

E como se não bastasse a guerra na Europa, Rússia contra a Ucrânia que já se arrasta há quase dois anos, com milhares de mortes e destruição por todos os cantos – uma barbaridade por posse de extensão territorial por parte da Rússia -, o mundo acordou no último dia 7 de outubro, com um conflito de grandes proporções entre o movimento terrorista do Hamas bombardeando o Estado de Israel, no Oriente Médio.
Os terroristas que vivem em território palestino, mas que não representam naturalmente o Estado da Palestina, decidiriam, com ousadia e crueldade máxima, aniquilar civis, decapitar pessoas, inclusive crianças e idosos, promover estupros em massa e ainda fazer reféns, quase três centenas de inocentes.
É absolutamente lamentável, uma verdadeira estupidez, que guerras ocorram, quando os governantes deveriam, por meio do diálogo, buscar a paz mundial. A Organização das Nações Unidas tem falhado, como órgão máximo de entendimento, de diálogo e de promoção do bem-comum e, vez por outra, as declarações, inclusive as do seu Secretário geral Antonio Gutierrez, são dúbias, quando se deveria reconhecer o Hamas como uma entidade perigosa, assassina e terrorista. De altíssima periculosidade.
O mundo vive em atenção máxima e países vizinhos, como o Egito, Catar, Líbano, Jordânia e Síria estão naturalmente atentos, verificando e sondando todas as situações que lá estão ocorrendo, alguns deles inclusive, como o Líbano, que abriga o Hezbollah, e a Síria dando apoio ao Hamas, pois jamais concordaram com a criação de Israel, em 1948.
Inimaginável que o governo de Israel, um dos exércitos mais fortes do mundo, não tenha conseguido por meio da sua inteligência descobrir tais manobras e os bombardeios eminentes. Mas o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu tem feito pronunciamento duros e garante que Israel sairá vencedor desse conflito bélico. Foi inteligente, apesar de amargar índices de impopularidade, e resolveu formar em seu governo um gabinete de crise, integrado, inclusive por não aliados políticos, mas o que está em jogo é a sobrevivência do Estado de Israel e do seu povo.
Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha, França e dezenas de outros países têm dado apoio e suporte ao povo judeu, mas o Brasil ainda não conseguiu emitir uma nota sequer afirmando que o Hamas é terrorista, ficando na contramão dos países integrantes do Primeiro Mundo.
O conflito entre palestinos e israelenses se estende por pelo menos sete décadas e a atual violência, iniciada após o ataque do Hamas a Israel, é apenas o mais recente capítulo desta tensão, com tristíssimos desdobramentos, muito sangue derramado e centenas de mortes.
A região da Palestina, entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, é considerada sagrada para muçulmanos, judeus e católicos. E até 1918, essa área pertenceu ao Império Otomano e era ocupada principalmente por árabes e outras comunidades muçulmanas. Mas a forte imigração judaica, encorajada pelas aspirações sionistas, começava a gerar resistência. Após a desintegração do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido recebeu um mandato da Liga das Nações para administrar o território da Palestina. Mas, antes e durante a guerra, os britânicos fizeram várias promessas aos árabes e judeus que não foram cumpridas porque, dentre outras razões, o Reino Unido já tinha dividido o Oriente Médio com a França. Isto causou um clima de tensão entre nacionalistas árabes e sionistas que levou a confrontos entre paramilitares judeus e grupos árabes.
Após a Segunda Guerra Mundial, começou a se discutir a criação do Estado de Israel. O Comitê Especial das Nações Unidas sobre a Palestina declarou em seu relatório à Assembleia Geral, em 3 de setembro de 1947, que havia motivos para o estabelecimento de um estado judeu no Oriente Médio. E esses argumentos estavam todos eles baseados em fontes bíblicas e históricas.
A Declaração de Balfour de 1917, na qual o governo britânico se declarou a favor de uma “nação” para os judeus na Palestina, foi uma delas. Ali foram reconhecidas a ligação histórica do povo judeu com a Palestina e as bases para a reconstituição do “Lar Nacional Judaico” naquela região.
Com o Holocausto contra 6 milhões de judeus na Europa antes e durante a Segunda Guerra Mundial, cresceu a pressão internacional para o reconhecimento de um Estado nacional judeu.
Incapaz de resolver a polarização entre o nacionalismo árabe e o sionismo, o governo britânico levou a questão às Nações Unidas. Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral aprovou um plano para a divisão da Palestina, que recomendava a criação de um Estado árabe independente, de um Estado judeu e de um regime especial para a cidade de Jerusalém. O plano foi aceito pelos israelenses, mas não pelos árabes, que o consideraram uma perda de territórios. É por isso que ele nunca foi implementado.
Um dia antes de expirar o mandato britânico da Palestina, em 14 de maio de 1948, a Agência Judaica para Israel, representante dos judeus durante o mandato, declarou a independência do Estado de Israel.
No dia seguinte, Israel solicitou a adesão às Nações Unidas, status que finalmente alcançou um ano depois. Após a fundação de Israel, em 14 de maio de 1948, a tensão deixou de ser uma questão local para se tornar uma questão regional.
No dia seguinte, o Egito, a Jordânia, a Síria e o Iraque invadiram o território recém-criado. Foi a primeira guerra árabe-israelense, também conhecida pelos judeus como guerra de independência ou de libertação.
