27.9 C
Rio de Janeiro
quinta-feira, janeiro 21, 2021

Ingovernabilidade: quem paga é o PIB

O Governo Jair Bolsonaro está caindo no conto de Dilma e Collor. Os dois ex-presidentes sofreram o impeachment num passado não muito distante em um ambiente marcado pela economia em crise e falta de liderança. Fato: ninguém mais tinha credibilidade em Collor ou Dilma como governantes capazes de resolver o problema econômico brasileiro. Dúvida: alguém acredita na capacidade de Bolsonaro?

Em meio a uma pandemia, em que o mundo todo busca soluções para harmonizar a questão saúde com a questão econômica, o presidente esperneia querendo que suas vontades sejam atendidas e governa o país como um pai tirano governa a sua família. Há uma ditadura velada. Se a cloroquina não é o antídoto, que vire. Se você não concorda, pegue seus trapos e volte para a casa. A demissão do ministro da Saúde, Nelson Teich, nesta sexta-feira, era mais do que esperada. Sem expressão chegou, sem expressão se foi. Mas não se rendeu a ser um pau mandado como o presidente queria.

Esquece-se o presidente que sua opinião não é onipresente, onipotente. Que os ministros fazem parte do governo por terem conhecimento técnico cada um na sua área, ou, ao menos deveria ser assim. Um verdadeiro líder é aquele capaz de delegar a profissionais competentes e estimular que eles façam o melhor de forma a todos ganharem e não um concentrador de poder que pensa saber tudo? Onde está o diploma do presidente em Direito, Economia e Medicina? A princípio, nem em política tem o Mobral.

O PIB caminha para o desastre e não é só pela quarentena mantida. É claro que pesa na perda da atividade econômica a necessidade de resguardar a população e de fechar atividades não tidas como essenciais. Há perda de emprego, renda, consumo e investimento, mas a perda da esperança de que vamos sair desta é o pior de tudo. As pessoas são racionais e racionalmente traçam suas expectativas futuras e, assim, definem suas ações agora que espelharão na economia em breve, já dizia Robert Lucas.

Como traçar estimativas otimistas de retomada quando o próprio governo incentiva a revolta da população? Como buscar fazer com que a quarentena dê certo e se possa retomar a atividade econômica ao normal enquanto o próprio governo apregoa outras coisas e minimiza a pandemia? Como acreditar que a política de combate à Covid-19 está correta se a gente troca de ministro como quem troca de amante? E como acreditar num presidente que só aceita no cargo aqueles que baixam a cabeça e concordam com tudo o que diz?

Tal comportamento só tem uma consequência: o pessimismo exacerbado que levará à derrocada da economia maior do que deveria ser. A projeção oficial é de uma queda de 4,7% do PIB. Se confirmada este será o maior recuo do PIB já registrado pelo IBGE, que tem série histórica iniciada em 1901. Entretanto, a projeção do governo, como sempre, é otimista. Não surpreenderia se a perda ficar acima do que foi a soma do biênio 2015/2016 ao redor de 7,5% e já há aqueles que falam em dois dígitos. Os dados já divulgados demonstram que se caminha a este rumo. A economia brasileira registrou retração de 5,90% em março em relação a fevereiro, segundo o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), calculado pelo Bacen e que representa uma “prévia” do PIB.

Sem entrar em mérito de golpe ou não golpe, Collor e Dilma caíram pela absoluta incompetência em sua política econômica, perdendo o apoio da população, empresários e políticos. Bolsonaro ainda se agarra ao Centrão e a Guedes. O primeiro é o bastardo em quem não se confia. O segundo perde o protagonismo de ser contrariado a toda hora. Acusações e provas sérias contra o presidente há, tanto quanto ou mais graves contra os dois ex. Mas quem quer impeachment em meio a uma pandemia? Presidente não é fio dental que se tira quando incomoda. O problema é o preço a se pagar pelo despreparo do capitão e a economia já dá os sinais do que virá.

Ana Borges
Colunista.

Artigos Relacionados

Como fica a economia pós-vacina?

Demora no combate à pandemia já engoliu um percentual do PIB de 2021.

Quebrada ou não, economia exibe fissuras estruturais

Há verdades no discurso do presidente de que o ‘Brasil está quebrado, chefe’.

Tapa um santo, destapa outro

25% dos processos na PGFN no Superior Tribunal de Justiça tratam do PIS/Cofins.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas Notícias

Mercado reagirá ao Copom e problemas internos

Na Europa, Londres teve alta de 0,41%. Frankfurt teve elevação de 0,77%. Paris teve ganhos de 0,53%.

EUA: expectativa por novos estímulos fiscais traz bom humor

Futuros dos índices de NY estão subindo, mesmo após terem atingidos novos recordes históricos no fechamento do pregão anterior.

Ajustando as expectativas

Bovespa andou na quarta-feira na contramão dos principais mercados da Europa e também dos EUA.

Sudeste produz 87,5% dos cafés do Brasil em 2020

Com mais de 55 milhões de sacas a região é a principal responsável pela maior safra brasileira da história.

Exportação de cachaça para mercado europeu cresceu em 2020

Investimentos será de R$ 3,4 milhões em promoção; no Brasil, já cerveja deve ficar entre 10 e 15% mais cara em 2021.