As queixas recentes feitas pela Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom) de que a Petrobras pratica preços artificialmente mais baixos para a gasolina e o diesel foram rebatidas pelos sindicatos dos petroleiros, federação e institutos.
A coordenadora-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Cibele Vieira, afirma que os elevados reajustes nos preços dos combustíveis praticados por importadores, refinarias e distribuidoras privadas, principalmente, reforçam a importância e necessidade de fortalecimento da Petrobras, retomando os ativos de refino e distribuição que foram vendidos no governo passado.
“A Petrobras extrai o seu próprio petróleo, transporta nos seus navios e refina nas suas refinarias, com os seus trabalhadores. Então, o preço praticado pela companhia é um preço justo que remunera a empresa e ainda garante estabilidade de preços, beneficiando o consumidor e o setor produtivo”, acrescenta a coordenadora para quem os agentes privados do setor lutam para manter suas altas margens de lucro mesmo em conjuntura de guerra.
Ela observa que, em meio a cenários de instabilidade internacional, distribuidoras privadas têm se aproveitado da ausência de coordenação estatal para ampliar margens e repassar aumentos de forma desproporcional ao consumidor final. “Reestatizar a BR Distribuidora, a Liquigás, a malha de dutos e as refinarias privatizadas no governo Bolsonaro é o caminho para a soberania energética do país. Se reestatizar, o preço vai baixar”, acrescenta a diretora da FUP e presidente do Sindipetro do Rio Grande do Sul, Miriam Cabreira.
“Se o preço do diesel sobe, os preços dos fretes e dos alimentos sobem imediatamente, assim como a inflação. Temos que lutar para que a Petrobras volte para a distribuição de combustível, para garantir que o preço praticado pelas refinarias da estatal chegue no consumidor”, diz Miriam, lembrando que em 2025 a produção média de diesel na refinaria Alberto Pasqualini (Refap, no RS) foi de 78 mil barris por dia, enquanto o consumo gaúcho foi em média de 71 mil barris diários. “Ou seja, a Refap produz mais do que o Rio Grande do Sul precisa. E é por isso que nunca houve ameaça de desabastecimento no estado”, afirma.
Para o diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Mahatma Ramos, a Petrobras tem sido um importante instrumento de política macroeconômica e mitigação dos impactos de aumento de preços decorrentes da guerra. “O reajuste aplicado pelas refinarias privadas é muito superior aos da Petrobras e as distribuidoras continuam com comportamento padrão oportunista, praticando preços na bomba abusivos, muito acima das taxas impostas pela guerra”, diz ele.
Ramos lembra que, mesmo com a brusca elevação de 44,4% do preço do brent em reais, no mês passado, a Petrobras realizou apenas um reajuste de 11,5% no preço do diesel em suas refinarias, enquanto a gasolina e o GLP mantiveram-se estáveis. Já as refinarias antes pertencentes à Petrobras, e privatizadas durante o governo Bolsonaro, acompanharam de perto as variações no Preço de Paridade de Importação (PPI), registrando reajustes consideráveis: no caso da gasolina, os aumentos chegaram a 60,9% na Refinaria de Mataripe (Acelen), 48,9% na Refinaria Clara Camarão (Brava) e 44% na Refinaria de Manaus (Ream). Para o diesel, as elevações foram de 85,6% na Acelen e 74,9% na Ream..
Segundo o diretor do Ineep, esse contexto também evidencia os efeitos da desverticalização da Petrobras, particularmente após a privatização da BR Distribuidora: “A saída da estatal do segmento de distribuição e revenda reduziu sua capacidade de coordenação ao longo da cadeia, limitando instrumentos de moderação de preços ao consumidor final”.
O economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-subseção FUP), Cloviomar Cararine, também destaca que os preços nas refinarias da Petrobrás estão abaixo do PPI divulgado pela ANP, em todos os combustíveis. Na semana de 05 a 11 de abril de 2026, última divulgação da ANP no Relatório “Síntese Semanal de Preços dos Combustíveis”, a gasolina na refinaria da Petrobrás estava 22% abaixo do PPI, o diesel em 14% e GLP em 6%.
“Estamos tratando de um setor estratégico, fundamental para a economia e para a população brasileira. A guerra tem mostrado que todos os países do mundo estão adotando estratégias para preservar a sociedade e não deixar o preço ‘livre’ do mercado influenciar e retirar acesso da população a esse bem estratégico”, ressalta Cararine.
O pesquisador do Dieese considera acertado o governo criar estratégias para proteger os preços internamente, como a proposta de usar receitas extras com petróleo (royalties e venda de óleo do pré-sal) para baixar preços dos combustíveis. “Isso tem acontecido em vários países. No nosso caso, como grande produtor de petróleo, temos mais opções de ação, além de ser um setor muito rentável. O custo de extração no Brasil é baixo, o preço do brent está subindo e a receita está aumentando muito”, diz ele.
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