O governo lançou nesta segunda-feira o programa Desenrola 2.0, onde pretende aliviar as dívidas de mais de 81,7 milhões de inadimplentes com descontos de até 90% nas contas e uso de até 20% do FGTS para quitação. O foco da segunda fase do programa é também conter o avanço das bets, responsáveis por parte do boom de novas dívidas. Agora, quem aderir ao programa ficará bloqueado nos sistemas de apostas online por um ano.
Os detalhes do novo Desenrola Brasil foram apresentados em coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, comandada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, com a presença do presidente Lula.
O cidadão terá um novo crédito para pagar dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 e que estejam atrasadas entre 90 dias e 2 anos. A taxa de juros máxima será de 1,99% ao mês com prazo de até 48 meses para pagar. Ainda que muito inferior aos juros cobrados no mercado financeiro, a taxa é considerada alta: equivale a 26,6% ao ano.
O limite da nova dívida, após os descontos, é de até R$ 15 mil por pessoa, por instituição financeira, com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO).
O programa também prevê renegociação de dívidas de estudantes com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), de micro e pequenas empresas, além de pequenos agricultores familiares.
“Embora paliativo, o programa não resolve o problema no longo prazo. Isso porque a realidade social do Brasil é marcada pela assimetria de informação e falta de educação financeira para as pessoas mais vulneráveis. Assim, se os milhões de consumidores que voltarão a ter acesso ao crédito não forem efetivamente capazes de administrar as finanças, cairão em uma armadilha que aprofunda o ciclo de endividamento e compromete a renda”, afirma Stefano Ribeiro Ferri, especialista em Direito do Consumidor.
A medida surge em meio à divulgação do Mapa da Inadimplência pelo Serasa. O estudo traz um levantamento dos últimos dez anos do consumidor brasileiro e demonstra que brasileiro vive um ciclo de endividamento sem fim, por diversos motivos, principalmente por conta de crédito fácil e juros altos, entre outros. Além disso traz um raio-X dos devedores, em que mostra que hoje, as mulheres aparecem na lista dos “novos inadimplentes, mostra que 34 milhões de pessoas vivem em inadimplência recorrente e que o país atingiu a marca de 81,7 milhões de inadimplentes neste ano, um aumento de 38,1% se comparado a 2016.”
Para Stefano, “o crédito deixa de ser um instrumento legítimo de inclusão econômica e passa a ser uma armadilha quando é concedido sem responsabilidade. Isso ocorre, por exemplo, quando instituições financeiras oferecem crédito de forma agressiva, sem avaliar adequadamente a capacidade de pagamento do consumidor, ou quando ocultam o real custo da operação, especialmente em relação a juros e encargos.”
Ele fala sobre a existência de um “modelo de negócio” baseado na inadimplência.
“É importante ter cautela, mas há indícios preocupantes. Parte do mercado se beneficia indiretamente do endividamento crônico, seja por meio de juros elevados, renegociações sucessivas ou pela própria dinâmica de crédito rotativo. Embora não se possa afirmar que a inadimplência seja o objetivo central, o sistema muitas vezes se estrutura de forma a tolerar – e até lucrar com – o atraso constante. Isso levanta discussões importantes sobre regulação e responsabilidade das instituições financeiras”.
Veja os detalhes do Desenrola 2.0
- Mobilização nacional com duração de 90 dias
- Foco na renegociação de dívidas de famílias; estudantes; agricultores familiares; aposentados e pensionistas; micro e pequenas empresas
- Previsão de grandes descontos, juros menores e uso de garantias públicas
- Objetivo de reduzir a inadimplência e estimular o uso consciente do crédito
Principais frentes
1) Desenrola Famílias
- Voltado à renegociação de dívidas de pessoas físicas
- Podem participar pessoas com renda de até 5 salários mínimos (R$ 8.105)
- Dívidas podem ser renegociadas: contratadas até 31 de janeiro de 2026, com atraso entre 90 dias e dois anos, nas modalidades cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado
Condições da renegociação
- Descontos entre 30% e 90%, com juros de até 1,99% ao mês e prazo de pagamento de até 48 meses
- Início do pagamento em até 30 dias
- Parcelas mínimas de R$ 50
- Limite de até R$ 15 mil por pessoa, por instituição financeira
Novidades
- Possibilidade de uso de 20% do saldo do FGTS ou até R$ 1 mil, o que for maior, após a renegociação
Contrapartidas
- Bloqueio do CPF por 12 meses para apostas online
- Bancos devem investir 1% das garantias do programa em educação financeira
- Continuidade da proibição de envio de recursos para apostas por meio de crédito
Principais alterações no crédito consignado
- Fim da reserva obrigatória de 10% para cartão consignado e de benefícios
- Margem total cai de 45% para 40%
- Limite de até 5% para cartões consignados
- Prazo máximo será de 108 meses no caso dos beneficiários do INSS; e de até 120 meses para servidores federais
- Carência de até 3 meses
- Redução gradual das margens a partir de 2027
2) Desenrola Fies
- Renegociação de dívidas estudantis, com condições conforme o atraso e o perfil do estudante.
