

O ex-primeiro-ministro francês Lionel Jospin, socialista que introduziu a semana de trabalho de 35 horas e as uniões civis para casais homossexuais, morreu aos 88 anos, no último domingo. O atual primeiro-ministro, Sébastian Lecourn, lamentou a morte do líder francês, que, segundo ele, “serviu a França com constância, rigor e senso de responsabilidade” e “suas ações, guiadas por uma certa visão de progresso social e valores republicanos, deixam uma marca duradoura e um modelo de compromisso”. Já o presidente Emmanuel Macron prestou homenagem a Jospin a quem se referiu como “uma grande figura francesa” movida por um “ideal de progresso”. Macron enfatizou, ainda, que “com seu rigor, sua coragem e seu ideal de progresso”, Jospin “personificou uma visão nobre da República”. O líder da esquerda radical (França Insubmissa), Jean-Luc Mélenchon, que foi ministro de Jospin, entre 2000 e 2002, elogiou “um modelo de altos padrões e de trabalho árduo”, destacando “a presença intelectual num Mundo que estava a afastar-se.”
Pacifista convicto, membro da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária) e maçom, Robert Jospin foi professor e, posteriormente, diretor de um centro nacional de educação para crianças consideradas problemáticas e delinquentes. Essa forte presença ideológica e profissional do pai marcaria a formação do jovem Lionel, embora a relação entre os dois fosse conturbada e só começasse a se amenizar pouco antes da morte de Robert, em 1990.
Inicialmente trotskista, Lionel Jospin ingressou no Partido Socialista, em 1971. Dez anos depois, tornou-se primeiro-secretário da legenda. Foi eleito deputado em diversas ocasiões pelo 18º distrito de Paris e pela cidade de Cintegabelle, no sul do país. Também exerceu mandatos locais: foi membro do conselho regional – equivalente a uma assembleia legislativa estadual – e do conselho geral, instância que administra o departamento, algo próximo a um governo estadual francês. Além disso, integrou o Parlamento Europeu, entre 1984 e 1988. Entre 1988 e 1992, ocupou o cargo de ministro da Educação. Na vida política, Jospin ficou conhecido por criar a semana de trabalho de 35 horas, uma de suas principais promessas de campanha. Também foi responsável pela criação do PACS, uma união civil que permite a duas pessoas maiores de idade – sejam do mesmo sexo ou não – formalizar a vida em comum. Esse acordo garante vários direitos semelhantes aos do casamento, porém com procedimentos mais simples e menos implicações jurídicas. Na época, o PACS era a única forma legal de reconhecimento para casais do mesmo sexo, na França. O governo do ex-primeiro-ministro também esteve por trás da criação da Cobertura Universal de Saúde, de programas de emprego para jovens e da lei da presunção de inocência.
Impulsionado pelo crescimento global, Jospin, que foi professor de economia, organizou um plano para combater o desemprego. As medidas apresentaram inicialmente resultados positivos: a taxa de desemprego francesa caiu de forma constante, ficando abaixo de 9%, em 2001. Para governar a França, Lionel Jospin contou com uma ampla aliança de esquerda na Assembleia Nacional: a “maioria plural”, que reunia socialistas, comunistas, membros do Partido da Esquerda Radical e os Verdes.
Com François Hollande (2012-2017) como presidente, Jospin liderou uma comissão sobre ética na política e fez parte do Conselho Constitucional, de 2014 a 2019.
Membro do Partido Socialista (PS), Lionel Jospin chegou, em 1981, ao cargo de primeiro secretário de sua agremiação política, substituindo o recém-empossado presidente François Miterrand. Nesse período foi também o número dois nos governos de Michel Rocard.
Após atravessar um período sem exercer cargos governativos, em 1994, anunciou a sua candidatura à presidência, contra Jacques Chirac e na sequência de Jacques Delors ter abdicado de apresentar a sua própria candidatura. Jospin perdeu as eleições, mas conquistou 47,5% dos votos.
De derrotado nas presidenciais, Jospin passou a vencedor nas legislativas. Como à época o mandato presidencial tinha duração de sete anos e as legislaturas duravam apenas cinco, Chirac decidiu dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições legislativas antecipadas após dois anos no poder. O presidente acreditava que, graças a seus índices de aprovação, seria possível vencer a disputa e, dessa forma, garantir o domínio da direita no parlamento durante todo seu período como chefe de Estado. O resultado do pleito viria a frustrar os objetivos do presidente, sagrando como vencedora a coalizão oposicionista liderada por Jospin. Por consequência, o socialista assumiu o cargo de primeiro-ministro no dia 2 de junho de 1997, no terceiro caso de coabitação da história republicana francesa. Seu governo se baseou numa aliança de diversos partidos progressistas batizada de Esquerda Plural e composta pelo Partido Socialista, pelo Partido Comunista Francês, pelo Partido Verde e pelo Partido Radical de Esquerda.
Em abril de 2001, o saudoso e querido amigo Reitor Cândido Mendes recebeu o Primeiro-Ministro Jospin, para ministrar uma Aula Magna na sede da Instituição, no Centro do Rio, ocasião em que eu, Reitor da UniverCidade, fui apresentado ao líder francês, juntamente com os Reitores Paulo Alcântara Gomes, da UFRJ, Antônio Celso Alves Pereira, da UERJ, e Gilberto de Oliveira Castro, da Estácio de Sá.
Um ano depois, Jospin foi mais uma vez candidato à presidência da República, sendo tido na ocasião como o favorito para disputar o segundo turno contra Chirac, que se apresentava para a reeleição. As eleições foram marcadas pela circunstância de os partidos que garantiam a base parlamentar do governo socialista terem lançado candidatos próprios à presidência, como Noel Mamère (Verdes), Robert Hue (PCF) e Christiane Taubira (PRG).
A dispersão de votos à esquerda e o surpreendente desempenho de Jean-Marie Le Pen, candidato do partido de extrema-direita Frente Nacional, relegaram a Lionel Jospin um terceiro lugar na primeira etapa do escrutínio, excluindo-o da disputa. Decepcionado com tal insucesso eleitoral, Jospin anunciou a sua retirada do mundo da política logo após a apuração dos votos e a confirmação dos resultados. Na ocasião, em 21 de abril de 2002, declarou:
Para além da demagogia da direita e da dispersão da esquerda que tornaram possível essa situação, eu assumo plenamente a responsabilidade desse fracasso e tiro dele as conclusões, me retirando da vida política após o fim da eleição presidencial.
Em janeiro deste ano, Jospin anunciou ter sido submetido a uma “cirurgia delicada”, embora sem revelar mais pormenores sobre o seu estado de saúde.
Pensador notável, orador eloquente, político habilidoso, inteligência viva e brilhante, frasista, afeito ao diálogo, ético, sério, respeitador das diversidades, Lionel Jospin deixa seu nome gravado definitivamente na história política da França e seu exemplo, pela forma de ser e de agir, é um legado a ser perseguido. Exemplo para as novas gerações.
















