Home office com dias contados

Por Bruna Lofego.

Opinião / 16:27 - 31 de jul de 2020

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Nos últimos quatro meses, trabalhar em casa deixou de ser uma tendência moderninha adotada pelas empresas e virou uma prática comum na maioria das organizações, cujo colaborador não precisa necessariamente estar fisicamente dentro da organização.

O processo de transformação digital, absorvido compulsoriamente pelas corporações por conta da pandemia, contribuiu para que líderes passassem a valorizar ainda mais seus colaboradores dentro das casas. Estudo recente feito pela Robert Half, com mais de 800 trabalhadores, apontou que, mesmo trabalhando mais, 86% do entrevistados dizem querer continuar a fazer home office. Em outra pesquisa, realizada pela ISE Business School, 80% dos líderes estão satisfeitos com essa nova forma de trabalhar.

A partir desses dois levantamentos, é possível concluir que o home office veio para ficar e o trabalho dentro do escritório, em conjunto com equipe, tende a acabar, correto? Errado. Na verdade, o home office está com os dias contados, e não só os líderes quanto os colaboradores estão ansiosos para voltar ao trabalho quando tudo isso se normalizar. Prova disso é a pesquisa do Linkedin feita com 2 mil profissionais. O levantamento mostra que 62% desses profissionais na ativa em casa estão mais estressados em meio à quarentena.

Podemos classificar o atual momento como o mesmo período em que surgiu a onda das paletas mexicanas: chegaram com um diferencial, algo inovador e gourmetizado pela sociedade. Em pouco tempo, surgiram franquias com os mais variados nomes. E tinha paleta em tudo que é lugar e com vários sabores. Entretanto, bastaram dois verões para que elas se transformassem em picolés mexicanos e ocupassem geladeiras de mercados e padarias, junto com os picolés tradicionais. As lojas especializadas fecharam, e quem apostou nisso amargou um grande prejuízo.

As empresas que estão investindo pesado no trabalho dentro de casa devem ficar atentas a este tipo de onda. É necessário entender que home office e trabalho remoto são conceitos diferenciados. Enquanto o primeiro é executado dentro de casa, o outro pode ser de qualquer local, com um ambiente mais corporativo, acolhedor e privado.

Pesquisas apontam que o trabalho dentro de casa tem desencadeado doenças como síndrome de burnout, ansiedade e depressão. A falta de produtividade também já é sentida por gestores. Isso porque acumulam-se tarefas que não aconteceriam em um ambiente profissional.

Já no trabalho remoto, dentro de um coworking, por exemplo, existirá contato com outras pessoas fora da bolha social, absorção da cultura organizacional, maior concentração com tarefas corporativas e menos estresse causado pelo excesso por estar dentro de casa.

Um termômetro que endossa que o home office 100% tende a ser uma moda de ocasião é o número de empresas e empreendedores reservando espaço de coworking. Donos deste modelo de negócio já começaram a sentir um aumento na busca por estes serviços, podendo ser desde salas individuais, compartilhadas com equipes, como as famosas PAs (posto de atendimento).

Em 2013, com a crise econômica brasileira, aconteceu algo parecido, quando funcionários de empresas perderam empregos e decidiram empreender. Inicialmente, começaram de um escritório improvisado dentro de casa, mas depois se viram obrigados a migrarem para um coworking, justamente por entenderem que a concentração nas tarefas diárias era mais certeira do que dentro de casa.

Obviamente, empresas não serão mais as mesmas após a pandemia, inclusive na forma de gerir seus colaboradores, podendo ser fisicamente ou de forma remota, mas é certeza de que quem apoiar o home office integral como um benefício estará sujeito a sofrer o mesmo prejuízo de quem investiu em franquias de paletas mexicanas.

Bruna Lofego

CEO da CWK Coworking.

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