Golpe baixo

364

Volta o presidente FH a defender a implantação do parlamentarismo no Brasil, em conjunto com seus asseclas. O senador Roberto Freire, do PPS, partido do Sr. Ciro Gomes, chegou a aproveitar o momento delicado do anúncio da morte do governador Mário Covas para lançar o “movimento Mário Covas pelo parlamentarismo”, em atitude inteiramente inoportuna e aproveitadora, no canal 40 da NET, pertencente “por coincidência” ao sistema Globo, no dia 06.03. Perguntem ao arquiteto Oscar Niemeyer o conceito dele sobre o citado senador. O povo brasileiro já rejeitou sua adoção, em duas ocasiões diferentes, optando por esmagadora maioria o presidencialismo. A insistência no assunto revela a sede de poder do atual grupo que administra o país, que pretende perpetuar-se “ad eternum” no comando da administração, cumprindo as determinações oriundas do exterior. A nosso ver, considerando a Constituição de 1988, o tema já está encerrado. Afinal, já houve a consulta prevista na lei maior e o parlamentarismo, bem como a monarquia, foram rejeitados pelos eleitores. Sua defesa, no atual momento da vida brasileira, representa um atentado à democracia brasileira, uma verdadeira tentativa de golpe branco, de baixo nível. E por que FH quer isto?
As duas derrotas impostas no Congresso (senador Barbalho e deputado Aécio), pela administração FH ao senador ACM, possuem um significado muito mais amplo do que o veiculado pela mídia amestrada. O senador ACM é um legítimo representante das oligarquias brasileiras, herdeiras das “capitanias hereditárias” em que se encontra dividido o Brasil. Elas foram cooptadas pelos representantes do capital transnacional no país, para possibilitar a implementação do modelo neoliberal, cabeça de ponte da globalização. O sistema, implantado em sua totalidade em 1994, contava com dois candidatos, justamente os mais votados, para evitar qualquer surpresa. Ganhou o preferido (surpresa!!!) FH, obtendo o 2° lugar o candidato Lula, também membro integrante do Diálogo Interamericano, órgão que traça as diretrizes a serem adotadas pelos países das Américas.
Nas eleições de 98, para minimizar qualquer risco, o sistema veio com três candidatos. Os dois já citados e o Sr. Ciro Gomes, o qual também foi membro do referido Diálogo Interamericano e ocupou, na preferência do eleitorado, o lugar do Dr. Enéas, que tinha sido o terceiro mais votado nas eleições presidenciais de 94. O esquema do sistema para 2002 pretende ficar imune a qualquer risco, vindo possivelmente com quatro candidatos. O Sr. Lula e o Sr. Ciro, representando uma falsa oposição, mas pertencentes ao sistema, um representante direto, provavelmente o ministro Serra ou o governador Tasso e outro, por fora, talvez o governador Garotinho, também ligado aos “donos do mundo”.
Assim, qualquer um que ganhe estará subordinado ao sistema. Candidatos de oposição, além do Dr. Enéas, duramente criticado e discriminado pela mídia, só o governador Itamar Franco, pelo PMDB. Ora, esta seria uma candidatura perigosa, devido ao tempo de TV (horário gratuito), além do poder da máquina de um Estado como Minas Gerais e do fato de o mesmo já ter sido presidente da República. Desta forma, era necessário somar o PMDB, alijando o lado nacional e possuidor de votos do PFL. Anulando o senador ACM, os “donos do mundo” estão objetivando impedir a candidatura do governador Itamar, colocando na chapa comandada pelo PSDB um candidato a vice-presidente oriundo do PMDB, pertencente ao sistema. O PFL, sem ACM, reduz-se eleitoralmente a muito pouco, passando a ser mero coadjuvante do processo, passando a ser liderado também por representantes do sistema. Tudo certo. Só esqueceram de combinar com o senador ACM.
Ao sentir-se traído, ACM reagiu da forma prevista. Bateu forte em toda a liderança da atual administração, denunciando o que todos os brasileiros informados sabem. Ninguém constrói patrimônios como os apresentados pelos denunciados, licitamente, com trabalho. Existem autoridades honestas, obrigadas a conviver com “criminosos do colarinho branco”, a exemplo do juiz Lalau, fingindo desconhecer o óbvio.
A questão ética colocada pela mídia amestrada, tentando desmoralizar as denúncias de ACM, com o argumento de que ele sabia antes de tudo e não denunciou, é verdadeira, mas não invalida a gravidade das denúncias. Se, de fato, o senador, no contexto de uma CPI, falar aquilo que sabe sobre os bastidores da atual administração FH, em especial a reeleição e o processo de privatização, apresentando documentação hábil, o mar de lama represado transbordará, provocando a desestabilização da atual administração. E pensar que o PT e o PPS, classificados como parte da oposição, ao invés de procurar aprofundar a elucidação da onda de corrupção, queriam pedir a cassação do mandato do senador ACM. Eram “tolinhos” ou cooptados? Vão aliar-se indiretamente à administração FH?
A Nação exige a apuração de todas as denúncias, bem como a punição exemplar de todos os infratores, estejam onde estiverem, sejam quem for. Por muito menos, o Sr. Collor de Mello foi derrubado, acertadamente. E a Nação brasileira repudia as manobras oportunistas de tentativa de praticar um verdadeiro golpe nas Instituições Nacionais, seja qual for o pretexto. Lembrem-se de que vários defensores desse novo golpe, articulado pelos palacianos, foram os primeiros a defender as chamadas “diretas já”, ou seja a eleição por via direta do primeiro mandatário do país. Onde está a coerência? No parlamentarismo, é bom recordar, o presidente é mera peça decorativa, a exemplo da rainha da Inglaterra, pois quem manda é o primeiro ministro, escolhido por via indireta, ou seja, pelos membros do parlamento. O povo não é bobo. Ele acompanhou os recentes acontecimentos e sabe do que são capazes os atuais congressistas, inclusive os ditos de oposição. Quase todos estão na mão da administração central, pois dependem de verbas e nomeações para cargos estratégicos, para manter suas posições.

Marcos Coimbra
Professor Titular da Universidade Candido Mendes, Professor na UERJ e Conselheiro da ESG. Correio eletrônico : [email protected]. Site : www.brasilsoberano.com.br.

Siga o canal \"Monitor Mercantil\" no WhatsApp:cnseg

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui