Os últimos tempos têm sido ingratos, com tantas e tão dolorosas perdas. São profissionais valorosos e que marcaram nossas vidas, contribuindo, com suas ações, para o desenvolvimento do Brasil. As mortes das atrizes Maria Isabel de Lizandra, Márcia Real, Lady Francisco e Bibi Ferreira, dos cantores Gabriel Lima e Beth Carvalho, do jornalista Ricardo Boechat e do dramaturgo Antunes Filho deixaram todos nós certamente entristecidos, mas, ao mesmo tempo, sabemos que os seus legados, para a dramaturgia, para o jornalismo e para a Música Popular Brasileira, servem de alento, nesse momento de precoce saudade, sendo exemplos para as novas gerações.
A morte do cantor Gabriel Diniz, ocorrida na última terça-feira, pegou a todos de surpresa. No auge do sucesso, ele ia de Salvador para Maceió, quando o avião monomotor em que viajava caiu no interior de Sergipe. A notícia se espalhou rapidamente, gerando uma grande comoção entre os seus fãs, que foram, mais tarde, se despedir do artista em João Pessoa, onde foi enterrado. Aos 28 anos, o músico sul mato-grossense estava no auge da carreira e foi hit do Carnaval 2019, com a música Jenifer. No YouTube, o clipe da canção já ultrapassou a marca de 200 milhões de visualizações.
Dias antes, a atriz Lady Francisco, de 84 anos, morreu por complicações pós-operatórias, após sofrer uma queda, quando caminhava com seus cães, e fraturar o fêmur. O velório da atriz ocorreu no Teatro Leblon, com a presença de uma grande quantidade de colegas do cinema, televisão e teatro. A atriz era muito querida e atuou por mais de cinco décadas, emprestando seu talento e vigor físico aos papéis que interpretou, quase sempre com olhares para lá de sedutores.
Nesses últimos meses, o Brasil
perdeu grandes profissionais
Na Globo, a atriz mineira esteve em novelas como Pecado Capital, Explode Coração, Barriga de Aluguel, Por Amor e Cheias de Charme. Após se destacar na rádio e TV Itacolomi, em Minas Gerais, ela se mudou para o Rio. Foi quando teve breve passagem pela TV Tupi, no começo da década de 70, na novela Jerônimo, o Herói do Sertão.
No cinema, fez Um varão entre as mulheres e O padre que queria pecar. A filmografia tem também O crime do zé bigorna, de Anselmo Duarte, e Lúcio Flávio – o passageiro da agonia, de Hector Babenco. Ela também atuou como diretora, ao lado de Levy Salgado, em Anjos do sexo, e se vestiu como homem para cenas de Os rapazes da calçada. Seu último papel foi no programa humorístico Treme treme, em 2018, do Multishow.
Beth Carvalho nos deixou no final do mês passado. Ela começou a fazer sucesso ainda na década de 1970, quando se tornou uma das maiores intérpretes do samba, ajudando a revelar nomes como Luiz Carlos da Vila, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Grupo Fundo de Quintal e Arlindo Cruz.
A carreira de Beth Carvalho se originou na Bossa Nova. Em 1965, gravou o seu primeiro disco com a música Por Quem Morreu de Amor. A partir de 1973, passou a lançar um disco por ano e se tornou sucesso de vendas, emplacando vários sucessos como 1.800 Colinas, Saco de Feijão, Olho por Olho, Coisinha do Pai, Firme e Forte, Vou Festejar, Acreditar, Mas Quem Disse que Eu te Esqueço.
Foram 51 anos de carreira, 31 discos, 2 DVDs e apresentações em diversas cidades do mundo. Beth Carvalho recebeu seis Prêmios Sharp, 17 Discos de Ouro, 9 de Platina, 1 DVD de platina, centenas de troféus e premiações diversas.
Maria Isabel de Lizandra atuou em novelas, séries e especiais de TV, filmes e peças de teatro, de 1960 até os anos 2000, além de ter sido professora de Teatro, na então Faculdade da Cidade, no Rio. Estreou, em 1964, na TV Tupi, com a novela Se o Mar Contasse, de Ivani Ribeiro, e no cinema em Vereda da Salvação, de Anselmo Duarte, que provocou a crítica e o público em festivais de todo o mundo.
A partir de 1966, na TV Excelsior, Maria Isabel de Lizandra torna-se um dos rostos mais habituais das novelas. Nesse ano, interpretou Maria Elisa em Anjo Marcado, de Ivani Ribeiro, e Raquel, em As Minas de Prata, uma superprodução para a época, adaptada por Ivani Ribeiro e dirigida por Walter Avancini.
Estreou na Rede Globo em 1983 com a minissérie Moinhos de Vento, a que se seguiram a telenovela Champagne, de Cassiano Gabus Mendes, a minissérie Tenda dos Milagres e a participação nas séries Caso Verdade e Você Decide. Em 1986 a atriz foi para a Rede Manchete onde participou de Dona Beija. Dois anos depois, regressa à Rede Globo, onde tem uma participação especial em Vale Tudo. Em 1989, trabalha em Tieta e, no mesmo ano, em Pacto de Sangue. Em 1991 retorna à Rede Manchete onde participa de Fronteiras do Desconhecido e da minissérie Filhos do Sol.
