Inteligência Artificial: uma revolução nos conflitos humanos

Por Vladimir de Paula Brito.

Opinião / 17:49 - 20 de mar de 2020

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Tendo observado nos dois artigos anteriores a relevância de IA na corrida estratégica entre as potências, bem como o grande investimento em curso para obter a primazia na pesquisa do tema, a seguir serão analisados os enormes impactos dessa nova tecnologia no campo militar e geopolítico.

Primeiramente cabe constatar que o emprego de máquinas e processos dotados de IA na área de defesa darão imensos retornos às nações que detiverem estes recursos. Ou seja, a primeira força militar que obtiver ganhos expressivos em inteligência artificial pode obter uma vantagem disruptiva sobre seus competidores, alterando completamente o tabuleiro do jogo. Dentre essas oportunidades ou ameaças militares trazidas por IA (2019) destacam-se as seguintes questões:

 

Quem empregar IA de maneira abrangente

diminuirá fosso para as grandes potências

 

Erosão das vantagens militares das atuais potências. Como os novos equipamentos “inteligentes” terão muito mais capacidade de reação do que os controlados por humanos, sua superioridade será ruptural em relação ao que existe atualmente. Ao mesmo tempo, eliminando a preocupação com a condução e presença humana, veículos poderão ser otimizados ao limite para o seu propósito, sistemas de mísseis ganharão rapidez de resposta sem precedentes, submarinos permanecerão debaixo d’água quase indefinidamente.

Nesse sentido, aqueles atores que conseguirem empregar IA de maneira abrangente diminuirão, ou até eliminarão, parte do fosso que separa as grandes potências das demais, ou mesmo alterarão a posição de poder das grandes potências.

Um submarino nuclear, por exemplo, que apresenta como vantagem a capacidade de fornecer oxigênio indefinidamente para sua tripulação, permanecendo mais tempo submerso que um convencional, poderia ser substituído por um veículo autônomo que fosse apoiado com um sistema de abastecimento submarino. Propiciar-se-ia, assim, uma permanência maior que as atuais embarcações nucleares, vez que não possuiriam tripulação para ser alimentada. Provavelmente seria mais barato, o que permitiria o emprego de um número maior de unidades, aumentando a abrangência do perímetro defendido. Não tendo tripulações, seriam sacrificáveis, de acordo com a relevância da missão.

 

Estabilidade nuclear em risco. Os sistemas que concatenam o gerenciamento de mísseis estratégicos, táticos e forças de submarinos nucleares, bem como sistemas de defesa aérea operando sob a orquestração de IA, adquirirão rapidez e efetividade infinitas vezes maior que a atual. Com isso, um sistema com IA poderia em tese atacar sub-repticiamente e se defender do contra-ataque quase completamente, e ao mesmo tempo. A primeira nação que conseguir implementar IA desta maneira romperá o atual equilíbrio nuclear, colocando em cheque a capacidade de dissuasão das demais.

 

Difusão ampla de IA militar. Caso os equipamentos e algoritmos de IA saiam do controle de poucos Estados e comecem a ser adquiridos por insurgências nacionais, sejam essas forças guerrilheiras, movimentos extremistas ou grupos terroristas, as ameaças difusas enfrentadas pelos governos aumentarão exponencialmente. Por outro lado, conforme experiências tecnológicas recentemente descobertas vêm demonstrando, a nação produtora do equipamento de IA poderá manter um controle clandestino sobre este, retomando seu controle pleno em caso de necessidade. Em certo sentido, os países compradores de tecnologia alheia poderiam estar adquirindo, na verdade, tropas coloniais.

 

Erosão da privacidade. O uso de IA potencializará em níveis quase inacreditáveis a análise de dados coletados legal ou ilegalmente nas redes digitais. Utilizados em conjunto com big data, os algoritmos de IA poderão não somente descobrir segredos, como também antever ações. E, como se sabe, a capacidade de prever vem acompanhada da capacidade de influenciar, sejam comportamentos individuais ou de toda sociedade, o que nos leva à potencialização das operações de informação e influência. Como consequência haveria de maneira cada vez mais constante a realização de campanhas de desinformação, o que por sua vez ameaçaria diretamente a democracia.

