IR: isenção de até R$ 5 mil traz alívio financeiro, mas consumo é gradual

Ação favorece classe média-baixa e pesquisa aponta que 30% dos brasileiros percebem benefícios direto no orçamento

339
Site da Receita Federal para declaração de Imposto de Renda (foto da ABr)
Site da Receita Federal para declaração de Imposto de Renda (foto da ABr)

Dados da pesquisa Genial/Quaest indicam que 30% dos brasileiros sentiram o impacto direto da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, muitas vezes porque o valor acaba absorvido pela inflação ou por dívidas acumuladas.

Segundo Rodrigo Barreto, professor de Administração da Fundação Educacional Inaciana (FEI), a medida aumenta a renda líquida de trabalhadores de classe média e média-baixa ao reduzir o imposto retido na fonte. Na prática, isso pode significar um ganho extra de dezenas ou centenas de reais todos os meses.

Embora o benefício seja real, a percepção no orçamento das famílias ainda é moderada.

De acordo com ele, economicamente, a medida tem potencial para girar a roda da economia. Isso ocorre porque as famílias de menor renda tendem a gastar quase todo valor extra que recebem, a chamada Propensão Marginal a Consumir (PMgc), um indicador que mede o quanto de cada real adicional de renda o brasileiro destina às compras. No Brasil, esse índice é superior a 0,76, o que significa que, para cada R$ 1 extra recebido, pelo menos R$ 0,76 voltam para a economia na forma de consumo, especialmente entre as famílias de menor renda.

Espaço Publicitáriocnseg

Para Barreto, o efeito é mais visível em setores essenciais: “Com um pouco mais de folga no orçamento, o brasileiro tende a priorizar o consumo imediato em áreas como alimentação, cuidados pessoais e serviços do dia a dia. No entanto, o alto endividamento das famílias ainda é uma barreira: muitas vezes, esse ganho extra não vai para uma compra nova, mas para o pagamento de contas atrasadas.”

Os maiores beneficiados são os trabalhadores formais com rendimentos próximos aos R$ 5 mil. Já quem possui renda informal ou recebe acima de R$ 7.350 mensais dificilmente perceberá mudanças significativas em seu holerite. Pelo lado do governo, o desafio é equilibrar as contas, já que a renúncia fiscal é estimada em R$ 27 bilhões por ano. A sustentabilidade dessa política dependerá de uma compensação eficiente, como a tributação de rendas mais altas, para garantir que o estímulo à economia não gera inflação.

Isenção deve adicionar 0,3 p.p. ao PIB em 2026 e pressionar serviços

A medida funciona como um “desconto” que zera o imposto devido para rendas brutas mensais até R$ 5 mil (teto da isenção) e, acima disso, cria uma faixa de transição em que o desconto reduz linearmente até se extinguir em R$ 7.350 (fim do benefício).

A partir dos dados da Receita Federal, estimamos que a medida gere 17 milhões de beneficiários, sendo 11 milhões totalmente isentos e 6 milhões na transição, com renúncia fiscal total em torno de R$ 30 bilhões/ano. O ganho mensal máximo ocorre justamente no teto da isenção: um contribuinte com renda bruta de R$ 5 mil deixa de pagar R$ 312,89 por mês, o que equivale a aproximadamente R$ 3,75 mil/ano.

A contrapartida fiscal da medida é a incidência de uma alíquota mínima para quem recebe acima de R$ 600 mil por ano, podendo chegar a 10% para rendas acima de R$ 1,2 milhão. Por se tratar de um grupo de alta renda, o aumento de tributação tende a ter efeito direto limitado sobre consumo, uma vez que a literatura documenta que, quanto maior a renda, menor é a propensão marginal a consumir (PMgC) – isto é, a parcela da renda adicional que se converte em consumo.

A maior parte do impulso gerado pela isenção do IRPF se concentra nos setores de habitação/utilities, transporte/veículos e alimentação, mas por razões distintas. Habitação/utilities terá um impacto direto estimado de R$ 10,2 bilhões, mais de um terço de toda a renúncia fiscal. Trata-se de um setor com alto peso no orçamento familiar, mesmo que com elasticidade-renda baixa. Além disso, a interação com outros estímulos – como programas habitacionais (por exemplo, Minha Casa Minha Vida) – pode reforçar o dinamismo do segmento ao longo de 2026.

Siga o canal \"Monitor Mercantil\" no WhatsApp:cnseg