A guerra na Síria continua. Por quê?

Internacional / 12:32 - 21 de out de 2016

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Correspondentes da imprensa internacional, profissionais experientes não estranham as informações de uma certa corrente ocidental, de belicosa e igualmente antidemocrática percepção e interpretação dos conflitos e das insurgências ocorridos na área do Grande Oriente Médio. Não estranham porque, com as informações transmitidas, tenta-se atribuir uma interpretação de importância única aos complexos fenômenos da crise mundial em nível político, econômico, social e da cidadania. E é preciso lembrar que estas informações são veiculadas por veículos de comunicação muito bem pagos, de mundialmente hegemônica percepção neoliberal sobre evoluções que passam a constar da história mundial.

A preocupação destes correspondentes não é devida a divergências de opinião, porque estas, aliás, contribuem ao problematismo espiritual e ao equivocado desenvolvimento do pensamento político. E aquilo que preocupa os correspondentes da imprensa internacional é que textos jornalísticos de importância única e sem questionamentos mais profundos de caráter geopolítico e geoestratégico não facilitam a compreensão e, consequentemente, formulam ao público opiniões ambíguas e, ainda, esfumaçam a composição dos fatos dificultando a análise crítica.

Questiona-se as propostas alternativas

dos sírios contrários ao regime Assad

A análise de um texto jornalístico, para ser sustentada, é preciso que se considere os fatores internos e externos, econômicos, políticos e sociais. Contudo, aquilo que não é sabido e resta ser comprovado na prática é até que ponto será aceitável na Síria uma redemocratização sem soluções políticas, quando os contrários a Bashar Al-Assad tomarem o “poder” depondo as armas.

Será que ao tomarem o “poder” os contra Assad e ou alguns outros inaugurarão – a exemplo de como ocorreu no Iraque – uma prolongada temporada de massacres e acertos de contas políticos, tribais e religiosos? Aliás, a própria oposição insurgente síria reconhece que está impossibilitada de apresentar um específico e alternativo plano de pacificação e governança por não ter encontrado, ainda, seu próprio denominador político.

Papel das potências

E qual seria a razão? É óbvio porque indiscutivelmente – e isto é compreensível – não têm coesão em suas metas políticas nacionais. A prolongada governança Baath, incluindo a família Assad, não repartiu o “poder” com outras camadas sociais nacionais. A população sunita ficou completamente de fora da divisão do bolo, tanto durante a gestão de Hafez El-Assad (pai), quanto durante a gestão de Bashar Al-Assad (filho), a gestão do segundo está sendo servida de uma série de quadros políticos e militares.

Ate hoje questiona-se qual é a razão da insurgência na Síria. Claramente, é um movimento que solapa de forma mais cruel os direitos humanos e as liberdades individuais, coletivas e não só. E contabiliza um saldo desconhecido, totalmente, de milhares de mortos e feridos vitimando, principalmente, a população civil e desarmada.

Questiona-se, principalmente, qual é o papel da intervenção de grandes potências ex e neocolonialistas (França, Grã-Bretanha, Rússia e EUA) que, alegando intromissão de “caráter pacificador”, intervêm nos assuntos internos do país, umas apoiando os insurgentes sírios, outros o governo de Bashar Al-Assad e, outros, ainda, incentivando a participação no conflito da belicosa Arábia Saudita e de alguns outros principados de “opereta” do Golfo Pérsico.

Questiona-se, contudo, quais serão as propostas alternativas dos sírios contrários ao regime Bashar Al-Assad, mais democráticas e, principalmente, sunitas. Entretanto, sob o ponto de vista social, o “Baath profundo” da Síria durante o regime de Bashar Al-Assad não tem sido uma das mais sombrias antissociais, como aquelas de Bem Ali ou Mubarak. E é por isso mesmo que o povo sírio teve um nível de vida não facilmente criticado pelo Ocidente.

Assim, na Síria, não eram conhecidas gritantes atividades e manifestações sindicais, ou até manifestações populares exigindo o pão, como tem acontecido de tempos em tempos no vizinho Egito. O que faltava, obviamente, eram condições democráticas que acenderiam formas mais organizadas de lutas políticas e sociais.

Reivindicações

Porém, a oposição política da Síria tem outra linha divisória: os moderados dentro do país são de percepções democráticas e de esquerda. As convulsionadas evoluções no vizinho Iraque que, infelizmente continuam, ininterruptamente, são de caráter mais próximo. Já a oposição política é de linha-dura, no exterior, apoiada pela Turquia e pelos EUA (cada um por razões diferentes) reivindicam:

A imediata e sem acordo algum saída do “poder” do grupo político do regime Baath, assim como a retirada exemplar do poder de Bashar A-Assad.

O afastamento da Rússia da região, a eliminação da base naval que a Rússia mantém na Síria e a proibição de ancoragem de navios e guerra russos em portos sírios.

Guinada imediata do correlacionamento político em benefício dos sunitas (de preferência aqueles que têm relações com os EUA e os círculos franceses próximos ao ex-presidente da França, Nicolas Sarcozy).

Definitiva expulsão ou “eliminação” das populações curdas residentes no país que apoiam o partido político curdo PKK.

Severo controle das reservas petrolíferas, dos portos, aeroportos e, dos recursos hídricos, tanto do Norte do país quanto das Colinas de Golán.

(Anotem que estas discussões ocupam mais o Conselho Nacional de Salvação em seus próprios objetivos, do que os pedidos de proteção da população civil e desarmada contra os ataques do exército tático do regime de Bashar Al-Assad).

Cessar imediatamente o derramamento de sangue e serem iniciadas, imediatamente, as negociações em busca de solução política e pacificadora. Este deverá ser o objetivo imediato e, sincero do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas(ONU) e, principalmente de seu novo secretário-geral.

Porque o ex-secretário-geral não mostrou particular e sincero interesse nas avaliações e conclusões do então enviado especial da ONU e da Liga dos Estados Árabes na região, Kofi Annan, que na ocasião demitiu-se por não ter sido devidamente atendido e ouvido por alguns diplomatas do Conselho de Segurança da ONU.

Intervenção rápida

Assim, pode concluir-se – sem incorrer risco de grande desvio da realidade – que “alea jacta est” por alguns círculos políticos e econômicos do “Ocidente Livre”. Ao que tudo indica, gostariam de intervir rapidamente ao país, bem no estilo de Líbia.

Após o atentado suicida ocorrido aqui, em Damasco, e o assassinato de três importantes políticos do regime Baath, parece que houve represálias por parte de “forças ocultas” contra um dos mais importantes elementos do setor de segurança da Arábia Saudita, o príncipe Badar Bem Sultan, em território da própria Arábia Saudita.

O príncipe Bem Sultan havia vivido muitos anos nos EUA e era estreitamente ligado à família dos presidentes Bush – pai e filho – e sabe-se que nos últimos anos havia sido nomeado chefe dos serviços de segurança da Arábia Saudita. Sabe-se, ainda, que ele escapou do atentado. Mas, logo em seguida, desapareceu.

As preocupações, portanto, são grandes, porque o derramamento de sangue continua, enquanto muitas facas estão sendo afiadas aqui, na Síria, e o mercúrio está alto no termômetro do Grande Oriente Médio.

Serbin Argyrowitz

Latino-americana de Notícias.

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