Formação dos consensos gerais na atualidade

Por Felipe Quintas, Gustavo Galvão e Pedro Augusto Pinho.

Opinião / 15:22 - 7 de jan de 2020

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Há 80 anos, a sociedade humana estava mergulhada numa guerra mundialmente espalhada. Porém o que provocaria a grande mudança na vida de todos aparecia em pesquisas científicas, em laboratórios empresariais e ambientes acadêmicos, era o que denominaremos “cibernética”.

Não significa que os processos de dominação, de pessoas e sociedades, não existissem antes e desde sempre. Novas tecnologias e conhecimentos, então desenvolvidos, dominaram áreas mais amplas e mais complexas. Trouxeram também soluções inovadoras.

A palavra grega “kybernetes”, que se traduz por timoneiro, ainda hoje mal entendida, entrou no repertório comum pelas mãos do matemático estadunidense Norbert Wiener (1894–1964), que assim denominou seu livro, de 1948, sobre seus estudos a respeito dos mecanismos de controle e de comunicação nos animais e nas máquinas.

 

Os fatos passaram a ser substituídos por

ilusões que interessam aos donos do poder

 

Mas a investigação sobre um processo comum, que permitisse estudar as diversas estruturas físicas e cognitivas com mesmo modelo, tivera início em 1937, quando o biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy (1901–1972) apresentara a “teoria de sistemas gerais”. Ainda que com imprecisões, buscava-se o elo que explicaria construções diferentes como as redes neuronais, estruturas sociais, filosofia e tudo que fosse visto como uma totalidade, impossível de ser entendida por seus elementos, tomados isoladamente.

No prefácio à segunda edição de Cybernetics (N. Wiener, Cybernetics or Control and Communication in the animal and the machine, The M.I.T. Press, Cambridge, Mass, 1961, 2nd edition), lê-se, em tradução livre: “As noções de informação estatística e teoria de controle eram novas e talvez até chocantes para as atitudes estabelecidas na época”.

Wiener mostrava que o elo comum aos sistemas era a informação. Pouco antes, trabalhando para o Bell Telephone Labs, em 1948, o engenheiro e criptógrafo estadunidense Claude Shannon (1916–2001) publicara o revolucionário artigo “A Mathematical Theory of Communication” (The Bell System Technical Journal, Vol. 27, July-October, 1948), mostrando que sua teoria tinha várias aplicações e nas mais diversas áreas do conhecimento, tais como inferências estatísticas, processamento de linguagens, criptografia, neurociência, computação quântica, dentre outras.

Fechava-se, numa década, a base teórica que redirecionaria o conhecimento e os rumos da sociedade. Possibilitaria criar um consenso, tão envolvente e natural como o ar que respiramos. Embora com interesses e motivações nem sempre perceptíveis, mas dominadores como, desde priscas eras, sempre empolgara os poderes.

A medida, em teoria da informação, é a entropia, um cálculo probabilístico que expõe o grau de casualidade, de indeterminação, que algo possui. Ela está ligada à quantidade de informação. Quanto maior a informação, maior a entropia. Quanto menor a informação, menor a escolha, menor a entropia.

Este processo quantifica a incerteza envolvida no valor de uma variável aleatória ou na saída de um processo aleatório. Por exemplo, um jogo de cara ou coroa com uma moeda (dois resultados igualmente prováveis) fornece menos informação (menor entropia) do que a rolagem de um dado de seis faces (com seis saídas equiprováveis).

Para estruturar a mensagem, que é a condutora da informação, o modelo distingue cinco elementos. A fonte, onde residem todas as mensagens possíveis, o codificador, que colocará a mensagem em condição de percorrer/vencer o canal até alcançar o decodificador, que colocará a mensagem apta à compreensão/emoção do receptor.

Exemplificando. Ao pedir uma bebida num bar, dentre todas as palavras possíveis, na língua daquele local, para enunciar seu pedido, você fala: “Me dá uma água com gás”, que tem uma determinada probabilidade de ocorrer. Ao pronunciá-la, você codifica a sua mensagem para atravessar o espaço que o separa do atendente. Poderia, por exemplo, escrever ou usar a língua de sinais, libras, ou seja, outro codificador. O canal, neste exemplo, é o ar, o espaço físico entre você e o atendente, que, de modo não consciente, decodifica o som ouvido, que é a mensagem “me dá uma água com gás”.

Ao tratar da mensagem, é imprescindível referirmo-nos ao filósofo e linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857–1913) e sua fundamental obra póstuma, Cours de Linguistique Générale (1916) (em português, Curso de Linguística Geral, tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein, Editora Cultrix-Editora da Universidade de S.Paulo, SP, 1969).

