Hora de buscar caminhos para quietude

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No convívio diário com as pessoas, cada vez mais percebo uma generalizada inquietação no ar. Todos parecem estar tensos com a proximidade do próximo lance, embora sem saber se vivenciam os minutos finais da disputa da copa do mundo de futebol ou a próxima cena de um filme de terror.

A inquietação é certa, mas as razões, imprecisas. Visito alguns textos de Bauman e sua genial concepção de mundo líquido, conseguindo, agora sim, na vivência objetiva, materializar o conceito. A filosofia daquele pensador ficou alcançável ao cidadão comum, como eu.

Penso com meus botões: Quem sabe nós mesmos não estejamos nos tornando líquidos e, por consequência, incomodados com essa nova dimensão corpórea? A inquietude é interior ou exterior? Eis a questão! Talvez ambas.

 

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Viramos lutadores de MMA que só conhecem

o adversário quando o combate se inicia

 

Os jornais diários, em vez de nos informarem para enfrentarmos o dia, passam-nos, a cada manhã, novas incertezas, que consumiremos nas próximas 24 horas, até que sejam substituídas pelas que virão na edição do dia seguinte.

Claro que nossa referencia primeira é o nosso próprio quintal Brasil. Vai implodir ou, enfim, quebrará seu eterno encanto saindo do berço esplêndido? Fugimos, então, para o noticiário internacional e, igualmente, nos vemos na dicotomia – estamos à beira de uma nova guerra ou do éden da solidariedade global.

Ficamos sem saber qual surpresa nos reserva a nova descoberta tecnológica. Vem para o bem ou para o mal? Fato é que, parece, esgotamos definitivamente o passado e perdemos a capacidade de projetar o futuro, prática que nos viciou o raciocínio, trazendo a impressão de que podemos prever o porvir.

Perdendo a capacidade de planejar, tudo se complica. Para os mais velhos, vem a angústia pela incerteza de proteção aos descendentes; para os mais novos, vem a dúvida quanto a como se preparar para enfrentar o desconhecido. Nos tornamos, todos, lutadores de um MMA condenados a só conhecerem o adversário no exato momento em que o combate se inicia.

Penso que isso estimula o egoísmo, que é o refúgio da proteção – cada um que cuide do seu pedaço! Talvez estejamos sendo instados a reinventar nosso viver, levando-nos a um momento que obriga a vagar entre as certezas da ciência e o culto da fé.

O que parece é que já não sabemos mais nos governar enquanto seres coletivos. Qual democracia defendemos? A que está aí? Não só no Brasil. Por falha semântica, trocamos o sufrágio pelo naufrágio. Voto virou algo com significado abalado, vez que agora serve para legitimar qualquer coisa. Virou produto barato, imitado por similares de baixa qualidade que só zelam pelas aparências.

Por outro lado, acreditar no sonho da igualdade plena já caiu no desuso faz tempo. Na tentativa de fugir da própria angústia, desenho ou atrelo-me a um modelo que ofereça direção, sentido, razão para lutar. A lógica de um acumular e enriquecer constante parece desafiar as leis da física e demonstrar que está na hora de desnudar a mentira.

Teremos de exterminar o consumismo desenfreado, matar a fome dos famintos, zelar pelo ambiente que nos cerca. Talvez até questionar o último avanço de uma tecnologia qualquer. Afinal, o mérito de um novo veneno é matar aquele que o consome, portanto, muitas vezes teremos de guardar nossos inventos para usá-los em ocasião mais oportuna.

Dizem os céticos que essa concepção é vaga e peca ao desprezar a natureza humana que não segue a lógica da pureza intelectual, quase ingênua. Pode ser, mas isso não consola. Aceitar que teremos de viver de sobressaltos e num clima de tensão constante não ameniza as angústias. Está na hora de cada um abraçar a sua causa e não temer lutar por ela porque, o que está aí, já não nos serve mais.

 

 

Josué Setta

Engenheiro e consultor.

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