Líderes nacionalistas: Nasser

Por Felipe Quintas.

Opinião / 16:01 - 31 de mar de 2020

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Gamal Abdel Nasser foi um dos maiores líderes nacionalistas e anti-imperialistas do mundo árabe e do Terceiro Mundo. O nasserismo tornou-se uma referência para os países subdesenvolvidos que buscavam libertar-se das amarras coloniais.

Nascido em 1918, Nasser governou o Egito de 1954 até a sua morte em 1970, tendo sido primeiro-ministro de 1954 a 1956 e presidente de 1956 a 1960. Foi uma das principais lideranças do Movimento dos Oficiais Livres, movimento militar patriótico que derrubou o rei Farouk, fantoche da Inglaterra, em 1952.

Nasser assumiu o poder em 1954 após derrubar o General Naguib, primeiro presidente do Egito e seu ex-aliado. Em 1956, ele foi eleito presidente.

 

Protagonista do movimento dos

Não-Alinhados e do pan-arabismo

 

Inspirado em Mossadegh, Nasser fez amplo uso do rádio para mobilizar o povo em torno da sua agenda nacionalista. Ele também usou o rádio para disseminar o ideal pan-arabista, de união entre os povos árabes e de oposição a Israel e às potências ocidentais. Tanto que seu programa de rádio se chamava A Voz dos Árabes e era transmitido em todo o Oriente Médio.

Em 1956, Nasser tornou-se mundialmente conhecido ao nacionalizar o canal de Suez, controlado pela Inglaterra, que desde 1936 mantinha ali uma base militar. Porém, ele só fez isso após os EUA forçarem o Banco Mundial a suspenderem o financiamento à represa de Aswan, um grande projeto de infraestrutura a ser feito pelo governo egípcio. A suspensão se deveu ao fato de Nasser ter feito acordos militares com a URSS.

Então, para obter meios de construir a barragem, Nasser expropriou o canal de Suez incluindo os pedágios, gerando enorme indignação entre as potências ocidentais. A Inglaterra pressionou os EUA para agir contra o Egito da mesma forma que havia agido contra o Irã, porém o apoio militar soviético dissuadiu os EUA a intervirem.

Com base nas receitas adquiridas através dos pedágios no Canal de Suez e com a criação de um imposto de renda que chegava a 90% para rendimentos acima de 10 mil libras, Nasser empreendeu uma série de reformas econômicas, sociais e políticas. Ele nacionalizou bancos, companhias de seguro, toda a indústria pesada e a mídia. Também nacionalizou o comércio de algodão, principal item de exportação egípcia, para estimular a indústria têxtil doméstica. Fez uma reforma agrária organizando os agricultores em cooperativas de plantio e agroindústria, de modo a incentivar a industrialização rural e a autonomia dos trabalhadores.

Seu governo empreendeu um amplo processo de industrialização. O Estado nacionalizou diversos setores estratégicos do país, como recursos naturais e indústria de base, e investiu em infraestruturas e em diversos setores industriais em todo o país.

Também avançou a construção de um Estado de bem-estar social. Criou um sistema público e universal de saúde, investiu em habitações populares e escolas técnicas. Também criou uma série de direitos trabalhistas, como o salário mínimo, redução da jornada de trabalho de 8 para 7 horas sem redução do salário, participação dos lucros em 25% e representantes operários na diretoria das empresas. No seu governo, as mulheres foram incorporadas à plena cidadania e obtiveram o direito ao voto, à escolarização e ao trabalho fora de casa.

No plano internacional, Nasser teve grande protagonismo ao ser um dos membros da Conferência de Bandung e um dos criadores do movimento dos Não-Alinhados em 1961, tendo sido o secretário-geral de 1964 até 1970. Foi um dos mentores do pan-arabismo, de oposição a Israel, e formou a República Árabe Unida com a Síria em 1958, que se tornou um Estado soberano em 1961 e perdurou por mais dez anos.

Em 1967, com a Guerra dos Seis Dias, o Egito sofreu pesadas perdas militares e territoriais, enfraquecendo Nasser. A partir de então, Nasser iniciou um movimento de liberalização política e de acomodação com setores mais liberais e ligados às potências estrangeiras. Indicou Anwar el-Sadat para ser seu sucessor. Esse, por sua vez, desmontou grande parte das conquistas econômicas e sociais da Era Nasser e aliou-se a adversários do nasserismo como a Irmandade Muçulmana.

Felipe Quintas

Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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