Os esforços do Conselho de Segurança da ONU levaram à assinatura de um armistício, em 7 de janeiro de 1949, que colocou fim à guerra. Após o conflito, o território inicialmente planejado pelas Nações Unidas para estabelecer um Estado Árabe foi reduzido pela metade.
Para os palestinos, começou a Nakba, a chamada “destruição” ou “catástrofe”: o início da tragédia nacional. Cerca de 750 mil palestinos fugiram para países vizinhos ou foram expulsos pelas tropas israelenses.
Em 1956, uma crise no Canal de Suez colocou o Estado de Israel em conflito com o Egito. Com apoio da França e da Inglaterra, Israel invadiu a península do Sinai, mas sofreu pressão internacional para recuar. Isto causou um clima de tensão entre nacionalistas árabes e sionistas que levou a confrontos entre paramilitares judeus e grupos árabes.
Em 1967, entre 5 e 10 de junho, eclodiu a Guerra dos Seis Dias, que teve consequências profundas e duradouras. Israel obteve uma vitória esmagadora sobre uma coligação árabe. Israel capturou a Faixa de Gaza e a Península do Sinai do Egito, a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, da Jordânia e as Colinas de Golã da Síria. Meio milhão de palestinos viraram refugiados.
O último conflito árabe-israelense foi a Guerra do Yom Kippur, em 1973, que colocou o Egito e a Síria contra Israel e permitiu que Cairo recuperasse o Sinai. Gaza, porém, seguiu sob controle israelense. Seis anos depois, o Egito tornou-se o primeiro país árabe a assinar a paz com Israel, exemplo seguido apenas pela Jordânia anos depois. Em 1982, Israel devolveu o Sinai ao Egito.
Hoje, 75 anos depois da criação de Israel, a paz entre palestinos e israelenses está tão distante quanto quando a ONU propôs dividir em dois o mandato da Palestina.
Atualmente, Israel só tem fronteiras definidas com o Egito e a Jordânia. Israel e o Líbano ainda não chegaram a um tratado de paz para definir sua fronteira, mas a linha de armistício de 1949 entre os dois países serve como fronteira de fato.
Essa fronteira não foi suficiente para evitar pelo menos duas guerras naquele território (em 1982 e 2006) e vários conflitos menores, primeiro entre tropas israelenses e guerrilheiros palestinos no Líbano e depois entre Israel e o Hezbollah, a facção muçulmana xiita do sul do Líbano.
Enquanto isso, a fronteira de Israel com a Síria permanece indefinida. A ONU considera as Colinas de Golã “território ocupado” por Israel, enquanto os israelenses as veem como “território em disputa”.
A ampliação da ofensiva de Israel aumenta temor de escalada do conflito no Oriente Médio e o Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, descartou qualquer cessar-fogo na Faixa de Gaza. A “nova fase” da guerra, anunciada pelo ministro da Defesa israelense recentemente, aumenta a preocupação de uma escalada regional. Na fronteira com o Líbano, multiplicam-se os enfrentamentos com o grupo Hezbollah.
O Exército israelense anunciou que bombardeou “infraestruturas” dessa organização. O primeiro-ministro libanês, Najib Mikati, afirmou, em uma entrevista à AFP, que estava fazendo o possível para evitar que seu país entrasse “na guerra”.
A violência também aumenta na Cisjordânia ocupada, onde a Autoridade Palestina reportou 120 mortos, desde 7 de outubro. Por sua vez, o presidente russo Vladimir Putin acusou os Estados Unidos de ser responsável pelo “caos mortal” no Oriente Médio.
Dezenas de tanques israelenses realizaram uma incursão nas imediações do distrito de Zeitun, na periferia da Cidade de Gaza e, segundo o exército israelense, mais de 600 alvos foram bombardeados nas últimas horas. Em Jerusalém, as sirenas de alerta antiaéreo soam a todo instante e detonações são ouvidas com frequência.
Benjamin Netanyahu descartou qualquer cessar-fogo na Faixa de Gaza, onde o Exército avança “metodicamente”. Os ataques aéreos e as operações terrestres israelenses se intensificaram desde a última sexta-feira, dia 27, com o objetivo de “aniquilar” o Hamas e resgatar os 239 reféns capturados durante os ataques de 7 de outubro, que deixou cerca de 1.400 mortos em Israel.
Os bombardeios de represália de Israel provocaram mais de 8.525 mortes em Gaza, segundo Ministério da Saúde do Hamas. Desses óbitos, 3.542 são menores de idade.
As forças armadas ampliaram sua entrada terrestre na Faixa de Gaza. Estão fazendo isso por etapas moderadas e muito potentes, avançando metodicamente passo a passo.
“Os chamados para um cessar-fogo são chamados para Israel se render ao Hamas. Isso não vai acontecer”, garante Netanyahu. Os Estados Unidos, principal aliado de Israel, concordaram que um cessar-fogo não era “a resposta adequada no momento”, mas propuseram “pausas humanitárias”, disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby.
Enquanto isso, milhares de pessoas estão desalojadas, sem água, alimentação e remédios e os corredores humanitários ainda não foram criados, como era de se esperar. Vamos torcer para que Israel e Hamas, com a ajuda de governos, encontrem uma forma de acabar, e imediatamente, essa guerra, para evitar que se espalhe pelos países vizinhos e venha a se tornar uma Terceira Guerra Mundial.
Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.
















