Haraquiri

A falência precoce do Governo De la Rúa, antes de sequer completar seu primeiro aniversário, enseja lições indispensáveis para a oposição brasileira. O triste papel a que foram relegadas figuras históricas da Frepaso, como o ex-vice-presidente Carlos Alvarez, deveria pôr em alerta os que alimentam a ilusão de conciliar o diploma de oposicionistas bem comportados com a manutenção de suas biografias.
A defesa da Lei de Responsabilidade Fiscal, ensaiada por prefeitos que, por ingenuidade excessiva ou submissão inaceitável, confundem moralidade administrativa com a extensão do ajuste fiscal a municípios onde esta opção foi derrotada no voto, acarretará, em prazo muito curto, em desmoralização mais humilhante do que a foram submetidos alcaides sobre os quais pesavam denúncias graves de corrupção.
O preço a ser pago não deve surpreender os candidatos a gerentes da crise da política econômica. Muito além de libelo anticorrupção, o voto nas últimas eleições foi o julgamento, em nível municipal, dos efeitos do neoliberalismo nos setores de saúde, educação, emprego, habitação etc. Quanto mais profundo o protesto, maior a fatura a ser cobrada pelo eleitorado. Quem ignorar a manifestação das urnas, deve estar preparado para o ritual de haraquiri político e todas as suas conseqüências.

Sem gás
As indústrias mexicanas que adotaram o gás natural como combustível estão se arrependendo. O produto teve aumento de 150% nos últimos 12 meses. Com isso, siderúrgicas e empresas do setor químico, grandes consumidores de energia, estão fechando as portas. Minério de ferro está sendo exportado para a Venezuela para ser transformado. O gás custa no México quase três vezes mais que no país de Chávez. A distribuição de gás natural foi privatizada após a crise do peso mexicano e o ingresso do México no Nafta, a organização de livre comércio da América do Norte. O grupo espanhol – sempre eles – Gas Natural controla a distribuição. Desde que a empresa começou a operar, os preços triplicaram, ao sabor da alta do petróleo.

Ligado
Não deixa de ser contraditório que o Rock in Rio III – que tem como slogan “Por um mundo melhor” e que baseia seu marketing numa cruzada pela paz – tenha entre seus patrocinadores uma bebida energética. Tais produtos, se consumidos junto com bebidas alcoólicas, podem levar a estados nada pacíficos, principalmente jovens, público alvo do festival de rock.

Contramão
Além de estarem longe do padrão de Primeiro Mundo prometido à época da privatização, os avisos eletrônicos instalados na Ponte Rio-Niterói também pecam pela informação equivocada. Ontem, por volta das 14h, uma das placas avisava aos incautos que havia retenção na “Perimetral e JB”. Retida parece ter ficado apenas a mensagem: o motorista que preferiu ignorar o aviso encontrava tanto o elevado quanto a pista embaixo com trânsito livre.

Mais barato
Ano passado, os gastos da turma do andar de cima com segurança somaram fantásticos R$ 4 bilhões. Esse total é R$ 200 milhões menor que os R$ 3,8 bilhões que Malan & Cia alega serem necessários para elevar o salário mínimo para R$ 180.

Troca
O presidente FH jactou-se de uma “revolução silenciosa” na modernização e desburocratização do Estado. Ele lembrou que nos últimos 12 meses deixou de assinar cerca de 1.600 documentos como outorgas de concessão para emissora de rádio e decretos para desapropriação de terra. Sobra tempo para assinar medidas provisórias: só no segundo mandato foram 1.977 MPs editadas, 1.912 reeditadas, 41 em tramitação e cinco revogadas. Apenas 42 foram convertidas, ou seja, analisadas e aprovadas no Congresso.

Papai Noel
O presidente da Federação Nacional do Comércio Varejista de Combustíveis, Gil Siufo, disse que o aumento do preço dos combustíveis “não é um bom presente de Natal para uma classe média já tão sacrificada”. Ele considera o reajuste desnecessário, pois o país importa apenas 30% do petróleo consumido. Apesar de solidário com a classe média, Siufo avisa que os preços nas bombas podem subir mais do que os 8% estimados pelo governo: “O mercado é que dirá o preço”.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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