Manias

Centenas de investidores subscrevendo ações; seis vezes mais ofertas de compra do que papéis à venda; preço das ações subindo 10% em poucas horas; companhias recém-fundadas obtendo milhões em poucas horas. Não é, como pode parecer à primeira vista, uma descrição do movimento da Nasdaq em plena euforia, como em 10 de março do ano passado, quando o cassino eletrônico atingiu seu pico de 5.048,62 pontos (ontem fechou em 2.014,65 pontos). As cenas relatadas no início do parágrafo aconteceram entre 1716 e 1720, em Paris e Londres, em duas das “bolhas especulativas” mais famosas da História. Não foram as primeiras, porém. Charles Poor Kindleberger, professor e historiador econômico, em seu livro mais famoso, Manias, Pânico e Crashes, relata que a primeira crise financeira ocorreu entre 1618 e 1623, no Sacro Império Romano, seguida pela “Mania das Tulipas” (1636-37), na Holanda.
Esta coluna não quer se transformar em aula de História, mas vai lembrar, ao longo da semana, fatos pitorescos que mostram a que ponto chega a cegueira daqueles que acham que se pode criar riqueza do nada. Fatos como o da nota abaixo.
Pontocom
O sucesso inicial da Companhia dos Mares do Sul, que tomou conta de Londres em 1719, motivou o surgimento de novas companhias acionárias, que pipocavam como “bolhas”. A Exchange Alley, centro do comércio financeiro londrino, se viu tomado por multidões que disputavam os lançamentos de ações (os IPOs da época) a ponto de um banqueiro holandês observar que a rua se assemelhava a algo como que “quase todos os lunáticos tivessem escapado do hospício de uma só vez”. No auge da especulação, surgiu – e angariou milhões de libras esterlinas – uma companhia que planejava construir o moto perpétuo. Outra, também de grande sucesso, tinha um nome sugestivo: Companhia para Lançar um Empreendimento de Grande Vantagem, mas Ninguém Sabe o que É.

Intactos
O Congresso Nacional precisa disciplinar, o mais breve possível, o financiamento público de campanha e a fidelidade partidária, defendeu o senador Amir Lando (PMDB-RO). Projeto do senador regulamentando o financiamento público está paralisado no Congresso Nacional desde 1992, quando ele relatou a CPI do PC Farias. Ao lembrar a idéia implícita de corrupção montada no Governo Fernando Collor de Mello, o senador desabafou: “A justificativa e a realidade são muito conhecidas; rouba-se para se eleger e se elegendo rouba-se, porque a eleição está ganha e aí é preciso pagar as dívidas”. E acrescentou: “Aquele esquema não foi único, nem exclusivo; os mecanismos estão aí, intactos, e uma minoria que detém as rédeas do poder se locupleta sempre que pode, e quase sempre pode”. O senador reiterou a necessidade da criação de um sistema eleitoral “capaz de evitar o tanto quanto possível essa interferência de interesses que comprometem o processo eleitoral”. Citou os principais: empreiteiras, sistema financeiro e prestadores de serviços diversos.

Garantia
O contrato para os projetos das usinas termelétricas previstas para o Estado do Rio de Janeiro será assinado hoje, na Secretaria estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, entre a Petrobras (Gaspetro) e a CEG, que garantirá o fornecimento de gás. Participam do evento o secretário Wagner Victer, o diretor de energia da Petrobras, Delcídio do Amaral Gomez, e o presidente da CEG e CEG Rio, Andrés Membrillo Bonilla. “Este é um passo decisivo para a consolidação do parque de geração de energia do estado, que já possui nove projetos de termogeração em desenvolvimento. Sendo assim, reduziremos a possibilidade de racionamento, pois pelos menos dois projetos entrarão em operação ainda neste ano”, comentou Victer.

Mundo real
As novas rebeliões nos presídios paulistas e as explosões de violência em áreas carentes do estado dissiparam, antes mesmo da missa de sétimo dia de Mário Covas, a cortina cor de rosa com que a mídia “chapa branca” esforçou-se em colorir as conseqüências do desastroso ajuste fiscal promovido pelo tucano.

Cortes
“Foram os ingleses que forçaram o encerramento do programa europeu de vacinação contra a febre aftosa e vejam onde estamos agora.” O desabafo foi feito por um inspetor veterinário belga e publicado no respeitado jornal londrino The Guardian, no final do mês passado. Os cortes orçamentários e a desregulamentação reduziram drasticamente programas de imunização e de controle sanitário, especialmente na Inglaterra durante o Governo Thatcher. Esses cortes, sem dúvida, contribuíram para as epidemias na Europa, que começaram justamente em animais ingleses.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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