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Guerra do Iraque: três anos depois

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Decorridos três anos da invasão e ocupação do Iraque, por quanto tempo os Estados Unidos continuarão mantendo suas forças militares no país mesopotâmico? Esta tem sido a instigante pergunta de geopolíticos e analistas internacionais com relação ao segundo mandato do presidente George W. Bush.
Até bem pouco tempo, a administração Bush costumava responder a essa pergunta com um evasivo clichê: “O tempo necessário e nem um dia mais”. Porém, na atualidade, observa-se uma forte guinada com relação a este posicionamento.
O gelo começou a partir-se em 17 de novembro de 2005, quando John Murtha, um congressista democrata da linha dura e ex-marine, sugeriu que retirassem as tropas do Iraque no prazo de seis meses.
Pouco depois, o Senado americano, controlado pelos republicanos, votou a favor de “uma transição significativa para a plena soberania do Iraque, em 2006”. Após resistência inicial, George Bush começou a modificar sua retórica e insinuou que a retirada das tropas ocorreria antes do esperado.
A evidente erosão do apoio da opinião pública à política encetada pelo presidente Bush no Iraque está bastante clara. Aproximadamente 54% dos norte-americanos dizem agora que os Estados Unidos se equivocaram ao enviar tropas ao Iraque, uma cifra muito superior aos 24% que opinavam o mesmo no início da guerra, em março de 2003.
Em parte, isto é o reflexo da crescente lista de baixas, com mais de 2.300 estadunidenses mortos nessa contenda até ao presente momento. Porém, também é reflexo da crença cada vez mais propalada de que a guerra está fracassando fragorosamente.
Penso que os norte-americanos, de modo contumaz, toleram as baixas quando crêem que uma guerra é justa e tem perspectivas razoáveis de êxito. Atualmente, observa-se que os cidadãos duvidam das duas coisas.
O governo está pagando um preço muito alto por exagerar nas razões para o engajamento na guerra e de fazer uma pífia ocupação posterior à invasão. Não é surpreendente que a nova retórica esgrimida pela Casa Branca enfatize possuir “uma nova estratégia para a vitória”.
Se a “vitória” estiver calcada no estabelecimento de uma democracia estável no Iraque, é pouco provável que Bush tenha suficiente tempo para pôr em marcha sua estratégia. Em setembro último, o general George Casey, oficial de maior patente militar no Iraque, testemunhou ante o Congresso que as insurgências modernas duram no entorno de uma década, e que o Exército iraquiano possuía apenas um batalhão capaz de lutar sem ajuda das forças estadunidenses.
Um mês mais tarde, o prestigioso Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres calculou que as retiradas de tropas americanas, no ano de 2006, seriam possivelmente reduzidas e que o Iraque tardaria pelo menos cinco anos para criar um exército de 30 mil homens, necessário para lutar por si só contra as forças da insurgência iraquiana.
Porém, com as eleições para o Congresso previstas para 2006, e a eleição presidencial em 2008, cinco anos parece demasiado tempo para qualquer ação nesse sentido. Agrava a situação o fato de a administração republicana ter menos de um ano e meio para levar a cabo a sua estratégia.
Entretanto, os democratas estão divididos. Alguns, como John Murtha e Nancy Pelosi, líder da maioria no Congresso, querem um calendário curto, enquanto outros, como o senador Joseph Biden, resistem em estabelecer um calendário rígido, prevendo, porém,  a retirada de 50 mil soldados em 2006, que iria seguido do enxugamento, de forma paulatina, do efetivo de cerca de 100 mil combatentes, em 2007.
Os que crêem que invadir o Iraque foi um erro e que o presidente Bush é culpado pelo excesso de confiança e por não haver planejado adequadamente as conseqüências da invasão enfrentam um dilema: se os EUA retirarem suas tropas precipitadamente, estes erros poderiam multiplicar-se de modo exponencial.
O Iraque não é como o Vietnã, onde a retirada dos Estados Unidos daquele país seguiu-se à estabilidade imposta por um governo autoritário. No Iraque, o perigo reside no fato de que a retirada das tropas da coalizão poderia ser seguida por uma guerra civil, conduzindo o país ao caos, estabelecendo as condições ideais para que os terroristas façam da região o seu santuário.
O Iraque também difere do Vietnã em outro aspecto fundamental. Diferentemente dos vietnamitas do norte, os insurretos sunitas certamente terão sérias dificuldades para se imporem num país em que representam somente 20% da população. De fato, com um país que exibe um mosaico de culturas e etnias, composto por 80% de árabes xiitas e curdos, a insurgência sunita centra-se em somente quatro das dezoito províncias do Iraque.
A ambigüidade identificada neste caso é que os Estados Unidos formam parte tanto do problema como da solução. Enquanto um grande número de soldados estadunidenses permanecer ali como força de ocupação, servirá de elemento motivador e instrumento de recrutamento de insurgentes e terroristas suicidas.
Porém, se os EUA se retiram de forma açodada do Iraque, o governo iraquiano eleito poderá não ser capaz de frear a insurgência, e o Iraque seguiria o mesmo caminho tomado pelo Líbano na década de 1980, ou do Afeganistão, nos anos noventa do século passado.
De maneira análoga, se Bush estabelecer um calendário de curto prazo, poderá animar e induzir os insurgentes a aguentar até que se retirem os americanos. Porém, se não deixar bastante claro que as tropas abandonarão o país em pouco tempo, reforçará a impressão de que tencionam levar a cabo uma ocupação imperialista.
Um fracasso já é evidente: o do sonho neoconservador de criar um aliado militar que pudesse servir como base militar, a longo prazo, para o estacionamento de tropas americanas em sua campanha para democratizar o Oriente Médio.
Três eleições outorgaram certo grau de legitimidade ao governo iraquiano dominado por xiitas. Porém, sem um sentido de comunidade e instituições efetivas, as eleições simplesmente criam uma tirania da maioria. Pode ser que isso seja melhor que a tirania da minoria de Saddam Hussein, porém dificilmente poderá considerar-se uma democracia moderna.
O presidente norte-americano costuma comparar os seus objetivos no Iraque com a democratização do Japão depois da Segunda Guerra Mundial. Mas o Japão era uma país totalmente conquistado, etnicamente homogêneo e sem insurretos, com uma ampla classe média e experiência anterior de abertura política. Inclusive, nessas condições, evidentemente mais favoráveis, os bons resultados tardaram sete anos para serem atingidos.
No lugar disso, George Bush deveria pensar em uma margem de dois anos para fornecer ao governo iraquiano as maiores probabilidades de êxito, antes que as tropas estadunidenses se retirem, destacando o fato de que a partir desse momento os iraquianos serão integralmente responsáveis por sua própria segurança e por sua salvação política.

Manuel Cambeses Júnior
Coronel-aviador da Reserva da Força Aérea, é membro do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra (ESG) e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil.

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