Herança maldita

Apesar das promessas de prosperidade dos seus defensores, que acólitos de menor cepa chegaram a elevar à condição de um novo Renascimento, a globalização, duas décadas e meia  anos depois, apresenta resultados bem diferente dos anunciados. Há 25 anos, havia 500 milhões de famintos no mundo. Em 2003, esse número saltou para 800 milhões.

Gol contra
“O neoliberalismo vinha na defensiva no continente latino-americano, pressionado pela catástrofe argentina de 2001 e pelos péssimos resultados sociais e econômicos. Muitos paradigmas neoliberais vinham sendo criticados em escala mundial (…) A adesão de Lula e do PT é um tremendo contraponto ao que parecia ser um declínio progressivo da sufocante hegemonia dos dogmas neoliberais e ameaça recolocá-los na mesma posição de força anterior.” A crítica é feita por Carlos Eduardo Carvalho, do Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política da PUCSP, em texto para discussão cujo título não deixa margem a dúvidas: O Governo Lula, Triunfo Espetacular do Neoliberalismo.
Para Carlos Carvalho, a opção do governo petista pelo neoliberalismo é clara e pode ser vista em vários momentos. “O principal argumento para as políticas continuístas de Palocci-Meirelles era a gravidade do quadro econômico, mas o governo foi bem mais além: encaminhou reformas institucionais de inspiração neoliberal, nomeou economistas afinados com o neoliberalismo norte-americano para posições estratégicas, não só no Ministério da Fazenda, mas também nos ministérios responsáveis pelas políticas sociais, afinou seu discurso e sua imagem pelos valores neoliberais, em detrimento dos valores da esquerda. Nada disso era requerido pela situação econômica de curto prazo.”

Ventríloquo
O recente de discurso de Palocci afirmando que agora desenvolvimento, emprego e distribuição de renda é tarefa para a “microeconomia” nada tem de novo. Carlos Eduardo Carvalho aponta a despolitização da política econômica, tratada como técnica universal  dividida apenas em “responsável” ou “populista”, como um dos pilares da política econômica neoliberal. Os demais seriam: prioridade absoluta para os direitos do capital; ocultamento das relações capital-trabalho e responsabilização do indivíduo frente ao capital; abertura de novos espaços para a valorização do capital; e responsabilização dos países dependentes pelos efeitos da desordem financeira internacional.

Sem ilusões
O que fazer diante da capitulação de Lula frente o neoliberalismo? Para Carlos Eduardo Carvalho, não há respostas fáceis, nem resposta única, válidas para todos neste momento. “O desafio comum é tratar o PT e o governo Lula de forma laica, abandonar as ilusões, e seguir em frente. Fazer a luta política nas condições possíveis, sem alinhamentos automáticos com o bloco petista ou contra ele, pensar muito e discutir muito.”

Malucas
Para se vingar de uma pulga que a atacara, uma inglesa resolveu cozinhar seu pobre gatinho de estimação no microondas; uma austríaca, por sua vez, foi atropelada por um trem a 150 quilômetros por hora e sofreu apenas leves arranhões; um sueco não teve a mesma sorte: morreu soterrado por uma montanha de ervilhas. Você dúvida? Estas e outras manchetes exóticas estão em As Notícias Mais Malucas do Planeta (Editora Contexto, 190 páginas, R$ 27), de Alessandro Bender. Segundo o autor, de tão incríveis, só dá para acreditar nas notícias porque foram publicadas em jornais e revistas considerados sérios.

Aparelho
Depois de abraçar e aprofundar a política econômica do tucanato, o PT perdeu qualquer autoridade moral para classificá-la de herança maldita. Nesse sentido, a cena feita pelo presidente Lula em Nova York deve ser vista como mera pantomina para americano ver. A verdadeira herança maldita da qual o país é credor é a relação dos milhares de apaniguados de PSDB e PFL que continuam a exercer cargos de confiança no governo Lula como seus partidos não tivessem sido sovados pelas urnas. O PT poderia encabeçar a lista apenas com os afilhados dos líderes tucanos e pefelista.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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