Seus últimos trabalhos na TV foram em episódios do programa Você Decide e na minissérie Labirinto, na Globo, e em Por Amor e Ódio, na Record. Maria Isabel de Lizandra foi presença constante nos palcos brasileiros, estrelando e participando de dramas e comédias que foram sucesso de público e crítica. Entre os vários espetáculos dos quais participou, destacam-se: Quarto de Empregada, O Duelo, Felisberto do Café, Elas Complicam Tudo, Adiós Geralda e Freud, Além da Alma.
Consagrado diretor de teatro, Antunes Filho foi considerado pela crítica e por diversos artistas como um dos principais nomes teatrais e diretores do país. Antunes fez parte da primeira geração de encenadores brasileiros, junto a Flávio Rangel, Augusto Boal, Antônio Abujamra, Zé Celso e Amir Haddad, dissidentes do Teatro Brasileiro de Comédia, onde começou como assistente de direção em 1952, tendo lá trabalhado com nomes estrangeiros decisivos que influenciaram sua geração: Ziembinski, Adolfo Celi, Luciano Salce, Ruggero Jacobbi e Flaminio Bollini.
Seu trabalho foi fortemente ligado à renovação estética, política e cênica do teatro brasileiro surgido nos anos 1960 e 1970, sobretudo com Macunaíma (1978), montagem que se tornou referência para a geração dos anos 80. Com esse espetáculo, Antunes Filho tornou-se o primeiro diretor a empreender uma obra dramatúrgica e cenicamente autoral.
Bibi Ferreira foi uma artista completa. A vida e obra de Bibi Ferreira foi homenageada durante o Carnaval do Rio, em 2003, sendo tema de samba-enredo. Na década de 2010, Bibi começou a realizar espetáculos focados em apenas um artista, como a francesa Edith Piaf, a portuguesa Amália Rodrigues e o americano Frank Sinatra.
Em 2007, após 50 anos afastada do teatro de comédia, volta aos palcos fazendo Às Favas com os Escrúpulos, texto de Juca de Oliveira e direção de Jô Soares. Em 2015, entrou para a lista 10 Grandes Mulheres que marcaram a História do Rio. Aos 95 anos, um ano antes de morrer, fez sua turnê de despedida com Bibi – Por Toda Minha Vida, espetáculo só com músicas brasileiras.
Márcia Real veio de uma família humilde e teve um avô advogado, que logo percebeu a vivacidade e a memória da neta e que desejava que fosse advogada também. Adolescente, um dia encontrou-se na rua com a atriz Bibi Ferreira, de quem era fã incondicional. Após uma conversa com a estrela, ganhou um papel na peça Minhas queridas esposas.
Depois de uma experiência na Rádio Tupi, estreou na televisão, atuando nos programas TV de Vanguarda e TV Comédia, na TV Tupi. Foi um dos principais nomes da TV Tupi de São Paulo fazendo papéis como Lady Macbeth e Ana Karenina. Estreou em telenovelas, em 1964, em um dos principais papéis de Corações em Conflito, na TV Excelsior.
Márcia Real foi também apresentadora de televisão. Destacou-se no Clube dos Artistas, ao lado de Airton Rodrigues, no qual ficou por dez anos. Ganhou vários prêmios, dentre eles o Troféu Roquette Pinto, o principal prêmio de televisão da década de 1960, por três vezes. Ganhou também o primeiro Troféu Imprensa de melhor atriz, no ano de 1961. Atuou, como atriz, por cerca de 40 anos. Márcia Real morreu em março. A atriz sofria de Mal de Alzheimer há mais de uma década.
Jornalista brilhante, lúcido e irreverente, Ricardo Boechat também nos deixou, recentemente. Esteve presente nos principais jornais do país, como O Globo, O Dia, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil, além de ter sido professor de jornalismo impresso da UniverCidade, onde também editou o Jornal da Cidade.
Seu último trabalho foi no Grupo Bandeirantes, onde estava desde 2004, quando começou como âncora do noticiário matinal BandNews FM, em 2005 – inicialmente no bloco local da filial carioca, passando, no ano seguinte, para a apresentação da faixa matinal da rede, quando também passou a ancorar o Jornal da Band, na Rede Bandeirantes. Também assinava uma coluna semanal na revista IstoÉ. Venceu por três vezes o Prêmio Esso, além de ter recebido por várias vezes o Prêmio Comunique-se.
Nesses últimos meses, o Brasil perdeu grandes profissionais. E aqui estão sendo lembrados alguns deles. Todavia, todos esses que partiram e que aqui são, de alguma forma, homenageados, deixaram suas marcas em nossas mentes e em nossos corações, pois, com grande talento, cada um deles, contribuiu com o Brasil.

Paulo Alonso
Jornalista e chanceler da Universidade Santa Úrsula.
















