Investimento estrangeiro direto recua 20 anos no Brasil

Os fluxos de investimento estrangeiro direto (IED), devido a crise da Covid-19, despencaram globalmente em 35% em 2020, ao passarem de US$ 1,5 trilhão no ano anterior para US$ 1 trilhão, diz o relatório. A queda foi fortemente direcionada para as economias desenvolvidas. Eles devem chegar ao fundo do poço em 2021 e recuperar algum terreno perdido com um aumento de 10% a 15%, de acordo com o World Investment Report 2021 da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) publicado nesta segunda-feira.

Como consequência, a economia brasileira – que em 2019 era a sexta no ranking da ONU de atração de investimentos no mundo, anúncio que chegou a ser comemorado pelo presidente Jair Bolsonaro em suas redes sociais – terminou o ano de 2020 apenas como o 11º maior beneficiário e perdeu até mesmo a liderança na América Latina.

Retorno de 20 anos

Os novos níveis de investimentos no país são equivalentes apenas ao que se registrou há 20 anos. Em 2012, o Brasil chegou a ser colocado pela Unctad como o terceiro país mais citado por multinacionais como destino preferido de investimentos. A partir de 2010, a economia nacional variou entre a quarta e quinta maior receptora de investimentos do mundo, situação que começou a mudar em 2019 e agora se aprofundou num colapso ainda maior.

Para 2021 e 2022, a projeção da ONU é de que a incerteza política e a crise sanitária podem perpetuar um baixo nível de investimentos no país. As estimativas avaliam que o atual ano pode registrar uma variação entre -5% e +5% no fluxo ao país. De acordo com os dados da Unctad, o Brasil recebeu US$ 24,8 bilhões em investimentos diretos em 2020, contra US$ 65 bilhões um ano antes, uma queda de 62%. Com o resultado, o país perdeu espaço entre os principais destinos, foi superado por Suécia, Alemanha, Índia e Luxemburgo e, na América Latina, foi ultrapassado pelo México.

Se a contração esteve relacionada com a queda da economia mundial em 2020 por conta da Covid-19, os números globais revelam que nem todos os países sofreram uma retração da mesma proporção do Brasil. Na média mundial, a queda foi de 35% e atingindo um total de US$ 1 trilhão. Nos países ricos, a contração chegou a 58%. Mas, ainda assim, abaixo do desabamento registrado no Brasil.

Influência negativa

O país também destoou da média dos emergentes, que viram uma retração de apenas 8% nos investimentos. A Ásia, que primeiro se recuperou da Covid-19, chegou a registrar uma alta de 4% no fluxo e hoje representa 50% de todo o destino de investimentos. Para 2021, a previsão do informe é de que haverá uma leve recuperação no fluxo global, entre 10 e 15%. O ranking é liderado pelos EUA, seguido por China, Hong Kong, Cingapura e Índia. Tanto Pequim como Nova Déli registraram uma alta no fluxo de investimentos nesse período.

O desempenho do Brasil influenciou o resto do continente latino-americano. A região registrou uma contração de 45% no fluxo de investimentos, somando US$ 88 bilhões. O declínio foi o mais acentuado entre as regiões em desenvolvimento. “O continente sofreu a maior taxa de mortalidade Covid-19 do mundo até hoje, e suas economias enfrentaram um colapso na demanda de exportação, uma queda nos preços das commodities e o desaparecimento do turismo”, ressalta o documento, ao admitir que para os exportadores de minerais e metais, a queda foi parcialmente amortecida pela recuperação relativamente rápida dos preços das commodities durante o segundo semestre do ano.

Segundo a Unctad, a região ainda foi afetada por um desinvestimento no exterior, com um resultado negativo de US$ 3,5 bilhões. Com problemas de caixa, empresas brasileiras repatriaram recursos de suas subsidiárias no exterior. “O colapso foi causado principalmente pelas saídas em grande parte negativas de empresas brasileiras (- US$ 26 bilhões), que continuaram a buscar fundos através de suas subsidiárias no exterior”, ressalta.

No total, multinacionais latino-americanas repatriaram US$ 50 bilhões neste período. O resultado foi parcialmente compensado pelas empresas chilenas, que aumentaram as saídas de capital em 25% para US$ 12 bilhões. As empresas mexicanas também aumentaram os investimentos no exterior. “De modo geral, o Chile, a Colômbia e o México geraram quase todos os investimentos externos da América Latina”, constata.

Fluxo financeiro

A queda global ,foi fortemente direcionada para as economias desenvolvidas, onde o IDE caiu 58%, em parte devido à reestruturação corporativa e aos fluxos financeiros intra-firmas. O IED nas economias em desenvolvimento foi relativamente resiliente, diminuindo 8%, principalmente devido aos fluxos robustos na Ásia. Como resultado, as economias em desenvolvimento responderam por dois terços do IED global, ante pouco menos da metade em 2019.

Segundo o estudo da Unctad, os padrões de IED contrastaram fortemente com os da nova atividade de projeto, onde os países em desenvolvimento estão arcando com o impacto da retração do investimento. Nos países em desenvolvimento, o número de projetos greenfield recém-anunciados caiu 42% e os negócios internacionais de financiamento de projetos – importantes para infraestrutura – 14%.

“Esses tipos de investimento são cruciais para o desenvolvimento da capacidade produtiva e da infraestrutura e, portanto, para as perspectivas de recuperação sustentável”, disse a secretária-geral em exercício da Unctad, Isabelle Durant.

A Covid-19 também causou um colapso nos fluxos de investimento para setores relevantes para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nos países em desenvolvimento. Todos os setores de investimento de ODS, exceto um, registraram um declínio de dois dígitos em relação aos níveis pré-Covid-19. O choque exacerbou o declínio em setores que já eram fracos antes da pandemia – como energia, alimentos e agricultura e saúde.

Incertezas

As tendências de IED em 2020 variaram significativamente por região. Nas regiões em desenvolvimento e nas economias em transição, eles foram relativamente mais afetados pelo impacto da pandemia sobre o investimento em atividades baseadas em recursos e intensivas na cadeia de valor global. As assimetrias no espaço fiscal para a implementação de medidas de apoio econômico também geraram diferenças regionais.

Os fluxos de IED para a Europa diminuíram 80%, enquanto os para a América do Norte caíram menos acentuadamente (-40%). A queda nos fluxos de IED nas regiões em desenvolvimento foi desigual, com 45% na América Latina e no Caribe e 16% na África. Em contraste, os fluxos para a Ásia aumentaram 4%, sendo o Leste Asiático a maior região anfitriã, respondendo por metade do IED global em 2020. O IED para economias em transição diminuiu 58%.

Olhando para o futuro, os fluxos globais de IED devem chegar ao fundo do poço em 2021 e recuperar algum terreno perdido com um aumento de 10% a 15%. “Isso ainda deixaria o IED cerca de 25% abaixo do nível de 2019. As previsões atuais mostram um novo aumento em 2022 que, no limite superior das projeções, traz o IDE de volta ao nível de 2019 ”, disse o diretor de investimentos e empresas da Unctad, James Zhan.

As perspectivas são altamente incertas e dependerão, entre outros fatores, do ritmo da recuperação econômica e da possibilidade de recaídas pandêmicas, do impacto potencial dos pacotes de gastos de recuperação sobre o IED e das pressões políticas.

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