Ingovernabilidade: quem paga é o PIB

Collor e Dilma caíram pela absoluta incompetência em sua política econômica.

O Governo Jair Bolsonaro está caindo no conto de Dilma e Collor. Os dois ex-presidentes sofreram o impeachment num passado não muito distante em um ambiente marcado pela economia em crise e falta de liderança. Fato: ninguém mais tinha credibilidade em Collor ou Dilma como governantes capazes de resolver o problema econômico brasileiro. Dúvida: alguém acredita na capacidade de Bolsonaro?

Em meio a uma pandemia, em que o mundo todo busca soluções para harmonizar a questão saúde com a questão econômica, o presidente esperneia querendo que suas vontades sejam atendidas e governa o país como um pai tirano governa a sua família. Há uma ditadura velada. Se a cloroquina não é o antídoto, que vire. Se você não concorda, pegue seus trapos e volte para a casa. A demissão do ministro da Saúde, Nelson Teich, nesta sexta-feira, era mais do que esperada. Sem expressão chegou, sem expressão se foi. Mas não se rendeu a ser um pau mandado como o presidente queria.

Esquece-se o presidente que sua opinião não é onipresente, onipotente. Que os ministros fazem parte do governo por terem conhecimento técnico cada um na sua área, ou, ao menos deveria ser assim. Um verdadeiro líder é aquele capaz de delegar a profissionais competentes e estimular que eles façam o melhor de forma a todos ganharem e não um concentrador de poder que pensa saber tudo? Onde está o diploma do presidente em Direito, Economia e Medicina? A princípio, nem em política tem o Mobral.

O PIB caminha para o desastre e não é só pela quarentena mantida. É claro que pesa na perda da atividade econômica a necessidade de resguardar a população e de fechar atividades não tidas como essenciais. Há perda de emprego, renda, consumo e investimento, mas a perda da esperança de que vamos sair desta é o pior de tudo. As pessoas são racionais e racionalmente traçam suas expectativas futuras e, assim, definem suas ações agora que espelharão na economia em breve, já dizia Robert Lucas.

Como traçar estimativas otimistas de retomada quando o próprio governo incentiva a revolta da população? Como buscar fazer com que a quarentena dê certo e se possa retomar a atividade econômica ao normal enquanto o próprio governo apregoa outras coisas e minimiza a pandemia? Como acreditar que a política de combate à Covid-19 está correta se a gente troca de ministro como quem troca de amante? E como acreditar num presidente que só aceita no cargo aqueles que baixam a cabeça e concordam com tudo o que diz?

Tal comportamento só tem uma consequência: o pessimismo exacerbado que levará à derrocada da economia maior do que deveria ser. A projeção oficial é de uma queda de 4,7% do PIB. Se confirmada este será o maior recuo do PIB já registrado pelo IBGE, que tem série histórica iniciada em 1901. Entretanto, a projeção do governo, como sempre, é otimista. Não surpreenderia se a perda ficar acima do que foi a soma do biênio 2015/2016 ao redor de 7,5% e já há aqueles que falam em dois dígitos. Os dados já divulgados demonstram que se caminha a este rumo. A economia brasileira registrou retração de 5,90% em março em relação a fevereiro, segundo o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), calculado pelo Bacen e que representa uma “prévia” do PIB.

Sem entrar em mérito de golpe ou não golpe, Collor e Dilma caíram pela absoluta incompetência em sua política econômica, perdendo o apoio da população, empresários e políticos. Bolsonaro ainda se agarra ao Centrão e a Guedes. O primeiro é o bastardo em quem não se confia. O segundo perde o protagonismo de ser contrariado a toda hora. Acusações e provas sérias contra o presidente há, tanto quanto ou mais graves contra os dois ex. Mas quem quer impeachment em meio a uma pandemia? Presidente não é fio dental que se tira quando incomoda. O problema é o preço a se pagar pelo despreparo do capitão e a economia já dá os sinais do que virá.

Ana Borges
Colunista.

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