Dados da pesquisa Genial/Quaest indicam que 30% dos brasileiros sentiram o impacto direto da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, muitas vezes porque o valor acaba absorvido pela inflação ou por dívidas acumuladas.
Segundo Rodrigo Barreto, professor de Administração da Fundação Educacional Inaciana (FEI), a medida aumenta a renda líquida de trabalhadores de classe média e média-baixa ao reduzir o imposto retido na fonte. Na prática, isso pode significar um ganho extra de dezenas ou centenas de reais todos os meses.
Embora o benefício seja real, a percepção no orçamento das famílias ainda é moderada.
De acordo com ele, economicamente, a medida tem potencial para girar a roda da economia. Isso ocorre porque as famílias de menor renda tendem a gastar quase todo valor extra que recebem, a chamada Propensão Marginal a Consumir (PMgc), um indicador que mede o quanto de cada real adicional de renda o brasileiro destina às compras. No Brasil, esse índice é superior a 0,76, o que significa que, para cada R$ 1 extra recebido, pelo menos R$ 0,76 voltam para a economia na forma de consumo, especialmente entre as famílias de menor renda.
Para Barreto, o efeito é mais visível em setores essenciais: “Com um pouco mais de folga no orçamento, o brasileiro tende a priorizar o consumo imediato em áreas como alimentação, cuidados pessoais e serviços do dia a dia. No entanto, o alto endividamento das famílias ainda é uma barreira: muitas vezes, esse ganho extra não vai para uma compra nova, mas para o pagamento de contas atrasadas.”
Os maiores beneficiados são os trabalhadores formais com rendimentos próximos aos R$ 5 mil. Já quem possui renda informal ou recebe acima de R$ 7.350 mensais dificilmente perceberá mudanças significativas em seu holerite. Pelo lado do governo, o desafio é equilibrar as contas, já que a renúncia fiscal é estimada em R$ 27 bilhões por ano. A sustentabilidade dessa política dependerá de uma compensação eficiente, como a tributação de rendas mais altas, para garantir que o estímulo à economia não gera inflação.
Isenção deve adicionar 0,3 p.p. ao PIB em 2026 e pressionar serviços
A medida funciona como um “desconto” que zera o imposto devido para rendas brutas mensais até R$ 5 mil (teto da isenção) e, acima disso, cria uma faixa de transição em que o desconto reduz linearmente até se extinguir em R$ 7.350 (fim do benefício).
A partir dos dados da Receita Federal, estimamos que a medida gere 17 milhões de beneficiários, sendo 11 milhões totalmente isentos e 6 milhões na transição, com renúncia fiscal total em torno de R$ 30 bilhões/ano. O ganho mensal máximo ocorre justamente no teto da isenção: um contribuinte com renda bruta de R$ 5 mil deixa de pagar R$ 312,89 por mês, o que equivale a aproximadamente R$ 3,75 mil/ano.
A contrapartida fiscal da medida é a incidência de uma alíquota mínima para quem recebe acima de R$ 600 mil por ano, podendo chegar a 10% para rendas acima de R$ 1,2 milhão. Por se tratar de um grupo de alta renda, o aumento de tributação tende a ter efeito direto limitado sobre consumo, uma vez que a literatura documenta que, quanto maior a renda, menor é a propensão marginal a consumir (PMgC) – isto é, a parcela da renda adicional que se converte em consumo.
A maior parte do impulso gerado pela isenção do IRPF se concentra nos setores de habitação/utilities, transporte/veículos e alimentação, mas por razões distintas. Habitação/utilities terá um impacto direto estimado de R$ 10,2 bilhões, mais de um terço de toda a renúncia fiscal. Trata-se de um setor com alto peso no orçamento familiar, mesmo que com elasticidade-renda baixa. Além disso, a interação com outros estímulos – como programas habitacionais (por exemplo, Minha Casa Minha Vida) – pode reforçar o dinamismo do segmento ao longo de 2026.

















