Jogo dos 7 erros no combate à crise

Com a crise econômica se desenrolando ao som da crise de saúde, vão aqui alguns palpites sobre os principais erros na condução do problema:

1 – Jair Bolsonaro

2 – Voo livre – Só na quinta-feira passada (19) o ministro Moro se deu conta de que o contágio se deu através de quem chega de avião. Determinou o fechamento da entrada para voos de alguns países, mas só a partir desta segunda (23), quase 1 mês após ter sido detectado o primeiro caso no Brasil. Ainda assim, seguem frouxos os controles da chegada de brasileiros. Igualmente só nesta segunda, a Secretaria de Estado de Saúde do RJ iniciou ação contra o coronavírus no aeroporto internacional, assumindo um papel que o Governo Federal desempenhou mal, como comprovam depoimentos de brasileiros que voltaram de viagem, inclusive a Milão, foco da crise na Itália, sem sequer serem orientados sobre a doença.

3 – Fora de foco – Os mapas de contaminados mostram forte concentração em São Paulo e na Zona Sul e Barra, no Rio, em bairros de classe média alta ou emergente. Em vez de uma atuação voltada para conter esses focos, optou-se – por falta de coordenação federal – por um salve-se quem puder. Medida simples seria a proibição de trabalhos domésticos (a primeira morte confirmada no Rio foi de uma empregada doméstica, que provavelmente se contaminou na casa da patroa, que regressara de viagem). Como São Paulo concentra 40% dos casos confirmados e 90% das mortes, uma alternativa poderia ser fechar totalmente o estado, ou ao menos a capital, como a China fez em Hubei.

4 – Pensamento único – Ao deixar para médicos o comando que deveria ser exercido por uma equipe multidisciplinar de saúde e especialistas em gestão pública, optou-se por um caminho único. Os profissionais de saúde se dedicam bravamente, colocando suas vidas em risco, para combater o vírus. Mas, como lembra texto que circula na internet, os médicos, do Ocidente, de forma geral, se concentram em combater a doença, com remédios de laboratórios, exames caros e procedimentos hospitalares; deixam a desejar na promoção da saúde. As campanhas de alerta priorizaram lavar as mãos, ignorando que boa parte da população não tem saneamento e que os trabalhadores das categorias menos remuneradas não têm onde lavar as mãos com frequência, nem dinheiro para o álcool gel. A pregação de home office também deixou de fora empregados de setores expostos a clientes, dinheiro e produtos que podem estar transmitindo o vírus.

5 – Testes — O Governo Federal, antes tarde que nunca, aprendeu que os países com maior sucesso no combate ao coronavírus fizeram exames à exaustão. Estima-se que 2/3 dos contaminados contraíram o vírus de pessoas assintomáticas.

6 – Bastão – Sem coordenação e com lideranças fracas e inseguras, o combate virou uma disputa para ver quem tem o maior bastão: “Mandei fechar bares e restaurantes”; “Pois eu fechei o comércio e as praias”; “Decretei quarentena”. Enquanto isso, só no dia 20 passado, três semanas após o primeiro caso confirmado, a Secretaria de Saúde de São Paulo determinou que os hospitais públicos e privados informem os casos de contaminação e morte por coronavírus. E só fez isto após descobrir que um hospital privado estava se tornando uma fábrica de doentes, com as primeiras mortes no estado. Na cidade do Rio de Janeiro, até sexta (20), os fluxos de atendimento da rede pública municipal ainda estavam sendo elaborados, e os profissionais não tinham recebido treinamento, elevando os riscos para os profissionais de saúde e para a população. Mais fácil jogar os encargos nos ombros dos cidadãos, “que não colaboram ficando em confinamento e evitando o contato social”.

7 – Austericídio – Em meio à crise sanitária que catalisou a recessão já vislumbrada no mundo e à questionável opção pela paralisação da economia, manter a política de fanatismo fiscal e monetário é garantir uma profunda depressão, ainda mais no Brasil, que vem de cinco anos de recessão e estagnação. Sem garantia de emprego, auxílio no pagamento de salários, dinheiro para os trabalhadores informais, suspensão (não adiamento) de obrigações fiscais e outras despesas das empresas, a quebradeira será geral, e uma convulsão social não está fora do horizonte.

 

Senzala

Nas portarias dos condomínios de luxo, segue o entra e sai de empregadas domésticas. Sinhazinha usa muito álcool gel, máscara e luvas quando vai às compras, mas não dispensa a presença da mucama em casa.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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