Mais humildade

A insistência do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e do ministro Pedro Malan em impor condições a um futuro governo da oposição equivale a um retorno de Edward J. Smith, o comandante do Titanic, ao convés de um desses navios modernosos exigindo, aos berros, a perpetuação dos fundamentos do seu jeito de navegar. Com cerca de 80% do eleitorado tendo votado na oposição no primeiro turno, o melhor que Fraga, Malan e que tais têm a fazer é seguir o estilo oriental e pedir desculpas aos brasileiros pela desastrosa herança que deixam às próximas gerações.

Insegurança
A governadora eleita do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus, deveria deixar de lado a idéia fixa de se demarcar do governo de Benedita da Silva. Além de demonstração de insegurança, a estratégia já está rendendo muita dor de cabeça à futura governadora. As declarações precipitadas sobre a devolução do dirigível e sobre a possibilidade de retirar os bloqueadores de celular do presídio de Bangu (esta depois desmentida) levam muitos moradores do estado – seus eleitores inclusive – a questionar se Rosinha quer melhorar a segurança do Rio ou voltar ao tempo em que os chefetes do tráfico circulavam impunemente por seus domínios.

Rebanho
Rosinha tem a quem puxar. Seu marido, Anthony Garotinho, repete a estratégia ao fazer seguidas exigências, ainda que mais tarde atenuadas, para apoiar o PT. “Cacifado” por mais de 15 milhões de votos, Garotinho passou a ser um político de projeção nacional; daí a conseguir transferir esses votos para Lula há uma distância maior do que a que separa Rio de Brasília. Acostumado a igrejas evangélicas, o ex-governador do Rio parece confundir eleitor com seguidor fiel. Mais ainda se levarmos em conta que ele teve o voto mais conservador, ligado a igrejas como a Assembléia de Deus e a Igreja Universal (do “bispo” Macedo). A tendência a ficar com o candidato da situação é grande entre esse público.

Barreira
Tal qual os Estados Unidos, que fazem freqüentes exigências ao Iraque e, apesar de aceitas por Saddam Hussein, insistem em atacar o país rico em petróleo de qualquer maneira, Garotinho parece estar apenas criando barreiras para justificar a falta de apoio a Lula, tal qual Janio de Freitas denunciou na sua coluna de sexta-feira. A eleição do candidato petista não é exatamente favorável às aspirações do ex-governador do Rio, que poderia ter melhor chance na futura eleição se o escolhido dia 27 fosse o tucano José Serra.

Caminhão de votos
A ousadia de Enéas, ao ser o deputado federal mais votado do Brasil, provocou a ira dos jornais conservadores – colunistas que fingem entender de política à frente. Os “donos do mundo” (como gosta de os classificar o colaborador do MM e ex-candidato do Prona a prefeito do Rio Marcos Coimbra) usam adjetivos, em vez de argumentos, que podem ser resumidos em três categorias:
Preconceito – mulato, franzino, careca, com óculos grandes e barba maior ainda, Enéas vai contra o padrão cultuado pelas elites;
Antinacionalismo – as teses nacionalistas defendidas pelo deputado eleito causam enjôo a essa parte da imprensa, que tenta desqualificá-las classificando-as como “ultrapassadas” ou “direitistas”;
Cinismo – defendem a mudança nas regras da eleição agora que o beneficiado foi alguém de fora do “sistema”; não se ouvia críticas quando a legislação ajudava a eleger algum bispo ou pastor ou um deputado que votasse contra os direitos dos trabalhadores.

Expert
Enéas, aliás, merece o título de doutor honoris causa de qualquer faculdade de marketing.

Fauna paulista
Em São Paulo, o boato também chegou na frente do fato. Abertas as urnas, o candidato a deputado federal pelo PV Boato teve 10.163 votos, ficando em 216º lugar na lista geral do estado, seis posições à frente de Gesofato, do PPB e que teve o apoio de 9.631 eleitores.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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