Futuro incerto, um dilema dos jovens

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Foi melancólico observar a presença de pessoas com diploma universitário nas filas dos candidatos a empregos, nas frentes de trabalho recentemente abertas pela prefeitura paulistana e o Governo de São Paulo. O fato, inusitado à luz da lógica, mas compreensível na presente conjuntura nacional, mereceu grande destaque da imprensa. A realidade inexorável de bacharéis se submetendo a limpar ruas pela remuneração de um salário mínimo e cesta básica atinge a auto-estima dos brasileiros e indica um cenário que tende a ficar mais grave caso nada seja feito.
Quando, há cinco anos, publicamos O Fim dos Empregos, livro de Jeremy Rifkin, estávamos, na verdade, alertando para uma realidade que iria advir. Com a evolução tecnológicas, os chips e os computadores, cargos de atividades repetitivas, burocráticos e empregos de níveis médios tenderiam a desaparecer. Por outro lado prevíamos a necessidade do conhecimento, a necessidade da aprendizagem permanente para a qualificação profissional. Tudo isto tem acontecido muito rapidamente. O chão de fábrica cada vez emprega menos. Cada vez mais pessoas sem qualificações profissionais definidas encontram mais dificuldades para conseguir emprego. Temos ainda o problema cultural da busca ao emprego e não ao trabalho.
O que surpreendeu a mídia e a sociedade, no entanto, é uma realidade dura, que se vem agravando em ritmo preocupante. No episódio das frentes de trabalho, vivenciamos um problema que poderá tornar-se o grande desafio do ano 2000. Como empregar o imenso contingente de universitários que se graduam nas numerosas instituições de ensino superior, públicas e privadas, existentes no País? Há, aqui, dois problemas básicos. O primeiro é relativo ao conhecimento específico e à qualificação necessária para que os jovens formandos possam desempenhar, com a eficiência exigida pelo atual padrão produtivo, a profissão que escolheram. A grande maioria das faculdade não tem seus curriculuns em sintonia com as necessidades profissionais do mercado. A Segunda e crucial questão é que faltam portas de entrada no mercado de trabalho.
Nas décadas de 60, 70 e 80, as principais portas de entrada para o primeiro emprego eram os bancos. A partir daí, os jovens eram absorvidos naturalmente pelo mercado de trabalho. Em fins dos anos 80 e, principalmente na década de 90, com a evolução tecnológica do sistema financeiro, aquelas portas foram sendo paulatinamente fechadas. Os bancos operam hoje com número cada vez menor de profissionais, especialmente nas agências. Os computadores processam praticamente tudo.
O mais grave é que não foram abertas novas portas no mercado de trabalho. Algumas associações têm tentado soluções nesse sentido. O CIEE (Centro de Integração Escola Empresa) vem realizando ótimo trabalho há várias décadas, com um programa avançado de estágios, mas hoje insuficiente para atender à demanda. É preciso que mais instituições cumpram esse papel, mas, do outro lado, há as limitações do próprio mercado e das empresas.
Na Makron Books, há cinco postos permanentes de trabalho para o primeiro emprego, ocupados por estagiários do CIEE. A cada ano, cinco jovens ocupam essas vagas. Após 12 meses de experiência profissional, dão lugar a cinco outros. E assim sucessivamente. Quando possível, são reaproveitados em uma nova posição. Quem sabe seja essa uma idéia a ser estudada e aprimorada pelos especialistas, incentivando as empresas, por meio de legislação específica, a manterem postos para o primeiro emprego. Enquanto o País não proporcionar aos jovens as oportunidades de um trabalho digno e com perspectivas de futuro, estaremos consolidando um modelo excludente, que pode atingir proporções ainda mais graves na próxima década.
Não bastasse a dificuldade para ingressar no mercado, os jovens também enfrentam a má qualidade do ensino, constituindo-se, assim, um círculo vicioso. Pergunta-se: quem vai pagar a conta do prejuízo causado aos jovens estigmatizados pela reprovação de suas faculdades pelo MEC? Como se parte do pressuposto de que os estudantes dessas escolas sabem menos, seu futuro profissional pode estar mais comprometido.
Claro que é necessário e pertinente aquilatar a qualidade do ensino de terceiro grau. Mas, além disso, também é necessário fiscalizar e realizar trabalho preventivo, evitando autorizar o funcionamento de escolas sem condições adequadas. Será que nestas faculdades reprovadas, fotocópias de partes de livros e apostilhas incompletas são ferramentas do conhecimento? Os diretores dessas Faculdades e os organismos responsáveis pela educação deveriam verificar, cuidadosamente, a utilização excessiva de fotocópia de capítulos isolados de livros, ou até apostilhas, que limitam o conhecimento dos estudantes. Afinal, no “Provão” e na vida profissional o que vale é o conhecimento como um todo e não apêndices do saber.
A verdade é que a Nação está em dívida com as novas gerações. É necessário melhorar o ensino, em todos os níveis, e criar oportunidades para que os jovens sejam absorvidos pelo mercado de trabalho de maneira profissional e digna. Não podemos mais assistir aos nossos jovens bacharéis esmolando uma cesta básica nas frentes de trabalho. Ao lhes entregar o diploma sem perspectivas claras de vida, estamos construindo um país sem futuro.

Milton Mira Assumpção Filho
Editor, é presidente da Makron Books

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