Imbatível

A incômoda condição de país com maior taxa de juros reais (descontada a inflação) num mundo de taxas reais negativas ou próximas de zero não é um ponto fora da curva nas duas últimas décadas e meia para o Brasil. Entre 1987 e 1997 – governos Sarney e FH – os juros reais tupiniquins permaneceram acima de 15%. Ou seja, por dez anos, com inflação em alta ou em baixa, a remuneração dos rentistas, estrangeiros e nacionais ficou em dois dígitos. O pico dos juros altos, perto de 26%, ocorreu em 1992, na administração Collor. Os dados foram pescados do Ipea Data pelos economistas Sérgio Carvalho Motta e Ilydio Augusto Gonçalves, da Eletrobras.

Nossa Grécia
O banco de dados do Ipea aponta ainda que, entre 1989, do Plano Verão, do Senhor Inflação, Mailson da Nóbrega, e 1996, no início do Plano Real, a taxa real ficou sempre acima de 20%: “Ou seja,  semelhante aos juros pagos pela Grécia de hoje”, destacam os pesquisadores da Eletrobras, acrescentando que a permanência dos juros em patamares tão elevados gerou forte crescimento real da dívida nesse período, além de aperto fiscal.

Corpo mole
“Não há como negar que o Banco Central mudou. Com Alexandre Tombini, o órgão não deixa o câmbio flutuar de forma limpa, “coloca areia na engrenagem”, briga contra sua valorização. Mas também sabe que essa mesma valorização contribui para a estabilidade monetária. E assim, por vezes, faz “corpo mole”.” A avaliação é do professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) João Sicsu, em artigo no site da Agência Carta Maior.

Desejos
No mesmo artigo, Sicsu, ex-diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, sustenta não haver dúvida que a linha do Banco Central mudou da gestão de Henrique Meirelles para a de Tombini. Segundo ele, o BC presidido por Meirelles “era independente do governo e das necessidades da sociedade. Mas era prisioneiro das “expectativas” do mercado financeiro. Muitos dizem que, neste caso, é melhor usar a palavra “desejos” no lugar de “expectativas”, ironiza.

Os teóricos
Apesar de identificar uma mudança “para melhor” entre as duas gestões da política monetária, Sicsu defende ser preciso ainda “mudar (um pouco) mais”: “Falta ao Banco Central entrar no debate público. É preciso enfrentar o conservadorismo antidesenvolvimentista no plano das idéias. O momento é favorável. As teses do mercado definham a cada dia. Os laboratórios das suas idéias explodiram e explodem a cada dia. Da Argentina, de 2001, à crise européia, dos dias de hoje, passando pelos Estados Unidos, de 2007-8, são todos eventos teorizados e aplicados pelos neoliberais de plantão nos mercados.”

Viés de baixa
O lançamento, pela Fiesp, do Jurômetro, parte do Movimento Brasil com Juros Baixos, deveria servir como um gatilho para a presidente Dilma Rousseff aprofundar e dar mais velocidade ao tímido movimento de seu governo em direção a juros decentes no país. Não apenas – ainda que fundamental – a queda das taxas cobradas sobre a dívida do governo, que já levaram à sangria dos cofres públicos em mais de R$ 217 bilhões. É imprescindível que a redução seja levada aos empréstimos feitos a pessoas e empresas (e aqui não se fala da cobrança nos cartões de crédito ou cheque especial, modalidades que devem ser deslocadas das páginas de economia dos jornais para as de polícia).
Cálculo da pesquisadora alemã Margrit Kennedy mostra que os juros representam hoje 40% do custo de tudo que compramos, cobrados em cada etapa de produção. Nos Estados Unidos pode-se chegar a 50%. No Brasil, recordista mundial em juros reais, este percentual com certeza é maior.
Reduzir a taxa financeira possibilitará ao consumidor comprar mais, ao mesmo tempo em que reduzirá o custo para o produtor (o que, se não for incorporado aos lucros, como ocorreu com o final da CPMF, significará preços menores).
O Brasil dispõe de um arsenal para executar esta tarefa: os bancos públicos, que aqui sobrevivem, para desespero dos arautos do neoliberalismo. Eles devem comandar o processo – sob a liderança da presidente.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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