Futuro interditado

Não se limita à área de energia o desmonte da infra-estrutura do país levada a cabo por uma década de subserviência a políticas de ajuste fiscal. Além de empurrar o país para as trevas, o tucanato está promovendo a canibalização das reservas de petróleo do país. Segundo dados apresentados pela Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet), a relação reservas/produção (R/P) – indicador  do número de anos que as reservas permitem manter o nível de produção – vem encolhendo perigosamente. Nos grandes países produtores mundiais de petróleo, essa relação é superior a 40 anos, como na Arábia Saudita, no México, na Venezuela e no Iraque. Já nas grandes multinacionais, a R/P varia de nove a 15 anos.
Na Petrobras, devido à decisão de priorizar os investimentos em  exploração, a relação R/P alcançou a média de 22 anos, entre 1988-95. Com a redução dos investimentos em produção, de 27%, naquele período, para 13%, ano passado, essa relação caiu para 17,7 anos. A Aepet prevê que, com a continuidade da redução dos investimentos em produção, a R/P recue para 14,7 anos no período 2001-05. Além de adequar a Petrobras ao figurino das empresas privadas, afastando-a cada vez mais do modelo das gigantes estatais mundiais, facilitando sua privatização, o encolhimento da relação R/P ameaça arrastar o Brasil para situação impensável: de país quase auto-suficiente em petróleo em nação dependente da importação do produto. E, como sem energia, não existe crescimento consistente…

Consultores heterodoxos
O racionamento de energia está aquecendo a demanda por instalações clandestinas, o popular “gato”. Os eletricistas de esquinas estão se tornando os verdadeiros “consultores”. Eles explicam aos consumidores como devem ser feito o “gato”, o risco que o mesmo corre caso a Light descubra a irregularidade e o quanto se pode economizar. O preço varia de acordo com o imóvel. Para apartamentos e lojas comerciais o preço é bem mais caro, já que a mudança é mais sofisticada. Já nas casas e biroscas, o preço do “gato” é bem menor.
Um eletricista que não quis se identificar e que faz ponto em várias ruas de Copacabana, por exemplo, disse que ainda não fez nenhuma instalação irregular. No entanto, ressaltou que já foi procurado por várias pessoas que estavam pedindo informações sobre como economizar. “O próprio governo está estimulando o povo a cometer irregularidades. A tarifa da conta de luz já está muito cara e a população já está economizando há muito tempo. Na minha casa, por exemplo, o consumo de energia caiu muito, mas a conta aumentou.”

Receita
Os genéricos estão se alastrando para fora do campo dos remédios. Já há empresas de informática receitando programas de computador “genéricos” para substituir os softwares de marca, como Word e Excel da Microsoft. Segundo cálculos de uma consultoria, uma grande empresa que gastaria até R$ 1,2 milhão na legalização de programas poderia desembolsar menos de R$ 300 mil se optasse por outros, “genéricos”, normalmente programas gratuitos ou de baixo custo. O gasto do cliente seria com implantação e consultoria.

Sparring
Piadinha político-esportiva que correu nos círculos não rubro-negros ou cruzmaltinos depois do tricampeonato do Flamengo no fim de semana: o Vasco é o Lula do Flamengo.

Contrabando
Merece lupa especial o exame das razões que levaram o advogado-geral da União, Gilmar Mendes, a aproveitar a – já inadmissível – revogação do Código de Defesa do Consumidor, para inverter o ônus da prova, antes de responsabilidade do vendedor. Pela versão de Mendes, o consumidor que tivesse um aparelho doméstico estragado devido ao corte de energia, teria de provar que a distribuidora é culpada pelo problema. Para isso, precisaria contratar um perito, o que tornaria a comprovação mais cara que o próprio conserto do aparelho. Como pela porteira aberta passa uma boiada, a generosidade com as distribuidoras poderia ser aproveitada por outros setores queixosos do mau hábito de garantir direitos ao consumidor.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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