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Ideologia e ciência econômica

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“Examinada de forma séria, a propalada divisão entre os setores público e privado não faz sentido.” – John Kenneth Galbraith, In. A economia das fraudes inocentes (2004).

Após a queda do muro de Berlim, forças liberal-conservadoras emergiram na cena política com o discurso do fim da História. A articulação e a organização dessas forças não é objeto deste breve artigo. Seu frágil discurso economicista e os interesses vinculados, sim.
O fato de o capitalismo monopolista ter sumido do ensino de economia não é um episódio inocente. Encoberto pela nuvem ideológica neoliberal, gestada após a Segunda Guerra, o termo “economia de mercado” vem substituindo progressivamente a expressão “capitalismo” nos discursos de líderes de diversas áreas. Também não se trata de um episódio inocente.
Se o socialismo real implodiu com o a fragmentação da URSS, o capitalismo desregulado falhou em sua missão civilizadora. Não é o caso de citar Marx & Engels para revisitar as condições insalubres do capitalismo do século XIX. Tampouco Hobsbawm quanto ao tema imperialismo. O que salvou o capitalismo nos países centrais foi a regulação estatal, permitindo a ampliação progressiva da democracia política.
Em tempos de escândalos financeiros no centro cíclico do sistema economia-mundo, refletir sobre o papel do capitalismo regulado faz-se necessário. Foi exatamente de lá, durante a década de 1930, que a administração Franklin D. Roosevelt assumiu o desafio histórico de regular o capitalismo norte-americano. Muitas pedras se apresentaram no caminho daquela ousada administração. Os insultos por parte dos conservadores se expressavam nos colunistas coniventes com o status quo.
Mudar os métodos de gestão da economia nacional, fazendo com que o Estado interviesse de forma a gerar economias externas para os agentes privados e ainda atuasse anticiclicamente não foram conquistas fáceis. A passo que a Alemanha e a Itália ingressavam na rota do nazi-fascismo, Roosevelt adotou a democracia econômica – o princípio da igualdade de oportunidades – como meta administrativa.
Administração de preços, investimentos ambiciosos em infra-estrutura, mobilização nacional e pleno emprego foram termos que ficaram historicamente identificados com o período.
A livre iniciativa não foi bloqueada durante o New Deal, como temia o bloco conservador norte-americano. Pelo contrário, o princípio da demanda efetiva fez com que os efeitos multiplicadores pudessem ser aproveitados pelos empreendedores de então. O “espírito animal” dos empresários, diria Keynes, alimentava-se do fluxo de demanda.
Mas como é possível esquecer um fato histórico tão marcante na virada do capitalismo liberal para o regulado, da democracia restrita para a ampliada? As raízes deste esquecimento são complexas, mas não se pode deixar de mencionar o fato de que durante a década de 1970 os EUA se afastaram da paridade dólar-ouro negociada em Bretton Woods. Para quem estuda os ciclos econômicos de longo prazo, os de Kondratieff, e as transições hegemônicas, trata-se apenas de um padrão histórico.
Com a moeda de circulação internacional desvinculada de qualquer metal precioso escasso, os EUA buscam hoje manter o dólar como padrão final das transações mundiais. Eles não deixarão de intervir onde haja ameaça ao poder do dólar. O fato do orçamento de Defesa norte-americano ter crescido de forma absurda nos últimos tempos não tem nada de anormal. Nem mesmo a argumentação dos ideólogos conservadores, incluindo sua quinta coluna no Brasil, de que eles enfrentam uma “guerra contra o terror” pode ser facilmente digerida.
O Brasil, que não possui moeda de circulação internacional, do superávit primário acima dos 4,25% do PIB, um dos grandes campeões de juros reais do planeta, da crescente violência urbana, dos frágeis serviços básicos, da precarização das relações de trabalho (desemprego e subemprego), poderia começar a refletir sobre o que implica aceitar passivamente a débil argumentação dos ideólogos neoliberais.

Rodrigo Medeiros
Professor da Universidade Gama Filho e pesquisador associado da Cátedra e Rede de Economia Global da Unesco.

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