 

Ataques cibernéticos acelerados. Os diversos tipos de armas digitais terão sua eficiência enormemente aumentada, já que sistemas computacionais inteligentes vasculharão a rede à procura de fragilidades que possam ser identificadas, exploradas e posteriormente utilizadas. Uma vez que independerão do raciocínio humano, um processo de exploração de vulnerabilidades de uma rede, que levava meses sob a égide do tirocínio humano, sob o marco dos algoritmos em trabalho incessante ocorrerá em dias, ou mesmo em horas.

 

Para além dos elementos de avanço técnico acima tratados, a ampla introdução de IA nas relações militares provocará uma grande mudança de paradigma que pode provocar de fato uma verdadeira revolução nos assuntos militares: a alteração da velocidade com que os eventos ocorrem no decorrer do conflito acelerará exponencialmente. Muito provavelmente para além da capacidade humana, cuja cognição e tempo de raciocínio simplesmente não acompanharão a velocidade com que milhares de ações serão patrocinadas pela IA, agindo e reagindo concomitantemente.

Diversas potências mundiais vêm se debruçando com afinco sobre o tema da mudança de velocidade, tendo em vista que suas consequências poderão revolucionar completamente os conflitos militares modernos. Nos Estados Unidos, um primeiro conceito derivado da necessidade urgente de compreensão desse novo fenômeno foi batizado como “hiperguerra”, ou “hyperwar”.

Originado em 2017, seus proponentes alegam que o ciclo OODA – Observe, Oriente, Decida, Atue – vem caracterizando a história militar da humanidade até a atualidade. Nesse referido ciclo, um comandante, por exemplo, observa seus adversários e seu entorno, se orienta sob o contexto em que está, decide por um caminho dentre vários possíveis e finalmente atua.

Ao fazê-lo, muda por sua vez o ambiente em que seu adversário também atua, sendo necessário reiniciar o ciclo mais uma vez, seguindo assim perpetuamente até o final da conflagração. Com o advento da IA, robôs, drones, sistemas de mísseis, todos articulados entre si por um sistema de sistemas, tomarão decisões táticas e estratégicas quase instantâneas. A cada mudança própria ou do adversário em relação ao posicionamento geográfico, de efetivos, meios logísticos ou padrões de eficiência, todos os atores são rearticulados automaticamente, levando em conta as melhores ações possíveis naquele contexto.

Vale observar que esses sistemas de inteligência terão à sua disposição toda a história dos conflitos desde os primórdios da humanidade. Assim, um tanque autônomo, como o tipo 59 chinês, por exemplo, terá em seu repositório de dados as milhares de pequenas ações das divisões panzer alemãs, ou da macroestratégia soviética na Batalha de Kursk na Segunda Guerra.

Igualmente terá em seus registros as ações das brigadas israelenses contra sírios e egípcios na Guerra do Yom Kippur, ou os avanços da 7ª brigada de blindados inglesa rumo à cidade de Baçorá no Iraque em 2003, ou mesmo o emprego de tanques na segunda batalha pela cidade de Faluja.

Tais movimentos contarão com o apoio de múltiplas formações de infantaria de robôs de combate, cuja IA operará como especialista em apoio a blindados, mas podendo também ser convertida abruptamente em unidade de apoio a operações aéreas. Tais unidades terrestres se articulariam, caso necessário, com um enxame de drones aéreos, empregando variadas formações que, operando como um conjunto, possuirão em seus sistemas todas as ocorrências disponíveis das ações de combate nos céus desde sempre.

Ao mesmo tempo em que combatem de forma autônoma, poderão interagir e serem direcionados por aviões de caça não tripulados, semi-independentes, monitorados por um operador humano em outra aeronave de combate. Sistemas de mísseis independentes ou semi-independentes serão acionados a distância para apoio tático, ou mesmo para provocar distrações no interior do território adversário ou de suas frotas no litoral.

Forças navais podem ser acionadas para prestar apoio ao conflito, ou até mesmo para efetuar intervenções contundentes mediante o emprego de armamento nuclear a partir de drones submarinos, como o Poseidon russo. Igualmente serão acionadas para combater os submarinos adversários.

