Nunca se falou tanto em cashback. Até quem não é tão familiarizado com o mundo das finanças já conhece o termo, que em bom português quer dizer “dinheiro de volta”. Palavras mágicas em tempos de orçamento apertado. O programa de recompensas, que devolve ao consumidor parte do valor gasto com um produto ou serviço, não é exatamente uma novidade, mas ganhou fôlego durante a pandemia com o aumento das transações online. Os investimentos também entraram na onda, com CDBs (Certificados de Depósitos Bancários), fundos de investimento e ofertas públicas oferecendo cashback além dos rendimentos.
“A estratégia de trazer o cashback é chamar atenção”, admite Rosano Ouriques, gerente-executivo de Tesouraria do RCI Brasil. Pela terceira vez em menos de um ano, o banco, braço financeiro das montadoras Nissan e Renault, está oferecendo CDBs com cashback para atrair o investidor pessoa física. Até 2019, a instituição disponibilizava produtos apenas para investidores institucionais, como as gestoras de fundos de investimento, que podiam pagar R$ 50 mil para investir em uma LF (Letra Financeira) do banco.
“O CDB é negociado apenas dentro da nossa plataforma, e as mídias digitais são nosso único canal de divulgação. O cashback é uma forma de reforçar esse boca a boca digital”, afirma Ouriques. Os investidores que aplicarem em qualquer um dos sete CDBs disponibilizados pelo banco vão poder ter de volta até 1,5% do valor investido. O percentual vai depender do valor investido e da liquidez do título.
Mais tempo
Para conseguir o máximo de cashback, é preciso aplicar pelo menos R$ 5 mil no CDB com vencimento em três anos e que oferece 140% do CDI. O dinheiro do cashback cai na conta do investidor em até dois dias úteis, mas o valor aplicado no título só poderá ser resgatado no vencimento. A recompensa foi escalonada de acordo com o prazo do título. Para os CDBs de liquidez diária, o cashback é de 0,75%, mas para receber o valor de volta o investidor precisa ficar com o título pelo menos até 31 de janeiro do ano que vem.
O valor do cashback é líquido, sem cobrança de imposto de renda (IR). Já o rendimento do CDB é tributado de acordo com a tabela da renda fixa. A alíquota varia de 22,5%, para investimentos de até 180 dias, a 15%, nos investimentos de mais de 720 dias. No caso dos CDBs de liquidez diária, se os recursos forem resgatados nos primeiros 30 dias da aplicação, também tem IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que pode chegar a 96% do rendimento.
Ouriques diz que dificilmente os investimentos com cashback vão virar produtos de prateleira. “Tudo o que é perene perde o apelo, pois não tem nada de diferente. Por isso a nossa estratégia com cashback é para ações pontuais, quando você quer chamar novos clientes”, afirma o executivo. Devolver parte do dinheiro aplicado pelo investidor também impacta os custos de captação do emissor do CDB.
Distribuição do rebate nos fundos
No Banco Inter, o cashback para quem investe em fundos de investimento começou em 2019 e se tornou permanente. A instituição repassa ao investidor de 50% a 100% do rebate, a comissão que o banco ganha por distribuir o produto e é um percentual da taxa de administração. “Aqui na nossa estrutura, como tudo é unificado e a oferta é digital, a gente consegue repassar isso de maneira perene”, explica Lucas Fonseca, gerente de produtos de investimentos do Inter.
No começo, a política de cashback do banco contemplava apenas os fundos com taxas de administração maiores. Hoje, todos os fundos pelo qual o Inter é remunerado para fazer a distribuição devolvem uma parte do rebate ao investidor. É um valor recorrente, que cai todo mês na conta do cliente. Fonseca explica que o cashback pode chegar a 100% da taxa para as recém-criadas comunidades de investimento. Nelas, correntistas do banco podem somar patrimônio para conseguir melhores condições e rentabilidades.
Outra frente que o banco aderiu é a do cashback em ofertas públicas, sejam elas de ações (IPOs), fundos imobiliários ou renda fixa. “As corretoras também são remuneradas com uma comissão de distribuição, e a gente está com a política de pagar metade desse valor para todos os clientes que aderiram à ofertas públicas aqui no banco”, afirma Fonseca.
Nesse caso, o percentual é pago ao investidor uma única vez, alguns dias após a liquidação da oferta. Desde maio, quando o programa o programa de cashback em ofertas públicas entrou em vigor, o Inter remunerou mais de 30 mil investidores.
Hábitos de investimento
Raphael Carneiro, planejador financeiro da Petra Capital, diz que o retorno imediato do cashback é sedutor, mas o investidor precisa estar ciente de que investimento é algo para o futuro. “Ele tem que avaliar se faz sentido deixar o dinheiro preso em um CDB por três anos só por causa do cashback”, afirma Carneiro. Recursos para reserva de emergência, por exemplo, não podem ficar imobilizados, e o ideal é que sejam aplicados em investimentos de liquidez diária.
Se o CDB for pré-fixado, também é importante atentar para o retorno do investimento no longo prazo. Um CDB que oferece 10,5% ao ano paga o dobro da Selic. Mas se o título vence daqui a três anos, ele pode render menos que um CDB atrelado ao CDI, se os juros continuarem subindo. “O investidor não pode olhar só o agora, ele tem que avaliar qual a trajetória esperada para a taxa de juros no período da aplicação”, diz o planejador financeiro.
Por Mitchel Diniz, especial para o Monitor Mercantil
Leia também:

















