Fome: neoliberalismo faz Brasil retroceder mais de uma década

Em 5 anos, mais 33 milhões de pessoas sem alimentos adequados à mesa.

Conjuntura / 14:32 - 17 de set de 2020

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Foi divulgada nesta quinta-feira pelo IBGE a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, que acompanha o cenário da insegurança alimentar no Brasil. Com dados referentes a 2018, o levantamento mostra expressivo recuo da tendência que vinha sendo registrada nos anos de 2009 e 2013, e agora a proporção de domicílios com segurança alimentar caiu para 63,3%, abaixo do observado em 2004, que era de 65,1%.

A insegurança alimentar grave esteve presente no lar de 10,3 milhões de pessoas ao menos em alguns momentos entre 2017 e 2018. Dos 68,9 milhões de domicílios do país, 36,7% estavam com algum nível de insegurança alimentar, atingindo, ao todo, 84,9 milhões de pessoas. Em 2013, último dado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), eram 52 milhões nessa situação.

O levantamento do IBGE divide a insegurança alimentar em 3 níveis: leve (incerteza quanto ao acesso aos alimentos e queda na qualidade); moderada (quantidade restrita de alimentos); e grave (privação severa no consumo de alimentos, podendo chegar à fome).

Os dados do IBGE mostram um enorme retrocesso e confirmam os alertas que vínhamos fazendo enquanto sociedade civil desde 2018. Os números divulgados confirmam que em somente 5 anos o país retrocedeu 15 anos em sua condição de segurança alimentar. Em 2018, eram mais de 25 milhões de domicílios com algum grau de insegurança alimentar. Número que possivelmente vem aumentando ainda mais nos últimos anos”, avalia Francisco Menezes, analista de Políticas e Programas da ActionAid no Brasil.

A fome é resultado da situação de extrema pobreza de parte de nossa população e da ausência, insuficiência ou equívocos das políticas públicas que deveriam enfrentar o problema. O Brasil teve uma trajetória muito positiva da redução da fome por quase duas décadas. As crises econômica e política que ocorrem a partir de 2015 e as medidas e desdobramentos delas decorrentes trouxeram o país de volta a uma situação que antes pensávamos definitivamente encerrada. Não há como seguir fechando os olhos para essa realidade e admitindo a continuidade desse rumo”, resume Menezes.

A partir de 2015, a política econômica neoliberal foi radicalizada, com sucessivos cortes de gastos que levaram à recessão, cujos efeitos se prolongam até hoje.

Peso do arroz é quase 50% maior no grupo com insegurança alimentar grave

Uma outra informação da POF do IBGE mostra o efeito da alta dos alimentos básicos – arroz e feijão – que está ocorrendo em 2020. O gasto médio mensal familiar com carnes, vísceras e pescados em domicílios em situação de segurança alimentar foi de R$ 94,98, ao passo que essa despesa foi de R$ 65,12 entre as famílias em que há privação mais severa de consumo de alimentos.

Por outro lado, o gasto com alimentos mais básicos, como arroz, feijão, aves e ovos é maior entre o grupo de insegurança alimentar grave. A maior diferença foi observada em relação ao arroz: o gasto médio mensal dos domicílios em segurança alimentar foi de R$ 11,32, enquanto nos de insegurança alimentar grave foi de R$ 15,01.

Além de o alimento ter uma importância maior dentro dos gastos, essas famílias têm um padrão de consumo diferente. Nele você vê que a importância de cereais e leguminosas é grande nas famílias com insegurança alimentar, tanto em termos de gastos quanto em termos de quantidade”, destaca José Mauro de Freitas, técnico da equipe da POF.

 

Metade das crianças menores de 5 anos viviam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar

10,3 milhões de pessoas viviam em domicílios em que houve privação severa de alimentos ao menos em alguns momentos em 2017-2018.

Dos 68,9 milhões de domicílios no Brasil, 36,7% estavam com algum grau de insegurança alimentar, atingindo 84,9 milhões de pessoas.

A prevalência nacional de segurança alimentar caiu para 63,3%, em 2017-2018, alcançando seu patamar mais baixo.

Metade das crianças menores de cinco anos do país (ou 6,5 milhões de crianças nessa faixa etária) viviam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar.

Menos da metade dos domicílios do Norte (43,0%) e Nordeste (49,7%) tinham acesso pleno e regular aos alimentos.

Dos 3,1 milhões de domicílios com insegurança alimentar grave no Brasil, 1,3 milhão estava no Nordeste.

Mais da metade dos domicílios com insegurança alimentar grave eram chefiados por mulheres.

Os domicílios com pessoa de referência autodeclarada parda representavam 36,9% dos domicílios com segurança alimentar, mas ficaram acima de 50% para todos os níveis de insegurança alimentar.

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