelo exportador.
É claro que o maior desafio, na troca das prioridades da política econômica, passou a ser, desde então, a emergência do ajuste fiscal (o equilíbrio das contas públicas), o que foi feito por meio do empréstimo do FMI e do arrocho fiscal do setor produtivo e da classe média assalariada.
A competente administração da política cambial, posta em prática pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, trouxe reflexos imediatos e positivos para o setor exportador de manufaturados, apesar dos déficits comerciais registrados em 1999 e em 2000. Dois exemplos: o setor de calçados elevou suas exportações no ano passado em nada menos do que 22%. Para este ano, a expectativa dos calçadistas é aumentar as vendas para o exterior em mais 30%. Por sua vez, o setor têxtil registrou um desempenho tão brilhante em suas exportações durante o ano passado que já defende abertamente a antecipação do cronograma de criação da Associação de Livre Comércio das Américas (Alca) de 2005 para 2003).
À primeira vista, isso sugere que esses dois setores, dentre outros, aproveitaram as importações baratas do período 1994/99 para comprar máquinas e equipamentos mais atualizados em termos de tecnologia. Analistas do comércio exterior têm ignorado esse fato, esquecendo-se de que o fraco desempenho das exportações no biênio 1999/2000 deveu-se basicamente aos produtos agrícolas. Nesses dois anos, por exemplo, o Vietnam tornou-se o segundo maior exportador de café do mundo.
Com a volta de Celso Lafer ao Itamaraty, o esforço exportador terá, sem dúvida, mais um gabaritado defensor.
Miguel Ignatios
Presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).















