Conversamos sobre investimentos no exterior com Ian Caó, diretor de investimentos da Gama Investimentos.
O que faz a Gama Investimentos?
A Gama possui mandatos de grandes gestores internacionais para fazer a gestão local dos seus produtos no Brasil. Por exemplo, a Oaktree tem um fundo lá fora, que se chama Oaktree Global Credit, e quer distribuí-lo por aqui. Ela contrata a HMC Capital, sócia da Gama, para fazer a distribuição, ou seja, para vender o produto; só que para que esses investidores possam investir no fundo da Oaktree é preciso ter um fundo no Brasil. A Gama faz a gestão desse fundo com uma estrutura chamada feeder fund.
O dinheiro do investidor entra nesse fundo e nós mandamos o dinheiro para o fundo lá fora. Os nossos fundos replicam em 100% as estratégias dos gestores internacionais, sendo que hoje temos mais de 40 estratégias. A decisão de investir em um determinado produto é do investidor, seja ele um bilionário, um family office, um private banking, um assessor de investimento ou um investidor individual.
Nós sempre estamos trazendo novas estratégias e gestores que são referências nos seus campos de atuação. Em breve, vamos lançar um fundo de CLO (Collateralized Loan Obligation) de uma gestora londrina chamada Pearl Diver e um fundo de private equity da KKR (Kohlberg Kravis Roberts). Devemos também trazer um fundo de venture capital que é uma mosca azul no universo, pois está fechado há mais de 20 anos, sendo que nós conseguimos um espaço para distribuí-lo.
Como escolher um investimento no exterior?
Normalmente, nós evitamos pensar na construção de portfólios fazendo projeções econômicas. Para montar um portfólio, é preciso achar os grandes gestores, os caras que têm track record e capacidade de geração de alfa de longo prazo, ajustar seu apetite a risco ao risco de suas estratégias e fazer a carteira mais diversificada possível.
São poucas as pessoas no mundo que conseguem acertar com consistência e que sejam capazes de gerar efetivamente alfa fazendo esse tipo de projeção. Se você acertar, ainda tem o desvio de entender quanto está precificado no mercado em relação a esse acerto e como o mercado vai se comportar se você acertar ou não. Esquece. Você não vai ganhar dinheiro fazendo isso.
Você precisa pensar onde estão as estratégias que geram um retorno dado um risco de longo prazo e que tenham uma correlação que complemente o seu portfólio. Assim, se aloca um pouco nos Estados Unidos, na Europa e na China. Às vezes, as pessoas ficam focadas 100% em uma tese e acabam não produzindo um portfólio mais eficiente.
Por conta do privilégio que temos em participar do ambiente dos analistas mais sofisticados do mundo, nós sempre estamos vendo o que eles estão falando com relação aos seus portfólios. Se você me perguntar sobre a performance relativa da Europa, potencialmente melhor que a dos Estados Unidos por conta da fase do ciclo que eles estão e por conta da sobreperformance absurda que os Estados Unidos tiveram em relação à Europa nos últimos 10 anos, eu posso dar insights, mas é importante separar isso da importância de se fazer um portfólio diversificado com investimentos nos Estados Unidos, Europa e China.
Isso é uma coisa fundamental e secular que independe da sua visão de curto prazo em relação a oportunidades específicas. Isso pode parecer confuso, mas por mais que eu tenha os insights, não é isso que deve definir a montagem de um portfólio.
O fundo de crédito global da Oaktree tem 600 ativos de 600 emissores superpulverizados. Quando um investidor nos diz que quer comprar um bond de uma empresa porque entende dela, nós sempre lhe dizemos para ter cuidado. Em crédito, você não tem assimetria positiva. O máximo que você ganha é o que está lá, mas quantas vezes nós vimos empresas inquebráveis, que muitas pessoas têm a convicção de que são à prova de bala, e que eventualmente aparece alguma coisa? O fundo da Oak tem 600 ativos porque eles têm 200 analistas. Um investidor individual não consegue ter essa capacidade de análise.
Nós realmente acreditamos que é melhor terceirizar a tomada de decisão de alocação, parte da curva, setor e ativo para gestores que fazem isso há 50 anos e que têm track record comprovado em geração de alfa.
Quando uma gestora brasileira bate na porta desses fundos, eles são receptivos?
Nós tivemos uma head start importante que foi o fato de a HMC já trabalhar com alguns desses gestores há mais de 10 anos, mas restrita aos ultra high e aos family office. A construção dessa relação foi dinâmica, mas você tem razão. Algumas dessas casas têm características muito particulares. Por exemplo, nós ficamos cinco dias fazendo uma imersão na Brigdewater. Eles são muito severos em relação ao que pode ou não ser feito.
De forma geral, uma coisa interessante é que esses gestores sempre têm o olhar multinações. Quando você para para pensar, nada no Brasil será relevante para eles. A Bridgewater tem US$ 160 bilhões sob gestão; a Oaktree, US$ 140 bilhões; e a Man, US$ 130 bilhões. Mesmo que tenhamos muito sucesso, não seremos um cliente muito relevante, mas como eles pensam em como serão as coisas daqui a 20 anos, eles avaliam a diversificação da base de funding.
É óbvio que trabalhar com a Bridgewater, Man e Oaktree faz com que sejamos recebidos. Esse é um cartão de visita muito importante para termos esse tipo de relação, pois essa turma é muito sofisticada e exigente com relação às questões operacionais.

















