Let”s go Brazil!

Pelo visto, o Ministério da Agricultura resolveu levar às últimas conseqüências o comprometimento com a internacionalização de nossa produção agrícola. No título de release encaminhado à imprensa nacional, na última sexta-feira, “Brazil  produziu 143 milhões de sacas de café nos últimos quatro anos”, o nome do país também foi, digamos, globalizado.

Os prisioneiros de Lula
Contam os conhecedores dos bastidores da televisão brasileira que uma conhecida comediante, cujo talento histriônico ficou fortemente associado a um corpo rechonchudo, foi advertida por seu médico que, se não perdesse rapidamente algumas dezenas de quilos, sua saúde ficaria irreparavelmente comprometida. Diante de aviso tão peremptório, a veterana atriz viu-se diante de uma escolha de Sofia: se não emagrecesse drasticamente, morria; e se seguisse a dieta, corria o risco de ficar desempregada, por se dissociar do personagem único que encarnara por longos anos.
Esse aprisionamento por personagens não é drama exclusivo do campo televisivo. Alguns dos críticos da política econômica do presidente Lula também se permitiram cair numa armadilha que resultou num comportamento esquizofrênica: embora concordem sobre os efeitos calamitosos de fundamentos baseados em juros astronômicos, aperto fiscal cavalar e negação do papel do Estado para reativar a economia, insistem em apoiar o responsável por essa escolha. Tornaram-se prisioneiros de Lula. A exemplo da atriz que, no início do tratamento, alimentava a ilusão de ser possível comer como glutão para sustentar o personagem com o qual se fundira e, simultaneamente, ter uma vida sem riscos à saúde, os críticos-admiradores de Lula adiam ad nauseum a opção decisiva, sob a alegação de que, num dia incerto, Lula mudará o rumo dos acontecimentos: ou bem assumem o apoio aberto à política econômica, da qual dizem divergir, ou retiram a adesão ao responsável por ela.

Tablado quadrado
Não pode ser tratada isoladamente a proposta de alguns artistas do Rio de Janeiro, encampada pelo futuro secretário estadual de Cultura, Luiz Paulo Conde, de subsidiar com recursos públicos a diferença entre a meia entrada e o preço cheio de espetáculos culturais. Como se trata de dinheiro público, é importante que o estado fixe tetos menos salgados para espetáculos que recebam patrocínios, seja diretamente por dinheiro do contribuinte, ou indiretamente, por renúncia fiscal, nas ações de marketing da iniciativa privada. Quem bancar a produção do próprio bolso é livre para cobrar o que quiser. Isso é o mercado. Mas quem recebe verbas públicas, que remuneram do cachê dos artistas a todos custos de produção, não pode continuar praticando os atuais preços altos, inacessíveis à mesma população que os subsidia.

Midiocracia
Se é verdade que governos em geral não gostam de serem criticados pela imprensa, esta também não pode se escudar na defesa da liberdade de informar para transformar esse direito em sinônimo de um monopólio tão monolítico que a expressão midiocracia já deixou de ser um debate restrito a acadêmicos. No Brasil, a concentração é particularmente grave pela ausência de leis, como as existentes na Europa e nos Estados e, que, apesar das “flexibilizações” recentes, impedem que um número reduzido de proprietários controle veículos de mídia diferentes na mesma região.
No Brasil, esse vácuo jurídico permite que apenas seis grupos detenham 667 rádios e TVs. Com isso, apenas três ou quatro proprietários determinam o que é publicado em quase todos os jornais do país, já que, em grande medida, o noticiário nacional dos pequenos jornais é reproduzido dos diários maiores.

Questão de oportunidade
Histeria udenista e indignação seletiva de setores da imprensa à parte, a aprovação da isonomia salarial do Congresso com o Supremo Tribunal Federal (STF) comprovou que os críticos do PT do tempo da oposição estavam certos. Na época, sempre que o PT votava contra aumentos de salário para parlamentares, os que eram a favor argumentavam que o moralismo dos petistas, que incluía ações no Supremo, não passava de jogo de cena.
Com a chegada do partido ao poder central, os deputados petistas passaram a repetir o mesmo comportamento que condenavam no passado em relação a salários e mordomias parlamentares. Como diria um neoaliado de Lula, o tempo é mesmo o senhor da razão.

Última palavra
Portador de uma incontinência verbal somente proporcional a sua escassa convicção sobre os temas sobre os quais se pronuncia, o presidente Lula tem alimentado num crescente número de brasileiros a impressão de que a, exemplo do personagem de Graciliano Ramos que “lia as folhas e tinha a opinião das folhas”, repete a última opinião que o impressionou.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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