Fome de especulação

A súbita disparada dos preços dos alimentos em todo o mundo, ocorrida no final de 2006 – em um ano os preços do trigo subiram 80%, os do milho, 90%, e os do arroz, 320% –  lançou mais de 200 milhões de pessoas novamente abaixo da linha da desnutrição. Segundo o jornalista inglês Johann Hari, no The Independent de 2 de julho, a maioria das explicações dadas na época se revelaram falsas. O problema não ocorreu por uma queda de oferta – na verdade, de acordo com o Conselho Internacional de Grãos, a produção global de trigo chegou a aumentar no período. Tampouco houve um problema de demanda, que caiu 3% no período.

Derivativos
A causa real foi outra, analisa Hari: o efeito da desregulamentação dos contratos de futuros de alimentos ocorrida na década de 1990, por pressão dos grandes bancos de investimentos como o Goldman Sachs, que transformou tais contratos em “derivativos que podiam ser comprados e vendidos entre operadores que nada tinham a ver com a agricultura”, criando um “mercado de especulação com alimentos”.

Qual a função?
Em 2006, alguns especuladores financeiros saíram fora do mercado hipotecário dos EUA, que estava em colapso e apostaram na alta dos preços dos alimentos. A oferta e a procura de derivativos baseados nos alimentos aumentou maciçamente – o que motivou a disparada dos preços. A bolha estourou somente em março de 2008, quando a situação ficou tão ruim nos EUA que os especuladores tiveram que cortar os seus gastos para cobrir os seus prejuízos por lá.
“Fatos como os descritos por Hari tornam difícil entender como pessoas educadas e morais ainda acreditam que os jogos especulativos cumprem alguma função econômica positiva”, analisa o boletim eletrônico Resenha Estratégica, que defende ação conjunta dos Estados nacionais para restringir estes instrumentos.

Alerta
A denúncia da especulação já havia sido feita em uma série de matérias do jornalista Rogério Lessa neste MONITOR MERCANTIL, em 2008, como: “Fome de lucro eleva preço dos alimentos” (18 de janeiro), “A maior fome é a da especulação” (29 de maio) e “Especulação financeira ignora  a preocupação com a fome mundial” (30 de maio).

Das arábias
Dubai foi o destino de 150 revendedores Esso de todo o Brasil que participaram da campanha Você Conquista, realizada pela Cosan. Com a promoção, as vendas aumentaram 105%. Os ganhadores tiveram tratamento de xeques: foram recepcionados por 20 limusines e ficaram no Madinat Hotel, pertencente ao complexo do Burj Al Arab, um dos mais caros do mundo, construído em uma ilha artificial na praia de Jumeirah. A campanha foi desenvolvida pela Larrat.

Rigor
O pouco caso como são tratados os consumidores pelas concessionárias de serviços públicos mostra que monopólio – quando necessário – só funciona com eficiente regulação. Não é isso o que ocorre no Brasil. Nenhuma agência reguladora age para proteger o cliente. Ao contrário, normalmente se vê uma cumplicidade muito grande entre empresas e aqueles que as deveriam fiscalizar.
Quando o governo tem uma atuação forte – caso, por exemplo, da expansão da banda larga via Telebrás – milagrosamente as empresas privadas se mexem e prometem universalizar o que chamam de banda larga (velocidade que seria considerada ridícula em outros países).
Na telefonia, em locais onde há concorrência, o serviço melhora um pouco e o preço baixa. O problema é que a maioria das empresas miram apenas o mercado corporativo, mais lucrativo, deixando o consumidor individual à mercê de um monopólio. Em outros casos, parecem agir como um cartel.
Bom exemplo é o do celular pré-pago, com as tarifas mais altas do mundo – e com vantagem tão grande para o segundo colocado que só um corte radical permitira deixar a vergonhosa liderança deste ranking.
Haja pressão da opinião pública para cobrar de governos e justiça rigor para mudar esse quadro.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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