Escreve Saussure: “Pode-se então conceber um ciência que estude a vida dos signos no seio da vida social; ela constituiria uma parte da psicologia social e, por conseguinte, da psicologia geral; chamá-la-emos de Semiologia (do grego sèmeîon, “signo”)”. E o próprio linguista denomina significado a impressão psíquica trazida pela “imagem acústica”, sendo esta o significante.

Na teoria da informação, separamos na mensagem seus dois componentes: o suporte, a base física (acústica, gráfica, sensorial para alguma percepção) e a semântica, a compreensão psicossocial, qual associação nossa mente fará com aquele suporte.

Discorrendo sobre os suportes e as semânticas, o matemático francês Louis Couffignal (1902–1966) (Les Notions de Base, Gauthier-Villars Editeur, Paris, 1958) demonstra que um suporte comporta mais de uma semântica e que, igualmente, embora mais dificilmente, podemos associar a uma semântica mais do que um suporte.

 

Ampla lista de falsos consensos que assumimos,

seguindo o ‘senso comum’ fabricado

 

A dificuldade assinalada decorre de um fenômeno social denominado “pattern”, ou seja, a ideia ou a sensação que lhe vem à mente em função de um estímulo qualquer: uma palavra, uma música, um sabor, um perfume, determinada condição atmosférica etc. Entretanto, não é estatisticamente observável que haja dissociação entre o estímulo e a emoção. Estas relações costumam ser unívocas.

Façamos um interregno para refletir sobre objetivos sociais. Há um verdadeiro consenso que é a economia que move os homens. Entretanto esta não é uma constatação histórica, nem mesmo se restrita à história do Ocidente.

Karl Polanyi (1886–1964), antropólogo econômico e político húngaro, escreveu em A Grande Transformação (Edições 70, Lisboa, 2012) que “o conflito entre o mercado e as exigências elementares de uma vida social organizada (...) destruíram a sociedade anterior” àquela do século XIX.

E Polanyi acrescenta que “tal organização da vida econômica é inteiramente excepcional. Os pensadores do século XIX supuseram que o homem se esforça por obter lucro, que as suas tendências materialistas o induzem a escolher a via do menor em vez da do maior esforço e a esperar ser recompensado pelo seu trabalho – supuseram que o homem tende a guiar-se por aquilo que foi descrito como sua racionalidade econômica. Seguia-se que os mercados eram instituições naturais, que surgiriam espontaneamente (...) A verdade é que o comportamento do homem, tanto em condições primitivas como ao longo do curso da história, foi quase o preciso oposto do que aquela concepção sustenta”.

De Frank Hyneman Knight (1885–1972), fundador da Escola de Chicago: “Nenhuma motivação especificamente humana é de ordem econômica”. O homo economicus, o que atua com “racionalidade” nas ações nos mercados, é uma criação idealizada, não é real. Surge na idade moderna.

Friedrich Engels (1820–1895), no livro Anti-Dühring (Boitempo, SP, 2015), sugere que exista uma sociedade para cada época. Na idade contemporânea, sob a ótica da produção material, podemos distinguir a da indústria fabril, de Marx, e a do financismo, sendo esta diferente daquela formada nas cidades-estado da península italiana e a dos Países Baixos e Inglaterra no século XIII.

As finanças desreguladas, que submetem os Estados a seus interesses privados, com crescente participação de capitais ilícitos, provenientes da produção e tráfico de drogas e dos contrabandos diversos, são as dominantes no século XXI.

Estas finanças contemporâneas tiveram a compreensão do significado da cibernética muito além da simples automação da produção, onde se quedou, numa perspectiva limitada à força do trabalho, o que denominamos industrialismo. Deste modo, o desenvolvimento da economia capitalista – e também a socialista, embora de difícil contextualização para a terceira década do século XXI – foi se tornando gradativamente mais financeiro do que produtivo, aquele analisado por Marx.

E o capital financeiro concentrou esforços na difusão das mensagens, na criação de novos consensos que lhe dessem poder e gestão. Ou seja, nova forma de comunicação e do controle dos homens. Em suma, praticaram o que o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos (1915–1982), no magistral A Nova Ciência das Organizações (FGV, RJ, 1981), denominava “política cognitiva”, isto é, as deformações da interpretação da realidade para atender aos interesses daqueles que coordenam tais deformações.

Os investimentos se deram tanto nos equipamentos de comunicação, cada vez mais distribuídos pelas sociedades, quando nos conteúdos das mensagens, primorosamente estudados em verdadeiros laboratórios de emoções, trabalhando com refinadas pesquisas sociais, psicológicas e, ao fim, doutrinadoras.

