Lula questiona BC sobre corte da Selic: ‘Esperava pelo menos 0,5%’

'Nós estamos fazendo um sacrifício que vocês não têm noção', disse

496
Lula em entrevista à CBN (foto de Ricardo Stuckert, PR)
Lula em entrevista à CBN (foto de Ricardo Stuckert, PR)

O presidente Lula contestou o corte de 0,25 ponto percentual na Taxa Selic, juros básicos da economia. Apesar das tensões em torno da guerra no Oriente Médio, o Banco Central cortou os juros pela primeira vez em quase dois anos na reunião desta quarta-feira.

“Estou triste, porque eu esperava que o nosso Banco Central baixasse o juro pelo menos em 0,5%. E baixou só em 0,25, dizendo que é por causa da guerra. Essa guerra até no nosso Banco Central? Não é possível”, disse.

Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 15% ao ano para 14,75%. A decisão era esperada pelo mercado financeiro, de acordo com dados do boletim Focus, ainda que parte dos analistas apostasse em uma redução maior. Antes da escalada do conflito no Oriente Médio, a expectativa predominante era de um corte de 0,5 ponto.

“Estamos fazendo um sacrifício que vocês não têm noção. O sacrifício que nós estamos fazendo para fazer a economia crescer, para fazer a geração de emprego, para aumentar o salário das pessoas, vocês não têm noção”, acrescentou Lula, em referência aos impactos que a Selic em alta causa na economia, como a desaceleração da atividade econômica.

Espaço Publicitáriocnseg

Em 15% ao ano, a Selic estava no maior nível desde julho de 2006, quando era de 15,25% ao ano. De setembro de 2024 a junho de 2025, a taxa foi elevada sete vezes seguidas, mas não foi alterada nas quatro reuniões seguintes.

Na ata da reunião de janeiro, o Copom afirmou que iniciaria um ciclo de corte nos juros na reunião desta semana, mas o comunicado divulgado ontem trouxe mais cautela diante do aumento das incertezas provocado pelo conflito no Oriente Médio. O BC não descartou rever o ciclo de baixa, caso seja necessário.

A taxa básica de juros serve de referência para as demais taxas da economia e é o principal instrumento do Banco Central para manter a inflação sob controle. A previsão do mercado é que a Selic encerre 2026 em 12,25% ao ano.

A inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acelerou para 0,7% em fevereiro, pressionada por gastos com educação. No entanto, o acumulado em 12 meses recuou para 3,81%, abaixo dos 4% pela primeira vez desde maio de 2024.

Segundo o último Boletim Focus, a estimativa de inflação para 2026 subiu de 3,8% para 4,1%, por causa do conflito no Oriente Médio. Isso representa inflação pouco abaixo do teto da meta contínua estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%, podendo chegar a 4,5%, com o intervalo de tolerância de 1,5 ponto.

‘Juro alto desestimula a indústria, limita inclusão social e agrava dívida pública’, diz o Ciesp

“É um absurdo que, de cada 10 empresas do setor, oito enfrentem dificuldades para obter crédito devido aos juros elevados”, conforme revelou recente pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Diante dessa constatação, cabe ponderar, à véspera da segunda reunião do Copom em 2026, que a tendência constante do Boletim Focus de segunda-feira (16/03), de que a Selic recuará apenas 0,25 ponto percentual, caindo para 14,75% ao ano, ainda está muito aquém da necessidade de retomarmos um crescimento econômico mais robusto”.

A opinião é de Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “A política monetária é restritiva demais e está inviabilizando o crédito, o que significa menos investimentos, menor expansão do PIB, geração de empregos aquém do potencial e dificuldades para o empreendedorismo”, observa.

“As alegações para manter a Selic tão elevada também precisam ser analisadas de modo mais aprofundado”, salienta o presidente do Ciesp, ponderando: “O encarecimento do petróleo e os impactos das guerras em curso no mundo pressionam a inflação, mas não podem travar nossa economia. Produzir mais e colocar mais produtos à disposição do consumidor refreia a majoração dos preços e estimula o aumento do PIB. É preciso enfrentar a conjuntura geopolítica com mecanismos inteligentes e criativos, que mantenham nossa economia dinâmica e competitiva”.

Quanto à questão fiscal, que, na visão de Cervone, precisa de fato ser equacionada pela União, estados e municípios, cabe considerar que o juro alto apenas agrava o déficit, pois, segundo estimativa do próprio Banco Central, a cada ponto percentual de aumento na Selic, o gasto com a dívida pública brasileira cresce cerca R$ 55 bilhões. “Esse fator reduz muito a capacidade de investimento do governo nas prioridades do País, que se transformou em refém de uma das mais elevadas taxas de juro do mundo por um período muito grande de tempo”.

Para a indústria, que exige investimentos constantes em inovação, atualização tecnológica, aquisição e manutenção de máquinas e equipamentos, além dos gastos permanentes com insumos e matérias-primas, os juros altos são particularmente danosos, enfatiza o presidente do Ciesp. “Ou seja, a Selic continua sendo um dos principais entraves ao avanço do nosso setor, restringindo investimentos produtivos, justamente em um momento em que é necessário ampliar sua capacidade produtiva e fortalecer a competitividade”, alerta.

Com informações da Agência Brasil

Siga o canal \"Monitor Mercantil\" no WhatsApp:cnseg