Para além da revolução tática que essas máquinas autônomas representam, com sua memória privilegiada trazendo a quase totalidade das experiências militares humanas, é em sua integração que se observará um grande salto de qualidade na arte de fazer a guerra. Na dimensão de comando e controle todas essas facetas serão integradas e articuladas. Sistemas de IA para gestão tática e estratégica de conflitos empregarão algoritmos que não somente usam os processos humanos, como também aprendem sozinhos, criando alternativas nunca sequer imaginadas anteriormente.

Tal qual já acontece nos tabuleiros de xadrez, shogi e go utilizando os algorítimos de IA, os sistemas de combate potencializarão táticas inéditas e em uma velocidade alucinante, em que mudanças são efetuadas e implementadas em rede em milésimos de segundo. Como vantagem adicional, agrega ao comando militar a ausência de preocupação com as vidas de suas próprias forças. Planos nunca empregados pelo elevado número de baixas passarão a ter uso comum, aumentando infinitamente a paleta de possibilidades.

Tudo isso a partir de um processo de escolhas de alvos determinados pelas máquinas com IA. Não sem conflitos e questionamentos éticos, vale observar que esse processo não é uma abstração futura, pelo contrário, já foi desencadeado e se encontra em franca evolução na atualidade, a exemplo do Projeto Maven entre o DoD e Google.

Embora exista o receio de as máquinas não responderem adequadamente ao exponencial conjunto de variáveis envolvidas em um combate, o seu emprego por um rival lhe fornecerá vantagens enormes no campo de batalha. Ou seja, todas as potências se verão forçadas a adotar o mesmo modelo sob o risco de ficarem obsoletas se não o fizerem.

Então, a hiperguerra – entendida como o conflito militar na velocidade da luz, para além da capacidade humana – dará origem a outro conflito na retaguarda, que será a guerra algorítmica. Nessa acepção, Estados colocarão algoritmos contra algoritmos em uma corrida em que os ganhos de velocidade e precisão se sobreporão ao tamanho dos exércitos ou variedade de armamentos disponíveis. A primazia nas disputas militares será dada às forças com o algoritmo mais otimizado, com amplas massas de dados disponíveis, elevada conectividade e capacidade computacional superior.

Por conseguinte, a guerra algorítmica envolverá a constante busca pelo programa superior ao do adversário, na tentativa de obter vantagens muitas vezes de milésimos de segundos no processo de tomada de decisão, mas que podem ser decisivas no campo de batalha. Em certo sentido, as universidades, centros de pesquisas e empresas tecnológicas serão extensões das próprias Forças Armadas.

De maneira análoga aos seus pares norte-americanos, os militares chineses vêm desenvolvendo nas últimas décadas doutrinas que integrem de maneira intensiva o uso das novas tecnologias nas esferas operacionais, táticas e estratégicas de suas Forças Armadas.

Conforme abordado, imediatamente após a primeira guerra do golfo e a percepção da ampla superioridade dos EUA no conflito, as forças chinesas chegaram à conclusão de que deveriam se “informatizar” rapidamente. Ou seja, fazer uso intensivo da tecnologia da informação e da informação para aprimorar o emprego de armas, bem como a atuação das tropas.

Com o avanço desse processo e a evolução dos algoritmos analíticos disponíveis, chegou-se ao conceito de “inteligentização”. Sob esse novo prisma se agregaria o valor de uma camada analítica balizada por IA, por sobre a imensa gama de informações operacionais geradas pelos diversos equipamentos tecnológicos empregados. O próximo passo seria da informatização para inteligentização e da inteligentização para singularidade. Por singularidade se entenderia a autonomia no processo decisório, em que pela primeira vez na história uma inteligência não humana assumiria a condução do campo de batalha, transformando o homem em um simples observador privilegiado, ou mera peça auxiliar.

Tendo em vista todo esse novo panorama, no próximo e último artigo serão analisadas as profundas mudanças previstas nas Forças Armadas das grandes potências. De igual modo, e como objetivo maior destas análises, se tentará pontuar os impactos sobre a política e estratégia de defesa do Brasil, bem como aspectos a serem pensados sobre a estruturação das Forças Armadas e o esforço tecnológico nacional.

Vladimir de Paula Brito

Doutor em Ciência da Informação, é agente da Polícia Federal.

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