- Dívidas entre 90 e 360 dias terão desconto de 100% dos juros e multas; pagamento à vista inclui desconto adicional de 12% do principal; possibilidade de parcelamento em até 150 vezes
- Dívidas acima de 360 dias: desconto de até 77% para estudantes fora do CadÚnico; descontos de até 99% para estudantes do CadÚnico
Expectativa de beneficiar mais de 1 milhão de estudantes
3) Desenrola Empresas
- Voltado a micro e pequenas empresas, com foco na substituição de dívidas caras por crédito com melhores condições. A expectativa é a de alcançar mais de 2 milhões de empresas, com melhoria das linhas do ProCred e do Pronampe
- Microempresas (até R$ 360 mil/ano) terão a carência sendo ampliada de 12 para 24 meses. O prazo total passou de 72 para 96 meses; e a tolerância à inadimplência passou de 14 para 90 dias
- Crédito de até 50% do faturamento, chegando a 60% para empresas lideradas por mulheres
- Empresas com receitas de até R$ 4,8 milhões/ano terão carência de até 24 meses; prazo de até 96 meses; e limite de crédito sobe de R$ 250 mil para R$ 500 mil
4) Desenrola Rural
- Relançado para atender agricultores familiares, visando a regularização de dívidas antigas; a ampliação do prazo para renegociação até 20 de dezembro de 2026; e a facilitação do acesso ao crédito rural e retomada da capacidade produtiva
- Expectativa de que o programa atenda cerca de 1,3 milhão de agricultores familiares
Duração do programa
- O Novo Desenrola Brasil terá validade de 90 dias
- Dívidas de até R$ 100, quitadas nos moldes do programa, resultarão em nome limpo imediato
Impacto do Desenrola 2.0 no FGTS: perda de empregos e moradias
A Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc) alerta que a liberação de recursos do FGTS para o programa Desenrola 2.0 pode levar a saques que variam entre R$ 4,5 bilhões e R$ 8,2 bilhões.
Na projeção da entidade, o Brasil pode deixar de gerar entre 59 mil e 107 mil postos de trabalho; deixariam de ser construídas entre 25 mil e 46 mil unidades habitacionais populares; o Estado deixaria de arrecadar entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,4 bilhões. A perda de investimento pode representar uma redução de até R$ 10,7 bilhões no PIB.
Despesas essenciais geram endividamento maior entre quem recebe até um salário mínimo
Para os brasileiros na base da pirâmide econômica, o endividamento não é uma questão de consumo supérfluo. Segundo a pesquisa BTG/Nexus, entre quem ganha até um salário mínimo, os gastos com saúde e a perda de emprego pesam significativamente mais do que na média nacional como causas para o aperto financeiro.
Enquanto a média nacional cita gastos com saúde como motivo de dívida em 32% dos casos, o índice sobe para 41% entre os que ganham até um salário mínimo e diminui conforme a renda aumenta: São 37% entre quem ganha de um a dois salários mínimos, 30% de dois a cinco salários mínimos e são motivos de endividamento para 19% dos brasileiros que recebem acima de cinco.
A mesma coisa acontece no desemprego. Para 22% dos brasileiros que ganham até um salário mínimo, a perda de emprego próprio ou de alguém da família é motivo de dívida. A média geral é de 13%.
Os gastos do dia a dia, como alimentação e contas fixas, seguem como o principal motivo de dívida para todos os brasileiros (50%) e, nesse grupo, atinge quase metade (48%) dos entrevistados.
Já na parcela da população que ganha mais, acima de 5 salários mínimos, o segundo maior motivo de endividamento depois dos gastos do dia a dia (49%), são as compras parceladas ou financiamentos de bens de consumo, resposta de 35% dos entrevistados, em seguida aparece queda na renda mensal (20%).
“Os brasileiros que ganham menos se endividam com gastos essenciais. Essas despesas não são opcionais e, muitas vezes, se repetem por vários meses, fazendo com que essas dívidas se tornem cada vez maiores. O impacto da perda de emprego nesse segmento também é mais significativo sobre o endividamento do que em setores com maior renda, dificultando a quitação delas”, aponta o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski.
A pesquisa entrevistou, por telefone, 2.028 pessoas entre os dias 24 e 26 de abril e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-01075/2026.
Matéria atualizada às 12h23, com fala de Lula, e às 19h26 para inclusão dos detalhes do Desenrola 2.0
Com informações da Agência Brasil
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