Há o que comemorar no mercado de seguros em 2021

Por Marcio Serôa de Araujo Coriolano.

Faltando pouco para encerrar 2021, já é hora de alguma reflexão sobre o que ocorreu na extensa cadeia de valor agregado do setor de seguros e o que podemos esperar para 2022. Escoimados os problemas mais agudos que afligiram o país e a nação desde a declaração da pandemia, em março de 2020, cujas repercussões ainda se fazem sentir neste ano, restou comprovada a capacidade de superação das instituições, empresas e pessoas que produzem, intermedeiam e consomem os produtos e serviços de seguros, previdência privada e capitalização.

O fato é que já vínhamos de um ano muito forte de conquistas em 2019. Mesmo com graus elevados de dificuldades herdadas de períodos de estagnação econômica, aquele exercício fechou com um volume de negócios superior a 12% sobre o antecedente, ou mais ou menos 8% de crescimento em termos reais. O que aconteceu foi uma consolidação de nova consciência da população a respeito dos riscos que quer suportar, embora alguns ainda teimem em não reconhecer. O mercado de seguros só não cresceu mais em 2019 pelas restrições de renda que caracterizam a sociedade brasileira.

Também em 2019 já havia ficado clara a mudança de preferências dos demandantes de seguros por produtos mais importantes para a sua existência e que pudessem caber nos seus orçamentos, como os seguros de Saúde, de Vida, Residencial, Prestamista, fora a dinâmica dos seguros Rural e de Crédito e Garantias. Assim como também já estava patente um novo espaço de concorrência intrassetorial e de ajustes severos de despesas, em presença, à época, da taxa baixa de juros que remunerava menos os ativos. A par, há que se reconhecer o avanço da inovação e da tecnologia embarcada nas empresas incumbentes.

Ainda olhando pelo retrovisor, em 2020 iniciou-se uma ruptura do padrão até então conhecido da regulação governamental no tocante aos seguros. Foi naquela época que assumiu uma nova administração na Superintendência de Seguros Privados, a Susep, com promessa de modernizar e transformar o marco de normativos no sentido de maior liberdade de produtos ao tempo de maior aperto na supervisão de conduta.

As expectativas mais otimistas para o ano passado esbarraram na declaração, em março, da pandemia da Covid-19. Em menos de três meses, a taxa anualizada de crescimento dos seguros, que havia estacionado na faixa de 12%, caiu abruptamente para níveis muito baixos até o segundo semestre. Mas o pior foi evitado exatamente por todos os atributos de avanço do setor acumulados até então. A inovação e a tecnologia foram desembarcadas para dar suporte às cadeias de transmissão do setor, que são o funcionamento das equipes (desta vez remotamente), ao esforço de vendas (com plataformas automatizadas), ao atendimento aos consumidores (também remotamente), tudo isso mesmo em presença de um nível de expectativas negativas que, em determinados períodos, beirou patamares críticos. Ao fim e ao cabo, com recuperação consistente dos ramos líderes a partir de julho, 2020 assistiu a um aumento pequeno da demanda global da ordem de 1,3%, ou um decréscimo real estimado em 3,5%. Melhor, entretanto, do que os demais setores produtivos, exceto o agrícola, há muito tempo o polo dinâmico da economia brasileira.

Pois, desde então, e permanecendo em 2021, foi o mesmo quadro pandêmico que havia derrubado as expectativas no ano anterior que serviu para estimular novo ciclo de crescimento do mercado de seguros. Assim sendo, tanto a população quanto as empresas viram aumentar a sua aversão aos riscos. O risco, esta matéria-prima dos seguros, mostrou seus efeitos com uma visão dura, porém prática, para todos. Não foi por outra razão senão a busca pela proteção contra riscos agora mais sentidos, que vêm ganhando espaço progressivo na preferência agregada os seguros de Saúde (as doenças), de Vida (a formação de Pecúlios e Rendas), de Residências (a moradia como lugar além do convívio), de Prestamistas (para garantia de empréstimos e financiamentos), de Habitações (garantias de imóveis novos), entre outros.

As estatísticas estão aí para tirar a prova dos nove da tese da recuperação pela preferência da sociedade. Em 2021, em termos anualizados, saímos de 1,3% de crescimento no início do ano para chegar a 10,7% em setembro último, ou perto de uma estabilidade em termos reais. E fora aqueles ramos líderes, são dignos de nota outros ramos de seguros antes apenas encarados como promessa de desenvolvimento, como o de Responsabilidade Civil, o Cibernético.

E nada é tão trivial que deva ser julgado apenas por volumes. A maturidade de empresas e profissionais que operam os seguros e os distribuem foi posta à prova e correspondeu, muito bem. Em período crítico para a manutenção do propósito e do ânimo em setor tão grande e diverso, as várias representações institucionais deram-se as mãos para ampliar o diálogo com os Poderes da República – em suporte às centenas de empresas e aos milhares de corretores -, para responder assertivamente a toda a espécie de propostas e medidas que povoaram a agenda pública, aos olhos atentos e críticos da sociedade que sofria e ainda sofre os efeitos dos ciclos epidemiológicos, econômicos e políticos.

Um exemplo paradigmático dessa maturidade e capacidade de adaptação tem sido, particularmente, a persistência da mesma visão e valores das representações institucionais de seguradores e corretores diante do modismo das “techs” e da sua postura ativa para empreender propostas que coloquem no caminho correto e sustentável o que se passou a chamar de “open”, no nosso caso o “open insurance”. Comprovado, por esse breve histórico acima alinhado, a natureza inovadora do setor de seguros, fruto de experiência, empreendedorismo, investimento, capacidade de gestão, confiança e respeito ao consumidor, as lideranças sabem reconhecer os evidentes avanços transformadores da regulação estatal, ao mesmo tempo em que têm o conhecimento teórico e prático e credibilidade para postular as mudanças inadiáveis no “open insurance”, para que este não ameace todo o edifício que foi construído por elas e pelos cidadãos e empresas em tempos tão complexos quanto os por todos vividos recentemente.

Sabemos o quanto difícil é fazer previsões para 2022. Na média, os especialistas não são otimistas sobre o desempenho econômico do Brasil, em presença de tantas incógnitas nos ambientes interno e externo. Embora, no nosso setor, a confiança possa ser medida não apenas pelos números ainda positivos que se sucedem. Vemos também com alegria a progressiva adesão, e mesmo protagonismo, a temas como o da diversidade, o da participação equânime de mulheres em todos os postos de direção das seguradoras, o da alavancagem prática da tríade ASG – Ambiente, Social e Gestão. O compromisso com os seguros é, por natureza, o compromisso com o futuro sustentável. Portanto, nada mais natural que esses temas devam fazer parte da agenda permanente do setor de seguros. E assim pretendemos caminhar em 2022: com o mesmo espírito de superação que nos guiou em 2020 e em 2021.

Marcio Serôa de Araujo Coriolano é Economista e Presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg)

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