Lembrando os Amados: Camila, Gilson e Henriette

Por Paulo Alonso.

Camila Amado foi mestra de uma legião de atores no teatro e na televisão, formando muitos artistas. Vários deles foram às redes sociais lamentar o falecimento da atriz, vitimada por um câncer no pâncreas, aos 82 anos, na última semana. Ela, claro, amava entrar em cena e encarnar de forma visceral os muitos personagens que interpretou, ao longo de uma carreira que acumulou sucessos e aplausos da crítica especializada, mas formar uma pessoa artisticamente era algo sublime e mágico para ela.

Verdadeira operária da dramaturgia, Camila transitava nos palcos dos teatros, preenchia as telas dos cinemas e esbanjava versatilidade na telinha, com igual desembaraço, demonstrando talento. Participou de montagens memoráveis, como na comédia As desgraças de uma criança, no clássico A Dama das Camélias e na densa tragédia Hamlet, dentre tantas outras nas quais atuou no teatro.

No cinema, estreou no final da década de 60 em Um Gosto Amargo de Festa. Acumulou cerca de 30 filmes no seu extenso currículo, destacando-se a brilhante interpretação em O Casamento, dirigido pelo cineasta Arnaldo Jabor, baseado na obra homônima de Nelson Rodrigues, e pelo qual a atriz ganhou o Kikito de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante e o Prêmio Especial do Júri, no Festival de Gramado. Seu último filme foi De perto ela não é normal, de Suzana Pires, no ano passado.

Camila começou a atuar, na televisão, em 1969, na novela Um Gosto Amargo de Festa, da TV Tupi. Seu último trabalho na televisão foi em Éramos Seis, em agosto de 2019, vivendo a Tia Candoca, na TV Globo. Ela atuou em 40 novelas, sempre com o mesmo vigor e disposição. Dentre tantas novelas, esteve em Tapas & Beijos, A Casa das Sete Mulheres, Sítio do Pica-pau Amarelo e Cordel Encantado.

Camila foi casada com o jornalista Carlos Eduardo Martins, do qual ficou viúva em 1968. O casal teve dois filhos, a atriz Rafaela Amado e Rodrigo. Anos depois, Camila se casaria com o ator Stephan Nercessian, com quem permaneceu por 14 anos.

Generosa nas palavras e nas ações, gentil com todos, despojada de vaidades e sempre atenta ao cotidiano, Camila foi uma atriz pesquisadora, que se debruçava sobre cada personagem que viveria, com imensa entrega e paixão. Justamente por essa razão, foi uma das mais celebradas atrizes do meio e reconhecida por seus pares como uma artista completa.

Meu último encontro com Camila Amado foi no programa Sem Censura, comandado pela jornalista Leda Nagle, quando ela e eu fomos entrevistados. Foi uma alegria reencontrá-la, pois além de tê-la entrevistado em algumas ocasiões, eu e seus pais, os saudosos Gilson Amado, educador, escritor, jornalista, radialista, advogado e fundador da TV Educativa, e Henriette Amado, uma educadora notável, que sempre esteve à frente do seu tempo, fomos vizinhos em Copacabana.

No momento em que Camila parte para a eternidade e se junta a outras estrelas no firmamento, importante destacar o seu papel na sociedade, mas também os papéis relevantes exercidos por seus pais, que foram exemplo de dignidade.

Gilson Amado se destacou, dentre tantas qualidades, por ter sido um dos pioneiros em usar a televisão e o rádio como instrumentos pedagógicos com fins educativos no Brasil. Já Henriette, que dirigiu com garra e competência o Colégio Estadual André Maurois, o Colégio Brigadeiro Schorcht e o Colégio Hélio Alonso, inovou na forma de ensinar e de administrar estabelecimentos educacionais.

Nas palavras de Hélio Pellegrino, “Henriette Amado é educadora essencial, de borla e capelo, provada e comprovada, inclusive através de provações e provocações, que, embora a tenha ralado algumas vezes, pela vida afora, jamais conseguiram arrefecer-lhe o ânimo: muito ao contrário. Esta mulher extraordinária constitui para todos nós, da comunidade brasileira, um exemplo de como se deve exercer, com dignidade e altivez, a condição de cidadania.”

Henriette liderou uma proposta político-pedagógica: Liberdade com Responsabilidade. Essa concepção de escola, que incorpora a liberdade e a responsabilidade como balizas para a coexistência humana digna, tem como base o pensamento-ação de Alexander Sutherland Neill. Em plena ditadura, suas atitudes pioneiras não eram bem-vistas e, por essa razão, Henriette foi exonerada da direção do André Maurois e presa, em agosto de 1971, sob forte comoção dos alunos e pais.

A trajetória artística de Camila Amado e o legado de seus pais, Gilson e Henriette, são lembrados neste momento e homenageados por tudo o que representaram nas artes, na televisão, no rádio e na educação deste País.

Saudade imensa de uma família notável, tão espetacular e exemplar, tão simples e acolhedora. Ficam as lembranças.

 

Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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