Inconsistências que títulos e medalhas tentam esconder

Normalmente quando temos títulos fortes, ‘ralamos’ para consegui-los.

Vinho etc / 14:34 - 10 de jul de 2020

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Após investigações das suspeitas quanto a inconsistência dos títulos exibidos pelo último pretenso ministro da Educação do Brasil, Carlos Decotelli, o que veio a provocar a invalidação de sua posse, resolvi aproveitar a minha coluna para fazer breves reflexões sobre questões curriculares, bem como para dizer o que os meus títulos na área do vinho podem representar. Mesmo sendo uma coluna sobre vinhos, acho importante dialogar com elementos do cotidiano, desde que eles tenham interlocução com o que faço e do que falo.

O primeiro ponto é que, normalmente, os nomes escolhidos para liderar uma pasta de tamanha envergadura são de pessoas que reúnem títulos acadêmicos e conhecimento técnico, já que estamos falando de Educação, uma área alinhada com a gênese do conhecimento acadêmico e cuja pasta vai implementar políticas de educação no âmbito federal – o que requer conhecimento profundo de sua sistematização e acompanhamento dessa práxis (plano teórico + prático em constante desenvolvimento). Deveria reunir ainda o reconhecimento público dessa pessoa pelo seu desempenho na área, o que se dá por uma visibilidade quanto à sua atuação em instituições educacionais importantes, bem como pela sua produtividade acadêmica, por meio de pesquisas e publicações. No plano mais pragmático, é desejável a sua capacidade de gerir, de conseguir reunir em torno de si pessoal e rotinas de trabalho bem articuladas e integradas ao planejamento executivo da pasta.

Bem, isso é o que racionalmente considero como critérios constitutivos elementares, mas, em se tratando de um cargo político, é desejável ainda que essa pessoa tenha bons relacionamentos e capacidade para se articular com a sociedade, imprensa, poderes legislativos, além do executivo, ao qual está umbilicalmente associado.

Daí parto para o segundo ponto: títulos por si só (mesmo que existentes) não justificam a convocação de um ministro, haja vista que títulos nem sempre correspondem ao conhecimento adquirido e, ainda, que títulos sem uma atuação profissional que qualifique o seu portador são insuficientes para cargos que demandam experiência, bagagem profissional.

Normalmente, quando temos títulos fortes, “ralamos” para consegui-los. No meu caso, foram 13 anos só de pós-graduação e outros tantos mais de experiência profissional, além do meu comprometimento pessoal de honrá-los, o que nem sempre é feito. O que esses títulos me conferiram para o campo do vinho (pesquisas de doutorado e pós-doc)? Além de pesquisas aprofundadas (visitas, entrevistas, acesso à documentação) do universo estudado (regiões de produção do Brasil, Argentina e França), me deram, sobretudo, um olhar crítico e uma visão mais complexa da realidade, que desconfia de rótulos, visões corporativas, fanatismo ideológico, verdades absolutas, discursos contraditórios entre a teoria e a prática etc. Acima de tudo, me fizeram compreender que o conhecimento nunca se esgota.

Devo dizer que o mercado (quanto mais engajado é na retórica publicitária) nem sempre valoriza essa visão científica. Deve muito aos cientistas, mas a lógica de seu conhecimento é absolutamente pragmática: faça isso porque funciona; amanhã faça o contrário, porque assim deixou de funcionar. É o mesmo que dizer que esse vinho é bom porque tem nota 90. Mas por que 90? Quais os critérios que justificam essa nota? Quem foi o autor da nota e o que ele privilegia no vinho? Quando e em que condições esse vinho foi degustado? Talvez assim você consiga imaginar o que significa aquela nota 90 naquele vinho. Mas o mercado é abarrotado de mitos mercadológicos – é a sua mola mestra e funciona para o seu objetivo: neste caso, vender vinhos e não confundir o consumidor com muitos questionamentos. É quase o contrário do que recomenda a ciência, que não é um caminho fácil, mas um caminho que te dá mais autonomia.

E por que será que o “pretenso” ministro não pôde continuar? Na minha opinião, porque seus títulos foram usados como uma prótese profissional, não pelo que esse título poderia conferir ao seu portador, mas pelo que ele poderia fazer supor, num momento em que a pasta da Educação já estava sacrificada demais, carecendo do mínimo de competência para o cargo. Parafraseando, é como se uma fraude na avaliação de vinhos fosse descoberta, e o produto não tivesse “caixa” para provar o contrário. Não colou.

 

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