Os fatos, as realidades, até emoções passaram a ser substituídos por preconceitos, por ilusões, pelas compreensões que interessavam a estes novos donos do poder.

E o Brasil, demonstrando seu imenso atraso, ainda mantém, apenas ele no mundo, a fraudável urna eletrônica, que um iniciante estudante de informática programaria a manipulação dos resultados.

Parece divulgarmos, urbi et orbe, que se não formos convencidos, pelos tradicionais e eletrônicos meios de comunicação, a sermos contra nosso próprio interesse, não tem importância, iremos, pelo processo democrático parlamentar, escolher, em processo eleitoral fraudulento, os representantes que nos escravizem.

Duvida, caro leitor? Então você contesta que são os melhores, dentre todos, os que vencem, ou os que já foram, no berço, escolhidos para vitória. Ou, salvo evento estatisticamente de mínima probabilidade, um bem-nascido fracassará onde um bebê pobre triunfará? E por que as Forças Armadas e o atual Congresso brasileiro propõem a alienação do território brasileiro para o capital estrangeiro? Para promover a competição desigual ou porque já escasseiam ativos reais que sustentem a especulação financeira internacional? Qual a razão de privatizar – na verdade alienar para controle estrangeiro – bens vitais e insubstituíveis como energia, terras férteis e água doce?

Seria enorme a lista dos falsos consensos que todos assumimos, talvez sem convicção, mas seguindo o “senso comum” fabricado. E assim se conforma a tragédia brasileira. E, o mais grave, não sofre oposição. Se ainda exista quem se oponha, este segmento tem medo de enfrentar esta “maioria”, e esclarecer o povo.

Fazem como o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que recuou ao ver que as manifestações pelas Diretas Já levavam milhões de pessoas às ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo. A cúpula do MDB seria tragada pelo povo. E trataram de negociar com os militares e os capitais internacionais a solução da eleição indireta para sucessão do presidente Figueiredo.

Talvez já incluído no acordo a Constituição Cidadã, que elimina a soberania brasileira das cláusulas pétreas e até a forma republicana de governo. Hoje, uma lista de “oposicionistas” luta pela vaga medebista, ao que o Temer se adiantou, retirando o P do PMDB.

Desde a Constituição Cidadã, salvo cosméticas medidas “desenvolvimentistas” e “populares”, o Brasil afunda na dependência ao capital financeiro que, tudo indica, agora dominado pelo capital ilícito, inimigo da própria existência humana.

Sem a consciência de que a Soberania Nacional precede qualquer outra ação para a solução dos problemas brasileiros, continuaremos patinando, enxugando gelo, iludindo e sendo iludidos.

O antropólogo e semiólogo inglês Gregory Bateson (1904–1980) escreveu: “Aqueles que não sabem que é possível estar errado, não podem aprender nada, exceto o saber fazer” (G. Bateson, Natureza e Espírito, Dom Quixote, Lisboa, 1987).

Damos o benefício da dúvida àqueles que abraçaram emotivamente questões identitárias e a campanha desencadeada pelo capital financeiro (o que faz George Soros nos bastidores dos movimentos ecológicos?) para impedir que os países da América Latina, África e Ásia se industrializem e ganhem soberania.

Na construção das farsas e com divulgação de mentiras, os povos do mundo subdesenvolvido veem crescer a distância que os separa do Atlântico Norte, das potências e sistema colonizadores que sempre os escravizaram.

A batalha que travamos, naquilo que se chama guerra híbrida, é pela soberania, pela construção da cidadania. Tudo que lhe chegar diferente, caro leitor, que buscar roubar sua atenção, lhe vender como prioridade, muito provavelmente, é para deixá-lo na ignorância, limitá-lo a ser um robô, facilmente substituído por máquinas. Tirar-lhe o que lhe é próprio: a humanidade.

Concluímos com a citação, que Luiz Alberto Moniz Bandeira coloca em A Desordem Mundial – O Espectro da Total Dominação (Civilização Brasileira, RJ, 2017, 3ª edição), do historiador estadunidense Henry B. Adams (archive.org/stream/lettersofhenryad008807mbp/lettersofhenryad008807mbp_djvu.txt), sobre o crash financeiro de 1893 (tradução livre):

A imprensa é o agente contratado de um sistema monetário e criado com o propósito de contar mentiras sempre que seus interesses estão envolvidos”.

Felipe Maruf Quintas

Doutorando na Universidade Federal Fluminense.

Gustavo Galvão

Doutor em Economia.

Pedro Augusto Pinho

Administrador aposentado.

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