Insaciáveis

Última forma de os governos manterem algum tipo de controle sobre empresas privadas, a ação de ouro (golden share na língua da matriz) está sendo bombardeada pela União Européia (UE), que, através da Comissão Européia, ameaça abrir processo contra o Governo da Espanha. A UE acusa o governo espanhol de usar a acción de oro (golden com sotaque local) nas empresas privatizadas para dificultar a livre ação do mercado. A comissão parece particularmente incomodada com o anúncio do Governo da Espanha de que vetará a fusão entre a Telefónica de España e a holandesa KPN, que originaria um forte monopólio do setor de telecomunicações.
O presidente do Governo da Espanha,  o conservador José María Aznar, reagiu cobrando da UE a garantia de condições que permitam a competição em todos os países da união, em vez de “perseguir estados membros”.
Ilusões
A ação da comissão contra a Espanha não é um ato isolado. Ela visa a balizar o uso da ação de ouro, vigente, como frisou Aznar, em quase a metade dos países da comunidade européia, incluindo Itália e França.
A investida contra o governo espanhol também tem efeito didático, servindo para desfazer ilusões tupininquins sobre a suposta democratização que seria trazida pelas privatizações, que ainda permitiria vantagens adicionais como a de permitir que os governo continuassem a influir nos destinos da ex-estatais e usufruissem de seus benefícios. Embora já fosse, no mínimo, estranho convencer alguém com direito a 100% de uma empresa lucrativa a se conformar com percentuais bem inferiores, pelo visto, nem isso a ação livre do mercado quer permitir.

Carestia
Numa inusitada demonstração de oferta e procura católica, mandar rezar uma missa de Sétimo Dia na Igreja do Carmo, Centro do Rio, custa R$ 90. A poucos minutos de barca dali, na Catedral de São João, Centro de Niterói, o mesmo ato religioso sai por R$ 7,20.

Univitelinos
A eleição de Vicente Fox, do Partido da Ação Nacional (PAN), para a presidência do México é uma daquelas vitórias em que o eleitorado compra lebre e recebe gato. A exemplo de Fernando De la Rúa na Argentina, Fox galvanizou o sentimento de mudança do eleitorado contra as políticas neoliberais do PRI no poder para, sob nova roupagem, dar continuidade e, em não raros casos, aprofundá-las. O objetivo é controlar a troca de guarda nos palácios para que, no essencial, nada mude, além de permitir uma oxigenação que minimize o inevitável desgaste trazido pelos que aplicam o receituário do FMI. Em outras palavras, a utopia é institucionalizar o atual modelo econômico e sinalizar para o mercado eleitoral que não existiriam alternativas ao neoliberalismo.
Xerox
A pequena mostra dos seis meses de De la Rúa na Argentina e o que vem por aí com Fox também deve servir de advertência contra as ilusões neoliberais de setores da oposição brasileira, que sonham em uma aliança com Ciro Gomes, o Fox/la Rúa local.

Barbada
Não deu nem para saída. Quem apostou no mercado futuro que o ex-senador Luiz Estevão deixaria a cadeia antes de Salvatore Cacciola não esperou nem 24 horas para ver realizado seu prognóstico.

Às ordens
O acordo militar entre Brasil e Estados Unidos, denunciando no Governo Geisel, está sendo reativado. Em 2 de junho passado, o Brasil se tornou o 87º a país a firmar o protocolo 505, pelo qual os EUA se comprometem a doar material bélico sucateado. Em contrapartida, passam a ter direito a inspeções regulares aos quartéis do país. Por pressões de militares brasileiros, as inspeções serão feitas em datas pré-agendadas com as forças armadas brasileiras. Para o acordo entrar em vigor, depende apenas da aprovação do Congresso Nacional, o que, pelos antecedentes das relações do Legislativo com o Executivo, significa mera formalidade.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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