Investimento em ativos alternativos e ilíquidos

Nesta entrevista, Cristian Lara explica o perfil de investidor que investe nesse tipo de ativo e os cuidados necessários.

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Conversamos com Cristian Lara, CEO da Strategi Capital, sobre investimentos alternativos e ilíquidos.

Quais são os investimentos com os quais a Strategi Capital trabalha?

Nós trabalhamos com investimentos alternativos e ilíquidos dentro do escopo de crédito, com foco em créditos high yield estruturado, situações especiais e operações distressed, que são as operações onde fazemos investimento em empresas que estão passando por algum problema ou reestruturação, seja ela judicial ou pontual, onde a empresa está buscando se reestruturar sem a necessidade de recuperação judicial.

Esses não são ativos que são negociados no mercado secundário, como uma ação ou uma debênture. Como as operações de high yield que fazemos são para um perfil de empresa mais desconhecido, e não para empresas listadas na Bolsa, não há um mercado secundário amplo. É por isso que nós utilizamos a expressão “ilíquido”. Com relação à expressão “alternativo”, isso é porque investimos em precatórios, ações judiciais ou ativos de empresas que estão em recuperação judicial. Ou seja, esse não é um tipo de investimento tradicional.

Como vocês escolhem esses ativos?

Um dos grandes diferenciais da empresa é a originação proprietária de fato. Basicamente, nós prospectamos e analisamos todos os nossos investimentos, fazendo a estruturação de forma a nos proteger de cenários adversos e, de alguma forma, surfar um upside interessante para a classe de ativo.

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Na prática, dificilmente nós entramos em alguma operação pronta que seja  apresentada por um banco. Nós sempre vamos olhar por uma ótica de como botar a operação de pé e amarrarmos todos os riscos inerentes à transação que está sendo avaliada. Para isso, nós utilizamos muito os nossos canais de networking para encontrarmos oportunidades únicas de mercado.

Quando vale a pena ou não investir em um desses ativos?

Essa pergunta é um pouco peculiar. Tem muita coisa que olhamos e não investimos de jeito nenhum. No segmento de distressed, principalmente, tem coisas que até de graça não vale a pena, pois o trabalho de recuperação e os riscos inerentes são muito altos. Não há uma receita de bolo, mas eu posso dizer que temos um nível de refugo muito elevado. Por exemplo, de cada 10 operações que avaliamos, duas ou três seguem para uma análise um pouco mais fina, sendo que no máximo uma recebe o nosso investimento.

Como esse tipo de investimento envolve muito trabalho financeiro e jurídico, já que são operações com alto grau de complexidade, seja de avaliação de garantia, seja de potenciais problemas envolvendo o Judiciário brasileiro, nós temos que ter cautela. É por isso que muitas operações não passam no nosso crivo. Pode parecer engraçado, mas por mais que trabalhemos com problemas, o nosso trabalho é justamente fugir deles.

Quais são os veículos que vocês utilizam para captar e investir nesses ativos?

O principal veículo que utilizamos são os FIDCs (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), sendo que a gestão possui dois tipos de estrutura: a discricionária e a não discricionária. Os fundos discricionários são fechados, captam dinheiro de longo prazo e, geralmente, possuem prazos mínimos de seis anos, podendo haver extensões. Já nos fundos não discricionários, os investidores colocam dinheiro para comprar uma oportunidade. Como alguns desses investidores possuem capacidade de análise, esse dinheiro é carimbado para uma determinada situação. É por isso que nós chamamos esses fundos de não discricionários, pois esse é um investidor mais qualificado que valida a tese de investimento junto com a gente.

Qual o perfil de investidor que investe nesse tipo de ativo?

Nós trabalhamos com single e multi family offices e assets independentes. Basicamente, esses são investidores profissionais e muito sofisticados, que conseguem abrir mão de liquidez para terem retornos mais altos. Esse é um tipo de investidor que possui capacidade para analisar esse tipo de situação.

Quais são os cuidados que um investidor deve tomar ao investir nesse tipo de ativo?

Por conta do crescimento do mercado de crédito e do número de recuperações judiciais, novas gestoras, que não tinham esse tipo de negócio, estão abrindo novas verticais. Além disso, é salutar ter uma gestora e investir através de uma carteira, com pessoas que entendam, de fato, esse tipo de investimento, já que esse não é um produto para se investir sozinho. Outra questão é que como esse é um ativo de risco e de longo prazo, é preciso ter muito cuidado com a quantidade de capital que é disponibilizado para esse investimento.

Como esse tipo de investimento pode compor a carteira de um investidor?

Eu brinco que crédito no Brasil deveria ter mais cara de investimento alternativo do que investimento de renda fixa, principalmente os produtos que a Strategi Capital oferece. Não existe uma regra de bolo, mas nas concepções de carteira de wealth management, entre 5% e 15% dos portfólios dos clientes poderiam ficar expostos a esse tipo de investimento, mas isso varia muito da capacidade do investidor em entrar em ativos mais ilíquidos.

Comparando com os Estados Unidos, como está esse mercado no Brasil?

O mercado brasileiro está crescendo de forma relevante, mas ainda existe um trabalho para aculturar os investidores a essa classe de ativo. Além disso, é preciso que haja um amadurecimento por parte do Judiciário com relação às decisões que são feitas em ambientes de recuperação judicial. Havendo esse amadurecimento, esse mercado tende a crescer muito. Obviamente, a política de juros altos acaba sendo um freio para essa indústria, já que o investidor acaba priorizando investimentos de curto prazo.

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1 COMENTÁRIO

  1. Este artigo traz uma visão aprofundada sobre os investimentos em ativos alternativos e ilíquidos, com insights valiosos do CEO da Strategi Capital, Cristian Lara. O enfoque em ativos de crédito, como os investimentos em precatórios e empresas em recuperação judicial, reflete a complexidade e o alto risco desse tipo de investimento. É interessante notar a ênfase na necessidade de uma análise rigorosa e na originação proprietária, destacando que a maioria das oportunidades não é simplesmente adquirida de bancos, mas sim cuidadosamente estruturada e analisada pela equipe.

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