Malandragem

Os investimentos diretos, que o Governo teima em dizer que se encontram em ascensão e já beiram a casa dos US$ 20 bilhões, em grande parte são obra de ficção. Boa parcela refere-se a pré-pagamentos de exportação que estão sendo cancelados e transformados em investimentos diretos – Certificados Firce (Fiscalização e Registro da Capital Estrangeiro) – como forma de proteger-se da desvalorização do real frente ao dólar e da remuneração negativa em moeda nacional no período. Com isso, os malandros estão protegidos, já que asseguram o valor dos dólares no momento do pré-pagamento da exportação e poderão retornar com os respectivos dólares sem qualquer problema a qualquer momento. O presidente do BC, Armínio Fraga, se tem interesse em barrar o esquema, deveria avocar para Brasília todos os pedidos dessa natureza que estão sendo deferidos pelas Delegacias Regionais do BC.

Poder
As matérias publicadas pela revista CartaCapital mostrando o poder dos escritórios norte-americanos no combate ao tráfico de drogas no Brasil não parecem estar incomodando o Governo Federal. Ontem, o próprio FH receberia o general Barry R. McCaffrey, diretor do Escritorio Nacional de Politica de Controle de Drogas dos EUA. Parece continuar falando mais alto quem banca os custos.

Contaminação
Preocupados com queimadas e animais em extinção, os técnicos do Ibama parecem ter descuidado do seu meio ambiente de informática. Nota enviada ontem por e-mail para os jornais estava infectada com vírus.

Amigos dos monopólios
Quando a Alcoa anunciou a compra da Reynolds, o ministro Francisco Dornelles aproveitou para cobrar uma flexibilização ainda maior do Conselho de Defesa Econômica (Cade) no combate à formação de monopólios: “Se fosse aqui, o Cade vetava”, ironizou. Antes fosse verdade. Analistas internacionais prevêem que a incorporação pela Alcoa custará 20 mil empregos aos trabalhadores da Reynolds. Mas quem pensa que Dornelles é indiferente à sorte dos desempregados, não conhece seu empenho por seus apadrinhados no Ministério do Trabalho. Chega a ser comovente.

Usura
A Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias  da  Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei ampliando o período de detenção  para os acusados de crimes de usura. O projeto ampliou o prazo de detenção dos acusados de agiotagem do mínimo de seis meses para dois anos e a pena máxima de dois anos para quatro anos. Entre as circunstâncias consideradas agravantes, o projeto cita o cometimento do crime “em época de crise econômica, ocorrência de grave dano individual e sua prática por pessoas mais ricas do que a vítima”. Ou seja, embora o projeto tenha sido de iniciativa do Executivo, seu principal alvo potencial é o Banco Central.

Inocente
Apesar dos eternos maledicentes, não é verdade que o ex-deputado Sérgio Naya tenha construído alguns dos prédios atingidos pelo terremoto que atingiu Istambul, na Turquia. Os boatos, infundados, surgiram quando a imprensa turca acusou as construtoras de utilizarem material de qualidade inferior nos prédios e deixar de reforçar as estruturas das edificações.

Esperando o bug
O Governo canadense anuncia que seus mais importantes sistemas e equipamentos estão 99% prontos para enfrentar o bug do milênio. O Canadá admite que certeza total é impossível, mesmo sem o bug do ano 2000 para atrapalhar. Até o momento, o país utilizou 2,5 bilhões de dólares canadenses para regular os sistemas, envolvendo mais de 11 mil pessoas. Mesmo afirmando estar preparado, o Governo está finalizando planos de contingência em todas as áreas essenciais, para que os negócios prossigam normalmente após 31 de dezembro.

Dupla
Nada  mais apropriado do que se Gustavo Franco, ex-presidente do BC, for trabalhar com Maílson da Nóbrega na consultoria do ex-ministro da Fazenda. Ficariam juntos assim o responsável pela  mais rápida evolução da dívida pública nos tempos recentes com o campeão de inflação (Maílson bateu 84% em março de 90, no Governo Sarney). Comercialmente, a dupla é imbatível – qual empresário consciencioso não gostaria de ter um paper com as previsões deles, para saber exatamente o que não deveria fazer?

Emprego
Essa coluna também sabe elogiar, nas poucas – raríssimas – vezes em que o Governo acerta. A decisão de frear a implantação de bombas de combustível self-service nos postos protege o emprego dos frentistas sem prejudicar o consumidor – os descontos eram ínfimos. E nada de falar em contramão ou que no Primeiro Mundo é diferente. Para proteger empregos nos jornais, por exemplo, os Estados Unidos retardaram durante anos mudanças tecnológicas na imprensa. Até hoje, redações na Europa ou no Brasil são  mais avançadas tecnologicamente que norte-americanas. E ninguém pode dizer que os jornais dos EUA não sejam lucrativos e bem sucedidos.

Pegando o chapéu
A histeria e o nervosismo que tomou conta do Planalto nos últimos dias reforçam os boatos: será que o presidente FH vai aderir ao PDV?

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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