Gal, mulher fatal, plural e transcendental

Gal Costa costuma comentar que já nasceu sabendo que seria cantora. Com 75 anos de idade, 57 anos de carreira, em forma e com muita disposição, a artista continua na estrada, cantando maravilhosamente com o mesmo timbre e com muitos planos para o futuro.

Ela sabe que já está “velha”, mas garante não sentir o peso da idade. Talvez até por essa razão, por não sentir os anos, queira ainda fazer muita coisa. E tanto isso é verdade que a baiana lançou, na última sexta-feira, um novo disco. Em Nenhuma dor, ela revisita em duetos com jovens artistas canções que gravou entre 1967 e 1981. Um repertório que acredita ter muito a dizer ao Brasil que vê espelhado no Big Brother: “Há muito veneno, muita maldade”.

Por causa da pandemia e da quarentena e por ser um disco repleto de participações, as gravações foram feitas no Brasil, nos Estados Unidos, na Espanha e em Portugal. Amarante mandou sua contribuição em Avarandado, de Los Angeles; já o uruguaio Jorge Drexler gravou Negro Amor, em Madri; e António Zambujo participou em Pois é, de Lisboa.

Foi, na realidade, um trabalho bem diferente, igualmente prazeroso, como ela repete, e produzido a várias mãos, com a contribuição de convidados de peso. Foram eles, inclusive, que fizeram os arranjos das versões. Daí a riqueza desse disco. Para Gal, incentivadora da tecnologia, trabalhar com tanta novidade e nesse momento de tanta tragédia no mundo foi uma verdadeira benção.

Das 10 canções que foram lançadas em duplas desde novembro, sete são composições do amigo de sempre e parceiro de vida Caetano Veloso e três saíram diretamente de Domingo, importante disco no qual Gal cantou, com Veloso, em 1967, no começo de sua carreira. São elas: Avarandado, Nenhuma Dor e Coração Vagabundo.

O novo trabalho de Gal apresenta clássicos como Baby, com Tim Bernardes, Meu bem, meu mal, com Zé Ibarra, e Só louco, com Silva.

Assim como Caetano, Gil e Bethânia, Gal também aderiu à era das lives e, em 2020, comemorou o seu aniversário no palco virtual, com transmissão de São Paulo, cidade em que vive, com o filho Gabriel, há alguns anos.

Gal pretende voltar aos palcos reais em setembro deste ano, no Coala Festival. Para tanto, torce para que o Programa de Imunização se concretize e que o povo brasileiro possa se vacinar, de Norte a Sul. Ela mesmo não vê o momento de tomar a sua vacina. A viabilidade desse show ainda depende de a vacina ser aplicada em massa na capital paulistana.

Gal Costa sempre foi uma mulher plural, com muito charme, com seus cabelos negros sempre soltos ao vento e boca carnuda com lábios vermelhos. Uma mulher sedutora. Uma mulher verdadeiramente fatal. Gal traduz, com seu jeito, o Brasil tropical.

Aliás, as dunas de Ipanema, nos anos 70, ficaram conhecidas como as Dunas da Gal. Era lá o point da galera do teatro, da música, da psicanálise, da universidade e até de quem não tinha tribo alguma para chamar de sua. Lá era o pedaço da cantora, assim como o dos Novos Baianos, o de Jards Macalé, Jorge Benjor, José Wilker e Luiz Melodia. E quem ali também reinou foi o José Artur Machado, mais conhecido como Petit e que acabou eternizado como o Menino do Rio, pela música de Caetano.

Também compositora e multi-instrumentalista, Gal foi eleita, em 2012, pela Revista Stone Brasil, como a sétima maior voz da música brasileira. Gal é filha de Mariah Costa Penna, sua grande incentivadora, falecida em 1993, e de Arnaldo Burgos. Sua mãe contava que durante a gravidez passava horas concentrada ouvindo música clássica, como num ritual, com a intenção de que esse procedimento influísse na gestação e fizesse que a criança que estava por nascer fosse, de alguma forma, uma pessoa musical.

O desejo de Mariah se concretizou e Gal Costa é apontada pela crítica com uma das maiores cantoras do Brasil. Em 1959, ouviu pela primeira vez o cantor João Gilberto, cantando Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, no rádio. Anos mais tarde, em 1963, foi apresentada a Caetano Veloso, iniciando-se a partir de então uma grande amizade e profunda admiração mútua que até hoje permanece.

E foi justamente ao lado de Caetano que Gal estreou o espetáculo Nós, por exemplo, em 1964, inaugurando o Teatro Vila Velha, em Salvador. No show, também estavam Gil, Bethânia e Tom Zé. Nesse mesmo ano, participou de Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova, no mesmo local e com os mesmos parceiros.

Gal deixou Salvador para viver na casa da prima Nívea, no Rio de Janeiro, seguindo os passos de Bethânia, que havia estourado como cantora no espetáculo Opinião. A primeira gravação em disco se deu no disco de estreia de Maria Bethânia (1965): o duo Sol Negro (Caetano Veloso), seguido do primeiro compacto, com as canções: Eu vim da Bahia, de Gilberto Gil, e Sim, foi você, de Caetano Veloso.

Do começo da sua carreira, em Salvador, passados 57 anos, Gal Costa já se apresentou nos maiores palcos do Brasil e em diversos países da Europa, Estados Unidos, América Latina e na Ásia. Sua poderosa voz continua a encantar a todos os que a escutam e suas interpretações também continuam a seduzir os que têm o privilégio de vê-la nos shows nos quais se apresenta.

Gal Costa é uma cantora transcendental e que, com muita energia e carisma, vem tocando há mais de cinco décadas os corações dos seus incontáveis fãs e admiradores.

 

Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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