Improviso

Para que o governo Lula, mais uma vez, não se diga surpreendido pelos fatos, esta coluna adverte: com o caos aéreo e o conseqüente aumento das viagens de ônibus e de carro, é indispensável organizar algum plano de emergência para as combalidas estradas – algo bem diverso de maquiagens pré-eleitorais – para enfrentar a inevitável sobrecarga. Caso contrário, em breve, o país poderá lamentar o aumento do número de acidentes e perdas de vidas em terra. Ou será que a marquetagem palaciana só se preocupa com os estragos  à imagem presidencial causados pela plasticidade dramática provocada pelas, em geral, numerosas vítimas no ar?

Raposa no galinheiro
A propósito, se as preocupações do presidente Lula sobre as conseqüências para a segurança nacional e para o espaço aéreo provocadas pelo corte de gastos públicos são sinceras, são incompatíveis com a nomeação do novo ministro da Defesa. Considerado o mais tucano dos peemedebistas, Jobim é ferrenho defensor do Estado mínimo.

As vaias do Pan
A análise dos apupos recorrentes que têm sido distribuídos pelo público que consegue entrar nas instalações do Pan Rio não deve ficar restrita a uma condenação da deseducação da audiência em relação a alguns dos nossos visitantes. Elas condensam, ainda que de forma difusa e confusa, um estado de saturamento e indignação popular com a mediocridade e o descalabro em que o país se arrasta já há quase duas décadas.
Na ausência de uma liderança e um projeto nacional que canalize essa energia para a demanda por transformações ansiosa e longamente aguardadas, tome de vaia em argentinos, cubanos e estadunidenses, ou no adversário da vez dos atletas brasileiros, como essa catarse coletiva compensasse a impossibilidade de pular na jugular do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Ou ainda servisse de bálsamo para a indignação contra a morosidade do Judiciário, o imobilismo do governo Lula diante da crise aérea, os salários baixos, o desemprego elevado, a violência das grandes cidades.
Grande parte desse patriotismo deslocado tem sua origem na forma com que integrantes da TV brasileira representam, de forma caricata e preconceituosa, os “novos inimigos” dos brasileiros, sejam eles adversários tradicionais em algumas das arenas esportivas, ou rivais recentes e eventuais. Essa representação distorcida e parcial da realidade não se restringe a estigmatizar os representantes de outros povos. Também serve de caldo de cultura para manifestações indignadas contra nacionais, cujas decisões, ainda que não bem-comprendidas, desagradem ao senso comum. O exemplo mais emblemático dessa esquizofrenia são as inacreditáveis vaias a Bernardinho. Que outras razões, que não a reverberação e a amplificação de boatos pela mídia, principalmente, eletrônica, informaram os que dirigirem sua indignação ao mais vitorioso treinador do mundo em esportes coletivos da atualidade e ao seu promissor filho?
Pudesse e/ou quisesse, a televisão brasileira expor em horário nobre as verdadeiras razões do sofrimento dos brasileiros, dentro e fora das quadras, e multidões sairiam às ruas. Mas, nesse caso, a cumplicidade obriga nossa mídia a operações de indignação descolocadas. Para usar a linguagem esportiva, dignas de medalha de lata.

Carmem sem comprador
O óleo de Portinari retratando a socialite Carmem Solbiati Mayrink Veiga, avaliado em R$ 350 mil, não foi arrematado na primeira noite de vendas do leilão de Soraia Cals/Evandro Carneiro, terça-feira, no Atlantic Business Center, em Copacabana. Em compensação, a coleção de porcelanas japonesas Imari  foi vendida em lote único, por R$ 420 mil, após disputa que causou frisson no salão superlotado. A cotação dos quadros de Milton Dacosta (cerca de dez) variaram de R$ 19 mil a R$ 180 mil, valor oferecido pela tela “Moça com Chapéu”, reproduzida na capa do catálogo do leilão.

Di em dose dupla
Muito apreciado pelos colecionadores paulistas, Archangelo Ianelli  teve um trabalho vendido por Evandro por R$ 100 mil. Totalmente roxo, o trabalho de Ianelli agrada aos admiradores de pinturas geométricas e abstratas. Outras cotações atingidas na noite de abertura do desfile/venda da dupla Soraia Cals e Evandro Carneiro: R$ 385 mil (“Mulher na Janela”)  e R$ 350 mil (“Gato”), ambos de Di Cavalcanti; R$ 4.900 mil  (nu feminino), de Quirino Campofiorito e R$ 98 mil (auto-retrato de José Pancetti).

Herança maldita
Já que insiste em ampliar em seu segundo mandato o número de ex-integrantes do governo FH, o presidente Lula poderia, ao menos se abster de reclamar dos descalabros da interminável era tucana na frente dos novos ministros. Assim, evitaria constragimentos, como os provocados ao novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, ex-ministro da Justiça de FH e que ouviu seu novo chefe discorrer longamente sobre o sucateamento das Forças Armadas, promovido por seu ex-superior.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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