Garotas antenadas em tecnologia não abrem mão do livro de papel

Segundo pesquisa, as mulheres leem mais que os homens.

Elas são jovens estudantes, conectadas à tecnologia, atuantes nas redes sociais, alegres, criativas, bonitas, simpáticas que gostam de estudar e entendem o quanto a leitura enriquece o vocabulário, mostra novos horizontes e transforma pessoas. Larissa Abrahão, 21 anos, Letícia Benincasa, 18, moram na Zona Norte do Rio de Janeiro, curtem música, dança e são apaixonadas por livros físicos. Até aceitam ler e-book de vez em quando, mas a preferência é ter o bom e velho companheiro livro em mãos e sentir o perfume de um livro novo. As garotas, inclusive, concordam com a frase: “cheirinho de livro novo é melhor do que o cheirinho de carro zero quilômetro”.

Moradora em Irajá, a estudante de Fisioterapia da UFRJ Larissa Abrahão, conta que o interesse pela leitura começou no início da adolescência, aos 11 anos, com o livro O Diário de Um Banana, de Jeff Kinney, escritor e cartunista norte-americano. “Para mim, o encontro com a leitura foi muito importante, porque ampliou os meus conhecimentos gerais, melhorou minha gramática e também turbinou a minha forma de escrever, o que ajudou bastante na redação do ENEM, até mesmo por ter um amplo repertório sociocultural”, avalia. Letícia Benincasa mora em Ricardo de Albuquerque e já está se preparando para o ENEM de 2022. Ela ingressou no mundo dos livros com 12 anos. De lá para cá, não largou mais a leitura. “O primeiro que eu li não lembro bem, mas o que mais me marcou e fez com que eu me apaixonasse pelo mundo literário foi A Palavra Não Dita, de Walcyr Carrasco. Hoje, estou lendo Novembro 9, da norte-americana Colleen Hoover”, disse Benincasa.

Quanto ao gênero de livro preferido, Larissa Abrahão diz que sempre leu os estilos fantasia e infantojuvenil, mas, segundo ela, atualmente, está se interessando por obras que abordam temas sociais. Quando o papo é a questão da importância do livro físico, Larissa destaca que ele é melhor que o digital, porque dá, realmente, a sensação de estar lendo. “Eu já não sinto isso pelo celular ou aparelhos digitais, pois você já está ali o tempo todo conectado e também pode desviar a sua atenção por conta das notificações do aparelho. Então, sair um pouco do celular e se conectar somente com a leitura do livro físico se torna fundamental”, opina a estudante de fisioterapia.

Letícia Benincasa gosta do gênero romance. Para ela, a relevância do livro tem um ponto especial. “Eu comecei a ler em um momento em que estive muito sozinha, então, além de significarem uma grande viagem em novas realidades, são uma boa companhia para mim”, revela, em tom emocionado, Benincasa. O ritmo de leitura da garota de Ricardo de Albuquerque é acelerado. Ela prova que gosta de livros lendo de 20 a 25 obras por ano. “A quantidade depende muito, com o ritmo de estudos e aumento de responsabilidades a média diminuiu, mas voltei a ler com mais frequência em 2020 e li cerca de 20/25 livros”, afirma.

Por que a tecnologia não consegue derrubar o afeto das leitoras com o livro físico? Para a escritora, crítica literária, consultora e curadora de feiras literárias, jornalista e professora de Arte e roteirista, Geórgia Alves, as sensações presentes em cada instante de nossas vidas e de memória guiam nossas escolhas e nossas existências.

“Não é possível abrir mão dos afetos bons e vimos, durante a pandemia, o quanto a ausência do toque, este fator, nos faz tristes e doentes. Carentes de afeto. Todas as sensações presentes e despertas de memória são importantes. A palavra, aliás, é o recurso – signo – que nos conduz e por isso é tão importante entender que ser escritor é entender afetiva e tecnicamente dessa arte. Mas não são apenas as palavras, o modo de ler faz toda diferença na hora de chegar ao conteúdo, por tão diversificadas que são as figurações cognitivas e a natureza de cada leitora e leitor”, explica Geórgia Alves.

Segundo a pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro em parceria com Itaú Cultural, as mulheres leem mais que os homens. A universitária Larissa Abrahão, diz que ainda não havia parado para pensar nisso, mas, entretanto, faz sentido, afinal, minhas amigas gostam de ler sim. De acordo com a escritora Geórgia Alves, o feminino é sempre mais exigido e mais livre, num certo sentido, para experimentar as sensibilidades.

