Lições urgentes sobre o monopólio global das infraestruturas de nuvem

Apagões digitais expõem a dependência global da nuvem e o risco de concentrar infraestrutura crítica em poucas empresas. Por Heloísa Daniela Nora e Rafael Reis

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Heloísa Daniela Nora e Rafael Reis *

Os “apagões” digitais recentes — como o da CrowdStrike em 2024, o da AWS (Amazon Web Services) e, mais recentemente, o da Cloudflare — não foram meros inconvenientes técnicos, mas lembretes da nossa absoluta dependência de uma infraestrutura em nuvem complexa, frágil e, o mais importante, invisível. Vivemos em um ambiente dominado pela informação, e a falha de um único “nó” corporativo pode, em segundos, paralisar serviços globais.

A computação em nuvem passa por um extenso portfólio de recursos de TI que são utilizados por milhares ou até milhões de organizações: servidores, armazenamento, bancos de dados, redes e softwares. Hoje, empresas como Microsoft, Google e Amazon dominam esse setor, provendo a base sobre a qual o mundo digital se sustenta.

A instabilidade ocorrida na Cloudflare, por exemplo, expôs novamente a dependência mundial dessas infraestruturas. O serviço de distribuição de conteúdo em nuvem registrou uma instabilidade que afetou diversos sites e aplicativos, como o ChatGPT, o X (antigo Twitter) e o Canva.

As falhas foram identificadas por meio do Downdetector, que também apresentou problemas durante o período. Segundo a Cloudflare, a pane foi causada por um pico de tráfego incomum, registrando mais de cinco mil notificações de falhas apenas no período da manhã.

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Empresas como a AWS e a Cloudflare são colossos globais da computação em nuvem. Sua função, embora invisível ao usuário comum, é fundamental: elas fornecem segurança, espaço e poder computacional para empresas hospedarem sites, aplicativos e serviços digitais.

Em outras palavras, essas empresas assumem papéis fundamentais na infraestrutura da internet, mas, diferentemente das infraestruturas tradicionais — como o fornecimento de energia —, há pouca regulação estatal sobre essas operações, apesar da sua gigantesca importância.

Nos apagões, tanto o da CrowdStrike e o da Cloudflare quanto o da AWS, os serviços foram restabelecidos, mas esses eventos servem como um lembrete de que nossa vida digital depende de um número muito limitado de empresas, com uma infraestrutura complexa de cabos submarinos e redes de transmissão invisíveis ao usuário e profundamente interligados. Quando um desses nós falha, todo o sistema sente o abalo.

O filósofo Byung-Chul Han, em sua obra Não Coisas, resume bem essa condição: vivemos menos entre objetos e mais entre dados. A “nuvem” deixou de ser metáfora para se tornar um local onde a economia mundial se realiza. O problema é que, quanto mais dependemos dela, menos sabemos como ela realmente funciona e mais vulneráveis ficamos quando algo dá errado — inclusive organizações públicas e privadas em todo o planeta.

Os recentes apagões mostram exatamente isso. Basta uma falha em servidores para que parte da internet pare e, em consequência, diversos serviços públicos e privados.

A lição é simples: entender a infraestrutura digital deixou de ser um tema técnico e passou a ser uma questão de sobrevivência digital, tanto para pessoas quanto para empresas. Boas práticas nesse cenário incluem manter backups cada vez mais atualizados e com tempo de recomposição mínimo, distribuir cargas entre provedores diferentes e planejar contingências para garantir a continuidade de serviços críticos.

Já passou da hora de mudarmos a cultura de confiar cegamente nos grandes provedores de infraestrutura em nível mundial. É necessário assumir que falhas estão ocorrendo e, portanto, a redundância nesses serviços torna-se essencial. Isso envolve investimentos privados, mas também públicos, uma vez que o Brasil ainda é dependente de tecnologias importadas para a manutenção do nosso ambiente digital.

Empresas e indivíduos dependem mais do que nunca dos algoritmos e servidores que sustentam o ambiente digital. Esses sistemas normalmente operam em uma dimensão opaca — uma espécie de backstage tecnológico que só se torna visível quando algo falha. E é nesses momentos que percebemos o quanto nossa vida cotidiana depende de poucos atores corporativos.

Após o caos, a atenção rapidamente se dissipa e voltamos à normalidade, sem perceber que continuamos habitando um mundo cada vez menos palpável.

A reflexão, portanto, deve levar em conta o quanto o digital passou a dominar as relações de qualquer corporação moderna. Esses apagões devem ser um alerta para nós, como sociedade: concentração e pouca concorrência nunca são boas para os negócios — e a conta está aparecendo.

Heloísa Daniela Nora, advogada na RRA_, mestre em Direito pela PUC/PR.

Rafael Reis, sócio-fundador da RRA_, presidente do Instituto Nacional de Proteção de Dados, doutorando e mestre em Direito pela PUC/PR, especialista em Direito Digital e Compliance pelo IBMEC, LLM em Direito Empresarial pela FGV e autor do livro Sociedade de Risco Digital: Hiperconectividade e Privacidade na Sociedade da Informação.

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