Francisco

A insatisfação com os resultados das políticas baseadas na Teoria Econômica vem de longe. Quando o filósofo pioneiro, Adam Smith, anunciou, em 1776, que a Riqueza das Nações seria explicada pelo interesse particular do açougueiro, e não por altruísmo nas relações humanas, parecia mais estar rogando uma praga do que escrevendo um tratado de cunho científico.

De lá até hoje, centenas, quem sabe milhares de críticas foram publicadas, com a vontade explícita de questionar e rever as manhas desta teoria que busca explicar relações sociais construídas pelo Homem e que, portanto, podem ser modificadas pelo Homem. Não se trata de uma determinação, porque se trata sim de uma teoria de cunho científico-social e não natural.

O Papa Francisco é um dos mais recentes ingressos na nau dos insatisfeitos com esperança na possibilidade de mudança. Para tanto, promoveu um encontro virtual, de 19 a 21 de novembro de 2020, reunindo 2 mil jovens líderes empresariais, cientistas sociais e economistas, entre eles, Amartya Sen, “Nobel de Economia” de 1998, e Muhammad Yunus, conhecido também como “Banqueiro dos Pobres”, e outros para elaborar alternativas definitivas ante às políticas neoliberais.

A finalidade do encontro foi constituir um padrão econômico justo e sustentável. O encontro, antes previsto para março de 2020, e revisto para novembro por causa da pandemia da Covid-19, teve nesta ocorrência uma projeção de realidade. A luta pela igualdade social foi uma das suas premissas, já que não faltam recursos, em um planeta que tem um PIB global estimado em R$ 85 trilhões, segundo o professor e economista Ladislaw Dowbor.

Segundo números disponibilizados pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o planeta produz alimentos suficientes para alimentar 11 bilhões de pessoas. A população mundial hoje é de 7,6 bilhões de seres humanos. Contraditoriamente, no entanto, 851 milhões de pessoas passam fome.

Em 1º de maio de 2020, o Papa referiu-se a “leis invisíveis” que, com o avanço do neoliberalismo, transformaram a Economia em negócios de mercado e não em interesses da sociedade. Referiu-se ao desemprego como “tragédia mundial da atualidade”. Fraternidade praticada “com atos e não apenas com palavras” é o que o Papa pretende com a iniciativa.

 

Mensagem do Papa para a Campanha da Fraternidade

“Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

Com o início da Quaresma, somos convidados a um tempo de intensa reflexão e revisão de nossas vidas. O Senhor Jesus, que nos convida a caminhar com Ele pelo deserto rumo à vitória pascal sobre o pecado e a morte, faz-se peregrino conosco também nestes tempos de pandemia. Ele nos convoca e convida a orar pelos que morreram, a bendizer pelo serviço abnegado de tantos profissionais da saúde e a estimular a solidariedade entre as pessoas de boa vontade.

Convoca-nos a cuidarmos de nós mesmos, de nossa saúde, e a nos preocuparmos uns pelos outros, como nos ensina na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Precisamos vencer a pandemia e nós o faremos à medida que formos capazes de superar as divisões e nos unirmos em torno da vida.”

Como indiquei na recente Encíclica Fratelli tutti, ‘passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta’ (n. 35)” .

 

Não pode pagar com a vida

Lançado na última quinta-feira, 11 de março, pelas organizações signatárias do Pacto Pela Vida e pelo Brasil frente ao quadro de rápido agravamento da pandemia do novo coronavírus e das suas trágicas consequências na vida do povo brasileiro, do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Brasil, aqui está o texto completo do documento “O povo não pode pagar com a própria vida”.

“Nós, entidades signatárias do Pacto pela Vida e pelo Brasil, sob o peso da dor e com sentido de máxima urgência, voltamos a nos dirigir à sociedade brasileira, diante do agravamento da pandemia e das suas consequências.

Nossa primeira palavra é de solidariedade às famílias que perderam seus entes queridos. Não há tempo a perder, negacionismo mata. O vírus circula de norte a sul do Brasil, replicando cepas, afetando diferentes grupos etários, castigando os mais vulneráveis. Doentes morrem agonizando por falta de recursos hospitalares. O Sistema Único de Saúde – SUS continua salvando vidas. No entanto, os profissionais da saúde, após um ano na linha de frente, estão à beira da exaustão. A eles, nosso reconhecimento.

É hora de estancar a escalada da morte! A população brasileira necessita de vacina agora. O vírus não será dissipado com obscurantismos, discursos raivosos ou frases ofensivas. Basta de insensatez e irresponsabilidade. Além de vacina já e para todos, o Brasil precisa urgentemente que o Ministério da Saúde cumpra o seu papel, sendo indutor eficaz das políticas de saúde em nível nacional, garantindo acesso rápido aos medicamentos e testes validados pela ciência, a rastreabilidade permanente do vírus e um mínimo de serenidade ao povo.

A ineficiência do Governo Federal, primeiro responsável pela tragédia que vivemos, é notória. Governadores e prefeitos não podem assumir o papel de cúmplices no desprezo pela vida. Assim, apoiamos seus esforços para garantir o cumprimento do rol de medidas sanitárias de proteção, paralelamente à imunização rápida e consistente da população. Que governadores e prefeitos ajam com olhos não só voltados para os seus estados e municípios, mas para o país, através de um grande pacto. Somos um só Brasil.

Ao Congresso Nacional, instamos que dê máxima prioridade a matérias relacionadas ao enfrentamento da Covid-19, uma vez que preservar vidas é o que há de mais urgente. Nesse sentido, o auxílio emergencial digno, e pelo tempo que for necessário, será imprescindível para salvar vidas e dinamizar a economia. Ao Poder Judiciário, sob a liderança do Supremo Tribunal Federal, pedimos que zele pelos direitos da cidadania e pela harmonia entre os entes federativos. Que a imprensa atue livre e vigorosamente, de forma ética, cumprindo sua missão de transmitir informações confiáveis e com base científica, sobre o que se passa. Enfim, que a voz das instituições soe muito firme na defesa do povo brasileiro!

Fazemos ainda um apelo particular à juventude. O vírus está infectando e matando os mais jovens e saudáveis, valendo-se deles como vetores de transmissão. Que a juventude brasileira assuma o seu protagonismo histórico na defesa da vida e do país, desconstruindo o negacionismo que agencia a morte. Sabemos que a travessia é desafiadora, a oportunidade de reconstrução da sociedade brasileira é única e a esperança é a luz que nos guiará rumo a um novo tempo.

Quarta-feira, 10 de março de 2021.”

Assinam Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); José Carlos Dias, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns (Comissão Arns); Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC); Paulo Jeronimo de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Leia mais:

‘O barco está parado’

Ô, abre alas

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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