Goleiro amarrado

Entre os resultados da política econômica, está fuga recorde de dólares. E esta conta não é do vírus, não.

Empresa Cidadã / 19:54 - 10 de mar de 2020

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Há algum tempo, conversamos aqui sobre o risco crescente de uma crise cambial se abater sobre o Brasil, ante a política econômica arrasadeira que vem sendo praticada. A taxa de câmbio recorde, verificada nos últimos dias, vem sendo combatida com o mais irresponsável e monótono instrumento, a troca de reais por dólares estocados pelo Banco Central, ou por papéis resgatáveis no futuro, com valor em US Dollar (swap cambial).

O cenário está posto e é caracterizado pelo risco de uma pandemia do novo corona vírus (Covid-19), mais eficiente no bloqueio aos fluxos de comércio com a China do que os muros alfandegários impostos a ela. Acresce a batalha entre Rússia e Opep/Arábia Saudita, com os seus príncipes sanguinários, na guerra comercial declarada entre estes países.

Acrescenta-se a estes elementos do tabuleiro do xadrez geopolítico internacional elementos internos do cenário posto, como a surpreendente movimentação de um governo circense liderado por um presidente-palhaço, já que se mostra capaz de se despir de toda a liturgia que o mais alto cargo da República exige e de se fazer representar publicamente por um palhaço-presidente, o comediante Marvio Lúcio, mais conhecido como Carioca.

Bote mais nesta receita pitadas de uma atabalhoada política de juros do Banco Central, que espantou capitais compensatórios do déficit de transações correntes. Voaram em busca de melhores ares em Miami, como as incômodas empregadas domésticas do ministro da Economia. Entre os resultados da mistureba, está fuga recorde de dólares. E esta conta não é do vírus, não! Em 2019, antes do vírus, verificou-se uma saída de US$ 47,7 bilhões, a mais alta desde 1988. Lista-se também como consequência a maior fragilidade do mercado de capitais brasileiro, com a Bovespa registrando queda percentual diária de até 12%, a maior desde 1988 também, dólar comercial com taxa recorde de R$ 4,72, perda de valor patrimonial de empresas, como a Petrobras, de cerca de 30%. Muito mais do que se acusou na Lava Jato. Em um cenário com estes e outros elementos perniciosos, falar em acordo de livre comércio com os EUA está na mesma linha irresponsável de questionar as instituições democráticas. É como jogar na casa do adversário e deixar que amarrem o goleiro do próprio time, na hora da decisão em cobrança de pênaltis.

 

Mulher jogada prá lá e prá cá

No Distrito Federal, uma mulher (52 anos, seu nome não foi divulgado), por estar infectada pelo coronavírus, internou-se no Hospital Daher, da rede particular. A direção do hospital, dizendo ser o estabelecimento incapaz de atendê-la, transferiu-a para o Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), público, que vem cuidando desta contribuinte de impostos brasileira.

A contribuinte manifestou os sintomas da infecção após retornar, em 26 de fevereiro, de viagem a Londres. É o primeiro caso confirmado de contaminação pelo Covid-19 no DF. Até o fechamento desta coluna, a contribuinte permanecia em estado grave, respirando com auxílio de instrumentos e quadro hemodinâmico estável. Seu quadro de saúde teria sido precipitado por problemas preexistentes. Já o Hospital Daher foi duramente criticado pelo secretário-geral do Ministério da Saúde, João Gabbardo, que considerou “inadmissível” a transferência nas circunstâncias do caso.

Enquanto saúde for tratada como mercadoria, hospital como armazém de secos e molhados e plano de doença for chamado de plano de saúde, de nada adiantará o “ai, ai, ai” do secretário-executivo.

 

Paulo Márcio de Mello é professor servidor público aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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