Geórgia Alves acredita que mais uma força se agrega ao talento, empenho e resiliência das mulheres fortes. “A intuição e a sensibilidade. Sem isso é impossível ler o mundo. E estar mais próxima dos livros significa ler, com tudo isso, e mais, algo raro, caro e precioso, a humildade”, filosofa.

“Talvez o que entendemos como ‘dado à natureza feminina’, ainda nos permita em doses maiores viver sem estar atrás das emoções. Aquela frase, tão velha e tão perversa com o masculino, de que ‘homem não chora’ pode ter nos levado a isso. Se ainda nos mantém nisso, com todas as reconfigurações que nos trouxe a pós-modernidade, pode ser um traço da ‘Natureza Feminina’. Mas é tão arriscado falar nisso quanto dizer que o livro virtual vai acabar com o livro físico… Há tantos experimentos sendo feitos sobre a natureza das coisas que o mais indicado é menos afirmar e, cada vez mais, dar liberdade e observar as singularidades”, opina Geórgia Alves.

Sobre o resultado da pesquisa que aponta que as mulheres leem mais que os homens, Larissa olhou para o horizonte e disse: “Nunca parei para pensar nisso, mas faz sentido. Minhas amigas gostam de ler sim”. Letícia foi rápida no gatilho: “minhas amigas próximas não curtem muito, mas acabei conhecendo grupos de meninas pela internet que gostam de ler tanto quanto eu, que fizeram leitura coletiva durante a Pandemia”.

Jovens da chamada Geração Z – definição sociológica para a geração de pessoas nascidas, em média, entre a segunda metade dos anos 1990 até o início do ano 2010 – Larissa e Letícia falam se a turma digital está tão antenada em redes sociais, jogos eletrônicos quanto em livros. “Acredito que não. Observo que os adolescentes e as crianças valorizam mais jogos e as redes e não em desenvolver o hábito de leitura”, destaca Larissa. Já Letícia pensa diferente. ” Eu acredito que sim. Claro, a atenção não é a mesma, mas ainda assim há um pouco de interesse.  Apesar de ser difícil concentrar-se na leitura depois de tanto super estímulo dos jogos, com a popularização dos e-books e aplicativos como o wattpad, há bastante atenção”, avalia Benincasa.

Será que elas, que gostam tanto de livro físico, sentem ciúmes deles? Tanto Leticia quanto Larissa negam o sentimento. “Não sinto ciúmes, mas não costumo emprestá-los, porque as pessoas não têm cuidado e, às vezes, não os devolvem”, dispara Larissa, que guarda e zela por 40 livros, o descontentamento com o comportamento de algumas pessoas. Com 130 livros em casa, Letícia Benincasa não admite que tem ciúmes dos companheiros, porém não gosta de emprestá-los. “É difícil eu emprestar, confesso que não gosto tanto, pois tenho muito cuidado com os meus livros que, às vezes, algumas pessoas não têm”, justifica.

Perguntadas sobre qual é o escritor ou escritora que mais desperta o interesse delas, Larissa disse que recentemente leu e gostou muito de As Crônicas de Gelo e Fogo – série de livros de fantasia elaborada pelo romancista e roteirista norte-americano George R. R. Martin. Por ser uma série muito complexa que ainda não teve seu fim, eu diria que é ele, George R.R. Martin”, avalia. Fã de carteirinha da jornalista e escritora Thalita Rebouças, que escreve livros direcionados ao público adolescente, Letícia abre um sorriso para afirmar que curte muito o trabalho da Thalita Rebouças. “Eu tenho um carinho muito grande pela Thalita Rebouças e pela Paula Pimenta, porque foram as primeiras autoras que eu li. Depois de A Palavra Não Dita, de Walcyr Carrasco, os livros direcionados a adolescentes me fizeram muito bem na época”, destaca.

Larissa considera tarefa difícil apontar qual é o livro que ela mais gostou de ler, mas não deixa a questão em branco. “Um que gostei muito foi a série de livros da Kiera Cass, A Seleção”, define a estudante de Fisioterapia, com os olhos brilhando. Letícia também não achou simples apontar um, mas, com um sorriso discreto, foi objetiva: “É difícil escolher um só, acho que tenho um favorito por ano. Mas os últimos que gostei muito são Teto para dois, de Beth O’Leary, e É assim que acaba, de Colleen Hoover.

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