Guerra no Irã: quais os impactos na economia?

Economistas apontam desdobramentos do aumento das tensões globais nos mercados.

Opinião do Analista / 12:05 - 6 de jan de 2020

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Os mercados globais observam com cautela os desdobramentos dos ataques realizados à cidade de Bagdá, na última sexta feira, sob ordem do presidente americano Donald Trump, que resultaram na morte do principal general iraniano Qassem Soleimani. Entre as principais preocupações dos analistas está a possibilidade de um novo choque nos preços do petróleo, o que resultaria em pressões inflacionárias que atrapalhariam os rumos da economia mundial, que tem dado sinais de recuperação. Os ganhos no petróleo na última sexta-feira e na manhã dessa segunda já ultrapassam os 4% e o medo é que existam desdobramentos ainda maiores. O preço da gasolina, que já vinha subindo no Brasil, pode disparar e desencadear outras crises, como uma nova paralisação dos caminhoneiros.

André Alírio, economista e operador de Renda Fixa da Nova Futura, explica que as dimensões dos eventos ainda não estão claras, mas a principal preocupação contínua sobre o preço do petróleo.

"A preocupação maior para os mercados seria quanto a uma possível reação americana ou iraniana que afetasse a distribuição de petróleo. A tendência do mercado em 2020 já era a de um preço do petróleo mais alto, entretanto, podemos ter uma subida maior do que o mercado esperava. Lembrando que o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã pode levar o preço de petróleo para casa dos US$ 150. Apesar desses fatores, a concentração de petróleo no mundo em poucas nações, hoje é menor, o que reduz as consequências de choques de petróleo parecidos com o passado", comenta. André Alírio ainda que um conflito não seria vantajoso mesmo para setores ligados a defesa ou produção de armas, pois o preço do petróleo pressionaria a inflação e juros o que prejudicaria a recuperação mundial nesse ano.

Fernando Bergallo, diretor de Câmbio da FB Capital, afirma que o dólar voltará a subir, pois os investidores irão buscar posições mais defensivas.

"Em um momento que vemos o dólar se aproximando dos R$ 4 por conta dos avanços do acordo entre EUA e China, nós vemos o dólar, agora, inverter o sinal graças a uma escalada da tensão global por conta dessa questão geopolítica. Não descartamos, então, que o dólar volte a R$4,10 ou até acima disso, pois os desdobramentos devem perdurar. Deve haver um aumento da procura por posições defensivas, característico desse tipo de situação com confronto geopolítico. Como a compra de dólar, euro e a valorização desses ativos que são sinônimos de proteção em momentos de turbulência e aversão ao risco", ressalta.

Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus, acredita que ainda é muito cedo para avaliar os impactos do mercado. "O temos de certo é o impacto no petróleo. O problema direto na maioria dos países, é a pressão inflacionária. No Brasil, por exemplo a principal preocupação do presidente Jair Bolsonaro é como segurar o preço do petróleo, sem transferir para a Petrobras esse aumento no preço. Existe então uma busca por um equilíbrio. É claro que se a situação se agravar veremos uma busca por segurança de capital, o chamado fly to quality, que são os players tirando dinheiro de emergência de países de risco e colocando o dinheiro em lugares seguros, até a situação se estabilizar. Então, momentaneamente, sentimos a tensão geral, mas o grande impacto é no petróleo", explica.

Fabrizio Gueratto, financista do Cana 1Bilhão Educação Financeira, acredita que a escalada dos preços no petróleo pode ter efeitos muito maiores na nossa economia. "A alta no petróleo e o aumento das tensões globais, que fazem com que os investidores busquem mais segurança investindo em títulos do tesouro americano, por exemplo, o que eleva o valor do dólar. A subida dos preços, tanto na moeda americana quanto no comodities, pode ter efeitos diretos na nossa inflação. Dessa maneira, o Banco Central pode ter que subir as taxas de juros afim de conter as pressões inflacionárias, resultando em uma interrupção no ciclo de cortes nos juros brasileiros", finaliza.

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