Frei Betto pôs Getúlio na lista errada

Legados como Petrobrás não podem ser considerados de direita Por José Augusto Ribeiro

184
getúlio vargas com a mão suja de óleo na refinaria de mataripe, ba, então da petrobras
Getúlio Vargas com a mão suja de óleo na refinaria de Mataripe, BA, então da Petrobras (foto reprodução Senado)

Num longo artigo em que se propunha explicar o que entende por direita, o líder católico Frei Betto derrapou em suas paixões religiosas e, lá pelo meio do caminho, cometeu uma injustiça histórica que o deixa precisamente em companhia de direitistas encaixáveis nas muitas categorias que seu artigo descreve.

– A democracia liberal – diz ele, mapeando o contexto de sua exposição – tem um limite: a supremacia da acumulação do capital em mãos privadas. Todas as vezes que esse privilégio é ameaçado, os democratas aposentam as urnas, rasgam as Constituições e colocam as tropas na rua. Por meio de golpes de Estado ou eleições, instalam governos ditatoriais em nome da ordem, dos bons costumes e da defesa de Deus, família e propriedade.

Perfeito, ninguém discordará dessas ideias. Mas a lista que o artigo apresenta em seguida, confinada à primeira metade do século 20, de “democratas aposentam as urnas, rasgam as Constituições… colocam as tropas na rua [e,] por meio de golpes de Estado ou eleições, instalam governos ditatoriais”, começa por Hitler e termina por ninguém menos que Getúlio Vargas.

A lista inclui Mussolini, Franco, Salazar, Duvalier, Somoza, Trujillo e Stroessner, mas não inclui (por esquecimento?) o cubano Fulgêncio Batista nem Stalin (esquecimento de novo?).

Espaço Publicitáriocnseg

Quanto a Getúlio Vargas, nem o mais passional e vingativo de seus inimigos, Carlos Lacerda, incluiria seu nome numa lista encabeçada por Hitler – e não por espírito de justiça, mas apenas para não comprometer ainda mais sua escassa credibilidade de jornalista.

Lacerda, por exemplo, não ignorava o papel de Getúlio no confronto com Hitler desde antes da Segunda Guerra Mundial, nem a importância política e militar do apoio de Getúlio aos Estados Unidos durante a guerra, nem que, nos meses finais desta, o presidente Roosevelt queria fazer do Brasil de Getúlio membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, com o mesmo direito de veto dos Estados Unidos e da então União Soviética.

Neste 2024 que marca os 70 anos exatos do suicídio de Getúlio, o sacrifício pessoal com que frustrou os objetivos do golpe contra ele na crise de agosto de 1954 e preservou as principais realizações de seus dois governos, não é possível imaginar que uma inteligência privilegiada e brilhante como a de Frei Betto considere de direita, por exemplo, iniciativas como a Petrobrás e a Eletrobrás, como a legislação trabalhista e a renegociação da dívida externa, como Volta Redonda e a Hidrelétrica de Paulo Afonso.

Só a paixão religiosa pode explicar a lista de Frei Betto, e nisso ele se situa no passado intolerante em que algumas correntes do catolicismo não aceitavam um presidente agnóstico, influenciado na juventude pelas ideias do positivismo de Augusto Comte e, sobretudo, pelas do socialismo precursor do Conde Henri de Saint-Simon.

Isso não faz bem à própria Igreja que Frei Betto integra, entre outras razões porque, ao se assinar como Frei, ele confere a seus julgamentos a autoridade de um imprimatur do qual eles não precisam.

José Augusto Ribeiro é jornalista.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui